Coleção de Maurício de Nassau inspira antropólogos

Antropóloga acompanha percurso de objetos, artefatos e ornamentos reunidos no século 17 pelo conde alemão no Brasil e levados depois na Europa

São Paulo – O conde alemão João Maurício de Nassau-Siegen aportou no Recife em 1637, designado governador-geral do Brasil holandês. Durante os oito anos em que aqui esteve, Nassau colecionou espécies tropicais, anotações sobre a flora e a fauna, desenhos, aquarelas, pinturas a óleo – boa parte delas assinadas por Albert Eckhout e Frans Post –, além de artefatos indígenas, objetos e ornamentos de nações africanas.

Quando voltou aos Países Baixos, em 1644, levou consigo esse “gabinete de curiosidades”, designação dada às coleções dos séculos 16 e 17. O acervo chegou a ser exibido em Haia e em Cleve, entre 1644 e 1652, antes de o próprio Nassau fragmentá-lo na forma de presentes à alta nobreza do norte da Europa, transformando-o num “capital simbólico” que lhe permitiu recuperar o prestígio político e social desgastado na Colônia. O que restou da coleção se dispersou com a sua morte.

No livro De Olinda a Holanda, lançado no dia 21 de outubro pela Editora da Unicamp com apoio da FAPESP, a antropóloga Mariana de Campos Françozo reconstitui a trajetória de parte da coleção de Nassau.

A autora acompanha o percurso de vários objetos – alguns códices, um manto de penas, uma bacia de prata, entre outros – e analisa seu impacto nos circuitos de “trocas de saberes” sobre o mundo colonial. “Interpretar a cultura material ao lado e à luz das fontes históricas é uma forma muito rica de acessar os múltiplos sentidos do passado”, diz Françozo.

O livro é resultado da sua tese de doutorado defendida em 2009 no Instituto de Filosofia e Ciência Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob a orientação de John Manuel Monteiro.

No primeiro capítulo, além da biografia do conde, Françozo procura mostrar como a participação dos holandeses no comércio atlântico intensificou a circulação de “coisas” entre o Novo Mundo e a Europa e como essas “coisas” eram consumidas no país de destino, quer seja na forma de mercadoria ou de objetos incorporados às coleções.

A coleção de Nassau, nessa perspectiva, tem papel revelador sobre a experiência holandesa nos trópicos e a representação mais genérica sobre o Brasil colonial. Ocupa, na avaliação de Françozo, um lugar de transição entre os registros do século 16 – “focados nas maravilhas e excepcionalidades” e na busca de confirmação para saberes clássicos – e os do século 18, mais exploratórios e científicos.

“No século 17, colecionar era parte da política e dos projetos coloniais, mas também parte integrante e essencial do desenvolvimento do pensamento e conhecimento científicos na Europa. Era preciso conhecer o mundo nas suas mais diversas formas, por motivos diversos: religiosos, políticos, econômicos e humanistas.”

No segundo capítulo, Françozo trata da experiência de Nassau como governador e da formação de sua coleção. Como se sabe, o conde chega a Pernambuco trazendo consigo, além de 2.700 soldados, um grupo de cientistas e artistas que criaram um dos mais eloquentes registros textuais e visuais sobre a experiência holandesa na América do Sul.

“Nassau estava interessado em entender o mundo à sua volta. Foi dos poucos governadores coloniais europeus que tinha um projeto de conhecimento tão amplo, tão importante, tão decisivo”, ela observa.

Georg Markgraf foi um dos que chegaram ao Brasil trazido por Nassau. Tinha estudado Botânica, Matemática, Medicina e Astronomia em 10 universidades europeias – e ganhou de Nassau o primeiro observatório astronômico do Novo Mundo. Participou de cinco expedições ao interior da Colônia, fazendo anotações de história natural, astronomia e cartografia, todas elas incorporadas à coleção do conde.

Markgraf é coautor de Libri principis, um dos três livros da coleção de Nassau – ao lado de Theatrum rerum naturalium Brasiliae e Miscelânia cleyeri – encontrados atualmente no acervo da Biblioteca Jaguelônica de Cracóvia, na Polônia.

Os livros ganham a atenção da autora no capítulo 3. “Na Holanda do século 17, assistiu-se a um movimento importante na tradição artística, em que os pintores passaram a retratar o mundo de forma descritiva, isto é, de acordo com o que viam – isso ficou conhecido como pintura ‘naer het leven’ e foi magistralmente explicado por Svetlana Alpers em A Arte de Descrever, publicado no Brasil pela Edusp. O desenvolvimento das artes e das Ciências Naturais andava lado a lado naquele período.”

Os livros da coleção de Nassau reúnem descrições textuais, anotações e 900 desenhos de história natural em diversas técnicas, assinados por cinco artistas, entre eles Eckhout. Os desenhos reproduzem flora e fauna do jardim do Palácio de Vrijburg, no Recife, e do interior de Pernambuco.

“Através do olhar atento do artista e de sua habilidade, todo o mundo visível era registrado, de forma que as artes visuais, e em especial a pintura, formavam o meio por excelência para conhecer e compreender o mundo”, ela escreveu.

Numa época em que crescia vigorosamente o conhecimento empírico do mundo, os desenhos de Eckhout e as descrições de Markgraf são registros meticulosos e “eloquentes” das coisas da natureza, ela sublinha. Exibidos na Europa, atiçavam a curiosidade e ampliavam o conhecimento empírico sobre o Novo Mundo.

Doados a Frederico Guilherme, duque da Prússia, em 1652, alguns desses desenhos trazem anotações de próprio punho de Nassau, notadamente o Libri principis: o sagui “não é maior que o pulso de uma senhora”; o cachorro brasileiro é “indolente e malconformado”; o caranguejo “mesmo cru é saboroso”. Esse tipo de descrição servia de propaganda e, ao mesmo tempo, de guia para os interessados em conhecer o Novo Mundo, explica a autora.

Outro livro, História Natural do Brasil, traz desenhos e registros semelhantes. Com publicação comissionada por Nassau e lançado pela casa editorial Elsevier em Amsterdã, em 1648, é considerado o primeiro tratado de história natural sobre o país por sua amplitude e abrangência. “Na parte da Biologia, continuou sendo referência por pelo menos dois séculos, e ainda hoje é importante para entender os conhecimentos indígenas que foram depois incorporados pela ciência europeia”, diz Françozo.

Um olhar antropológico sobre o Brasil Holandês

A busca dessa coleção exigiu fôlego. Françozo percorreu 30 museus, bibliotecas e arquivos em sete países: Brasil, Estados Unidos, Holanda, Alemanha, França, Dinamarca e Inglaterra. Isso sem falar nas consultas aos catálogos de leilões de arte da Christie´s e Sotheby´s.

Nesse esforço, contou com bolsa de doutorado do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e uma bolsa-sanduíche da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

“Fui pesquisadora visitante do Centro de Pesquisa e Documentação sobre América Latina (Cedla) da Universidade de Amsterdã. Encerrada a bolsa de doutorado, contei com um auxílio-pesquisa do Grupo Coimbra, que me permitiu ficar dois meses no Departamento de Antropologia da Universidade de Aarhus, na Dinamarca”, ela conta.

A pesquisa continuou com uma bolsa de pós-doutorado da Fundação Fritz-Thyssen que patrocinou o período de consultas na Biblioteca de Gotha, na Alemanha. “Para a publicação do livro, tive apoio FAPESP, bem como da Faculdade de Arqueologia da Universidade de Leiden, onde atualmente sou professora.”

Foi como “montar um quebra-cabeça”, ela resume. “Deparei, por exemplo, com um artigo em dinamarquês que citava uma fonte manuscrita em holandês antigo que, por sua vez, se relacionava com um artefato de museu que está na França e com outra fonte em alemão impresso em letras góticas. Precisei consultar especialistas, me afundar no dicionário e não ter pressa.”

Seu trabalho foi em boa parte facilitado pelo fato de ela falar holandês e alemão. O domínio do holandês – adquirido na adolescência – também pesou na escolha do tema de pesquisa. “Eu queria estudar algum aspecto do período colonial no Brasil que me permitisse formular questões a partir de um olhar antropológico. Meu orientador sugeriu que eu fizesse uso do meu conhecimento do holandês e enfocasse o período que ficou conhecido como Brasil holandês. Elegi o colecionismo dos holandeses, tema ainda pouco explorado.”

Seu livro traz, além de uma rica bibliografia, uma lista de fontes de arquivos, bibliotecas e museus. E o livro é ilustrado com 44 imagens – algumas delas capturadas pela própria autora – com as “coisas” que compuseram o gabinete de curiosidades de Nassau.

Uma dessas imagens ela encontrou em suas andanças pelo Castelo de Wasserburg-Anholt, em Isselburg, Alemanha. Ali, na Sala dos Cavaleiros, chamou-lhe a atenção o retrato da princesa Sofia do Palatinado (1630-1714), coberta com um manto feito de penas vermelhas, tendo ao fundo uma paisagem tropical.

O quadro, pintado pela irmã da princesa, Louise Hollandine do Palatinado, é prova de que pelo menos um manto trazido por Nassau circulou na corte de Haia. Muito provavelmente, supõe Françozo, a princesa o vestira para um baile à fantasia. Mary Stuart, princesa de Orange e esposa do príncipe herdeiro Guilherme II, também usou manto semelhante cedido por Nassau para fantasiar-se de indígena, em 1655.

Tapuias, Carapatós e Vaibepas

Além de mantos de pena e outros objetos, Nassau teria, segundo as fontes, trazido consigo 11 indígenas: dois Tapuias e quatro Carapatós e Vaipebas, além de outros cinco “brasilianos”. Os “selvagens” teriam dançado nus para um grupo restrito de convidados em 12 de agosto de 1644, em uma festa em sua casa – construída com espaço suficiente para abrigar sua coleção –, que reuniu o conselheiro do príncipe Frederico Henrique e alguns ministros protestantes.

“Os indígenas eram uma parte muito especial e peculiar do conjunto de elementos exóticos que Nassau usava para representar e discorrer sobre seu tempo no Novo Mundo”, escreveu Françozo no quarto capítulo do livro.

Quando morreu, Nassau já tinha se separado de grande parte de suas curiosidades. Um inventário deu conta de que ele guardava um gabinete de madeira do Brasil com 49 tipos de instrumentos matemáticos e alguns animais empalhados, além de uma placa que ele mandara fazer em 1670, que o descreve como “piedoso e valente herói”.

A coleção de Nassau, ela conclui, foi uma estratégia política: “a coleção era aquilo que definia e adjetivava seu dono”. Mas as coleções atuais de museus permitiram à autora encontrar relações sociais que iam além da dicotomia colonizador versus colonizado e reconhecer “experiências históricas de personagens normalmente ignorados nas grandes narrativas”.