Estados Unidos se armam contra ataques cibernéticos

Após criar a primeira estratégia internacional para o ciberespaço, EUA lançam plano de defesa contra guerra virtual que prevê, inclusive, o uso da força

São Paulo – Na semana passada, os sites do Senado e da inteligência americana foram hackeados pelo grupo intitulado Lulz Security, que já havia atacado os sistemas das empresas Sony e Nintendo. Os sites governamentais não sofreram danos. O objetivo do grupo de hackers, além de se ‘divertir’, era apenas escancarar a vulnerabilidade dos sistemas.

Os prejuízos, no entanto, poderiam ser enormes – e os Estados Unidos sabem disso. Nenhum país está mais mergulhado num dos paradoxos da era digital: quanto mais tecnologia detém, mais se torna vulnerável a ciberataques. “São tantos os serviços básicos e sistemas de defesa totalmente baseados em plataformas digitais que os estragos potenciais de um grande ataque são assustadores”, diz o especialista em cibersegurança Mikko Hypponen, pesquisador-chefe da empresa finlandesa F-Secure.

Para evitar que ataques futuros ganhem dimensão de guerra cibernética e coloquem em perigo a segurança do país, o Pentágono deve lançar ainda este mês uma estratégia de defesa especialmente desenhada para blindar suas redes. No novo desenho, o governo americano poderá usar todos os meio necessários para impedir ataques – inclusive a força.

A tática do departamento de Defesa faz parte de um plano maior: a primeira estratégia internacional para o ciberespaço de toda a história, anunciada pelo presidente Barack Obama em 16 de maio. O projeto, mais amplo, abrange questões que vão do livre acesso à internet à luta contra cibercrimes, passando por inovações econômicas, diplomacia e defesa.

“A estratégia reúne todos os diferentes aspectos das nossas atividades no espaço cibernético (não só no ciberespaço americano) e propõe alternativas para podermos operar em um sistema seguro de informação e comunicação”, disse ao site de VEJA o coordenador de assuntos cibernéticos do departamento de Estado americano, Christopher Painter.


Vulnerabilidade – Para deixar claro que essa guerra do futuro não será travada apenas por jovens nerds por trás de teclados e monitores, os americanos já anunciaram que podem responder a ciberataques da mesma forma que responderiam “a qualquer outra ameaça ao país”, ou seja, com o uso da força. ”Nos reservamos o direito de utilizar todos os meios necessários – diplomático, informático, econômico e até militar – adequados e compatíveis com a aplicação do direito internacional”, adverte o documento lançado por Obama. O objetivo: “Defender nossa nação, nossos aliados, nossos parceiros e nossos interesses”.

A estratégia específica, porém, que o uso de força militar só será acionado se todas as demais opções estiverem esgotadas e, mesmo assim, com o o aval do presidente. “O que nós realmente estamos tentando alcançar é um consenso entre os países para tornar o ciberespaço um lugar mais seguro”, explica Christopher Painter. “Não se trata de enfatizar os aspectos militares.”

Dimensão – Para Hypponen, que já aconselhou o governo americano na elaboração de leis para coibir cibercrimes, nem os especialistas têm a real dimensão de como essas ameaças podem pôr em risco a segurança de um país. “Nós ainda não entendemos muito bem os riscos inerentes à tecnologia”, afirma. “Só vamos descobir isso nos próximos anos ou décadas.” O especialista explica que, até hoje, a maioria dos ciberataques foi cometida por hackers como um “desafio”, ou por criminosos para roubar dinheiro.

Quanto a ataques contra nações, o que ocorre com mais frequência são atos de espionagem. “Nós regularmente vemos ciberataques com o objetivo de coletar arquivos de inteligência ou espionar outros países”, diz Hypponen. “Isso não é guerra, é espionagem, e acontece o tempo inteiro.” Um exemplo mais próximo do que seria considerado guerra cibernética é o caso Stuxnet.

O vírus de Windows, criado para atacar sistemas de controle industrial utilizados e criados pela empresa alemã Siemens, atingiu uma das maiores usinas atômicas do Irã e, segundo Hypponen, atrasou o programa nuclear do país em dois anos. A identidade do responsável pelo ataque, porém, continua desconhecida.

Responsabilidade – A dificuldade em atribuir a responsabilidade de cibercrimes é, para o coordenador de assuntos cibernéticos do departamento de Estado americano, o maior problema do ciberespaço. “A atribuição é difícil e há uma gama de ameaças por aí, incluindo grupos criminais sofisticados de hackers, nações e até terroristas, apesar de eles usarem a tecnologia mais para planejar do que para atacar”, diz Painters.


“Esse é um dos motivos pelos quais estamos trabalhando com outros países: queremos levar a eles algumas dessas questões, para construir um pouco de confiança entre as nações e conseguir algum acordo quanto a normas de comportamento responsável.”

Brasil – Um dos países envolvidos nos diálogos de segurança cibernética com os Estados Unidos é o Brasil que, nas palavras de Painters, é um parceiro importante no combate ao crime cibernético. No segundo semestre deste ano, as Forças Armadas brasileiras vão inaugurar o seu primeiro Centro de Defesa Cibernética (CDCiber), que reunirá cerca de 100 oficiais do Exército em um prédio nos arredores de Brasília.

São passos inaugurais no âmbito da defesa cibernética. Segundo o especialista em guerra cibernética e ex-pesquisador do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA) André Melo Carvalhais Dutra, trata-se de uma iniciativa necessária. “Quanto mais o país cresce e se torna influente, mais tende a ganhar inimigos, ainda que seja internacionalmente reconhecido como um país pacífico”, diz ele.