Caça aos Pokémons: início de uma nova era?

David Streitfeld
© 2016 New York Times News Service

San Francisco – Nesta época de assassinatos aleatórios e instabilidade política, quem poderia resistir à tentação de incrementar uma realidade agitada e assustadora com um pouquinho de faz de conta?

De acordo com o Vale do Silício, daqui a poucos anos teremos a realidade virtual, uma rota de fuga para um mundo de fantasia e ilusão. Enquanto isso, engatinhamos nessa direção com o Pokemon Go, um jogo transformado em uma espécie de esporte high-tech para pessoas de todas as idades.

Em princípio, o aplicativo é uma espécie de observação de pássaros digital: encontre criaturas fantásticas como Weedle e Golbat na natureza, colete tantas quanto puder, fique contente e ganhe o direito de se gabar.

Você provavelmente já viu artigos e fotos anunciando a chegada de uma obsessão espontânea, autêntica e generalizada. Grupos de pessoas que enchem uma área observando atentamente a tela do celular. O vídeo de um motorista que bateu em um carro de polícia parado em Baltimore enquanto jogava Pokemon Go. Histórias de pessoas que caíram de desfiladeiros, descobriram corpos e atravessaram ruas movimentadas sem olhar para os lados. É possível que você também tenha se perguntado se esse é um jogo que combinaria com você.

Para responder essas perguntas, baixei o aplicativo Pokemon Go, o que envolveu abrir mão do meu direito de ser processado por um tribunal, aceitar que o meu conteúdo poderia ser parte do conteúdo do jogo, mas que o conteúdo do jogo jamais seria meu, além de assegurar que não faço parte da lista de pessoas proibidas ou restritas pelo governo dos EUA. Sem falar nas muitas outras cláusulas que eu fiquei com preguiça de ler.

Depois disso, carreguei a bateria do celular e fui até o Dolores Park, uma área verde no centro da cidade que foi palco do primeiro evento programado do Pokemon Go em San Francisco. Mais de 9.000 seres humanos confirmaram no Facebook que estariam presentes no evento. Não haveria lugar melhor para desvendar os segredos dessa nova sensação.

Fazia 21 graus; a noite de verão estava perfeita. O aplicativo me contou que estava passando pelo local onde o poeta Robert Frost havia nascido. Uma placa marcava o local, que era um dos lugares do jogo. O Pokémon citou Frost: Assim era a vida em Golden Gate:/Ouro salpicado sobre o pão e o leite,/Eu era uma das crianças que não ficou sem saber,/“Nosso bocado de ouro, todos devemos comer.”

Aquele me pareceu um bom agouro, o Pokémon me contando algo interessante que eu não sabia sobre um lugar que ficava a poucos metros do meu escritório. No parque, as pessoas se espalhavam languidamente, fumando maconha e brincando com seus cachorros, sem qualquer preocupação na cabeça. Lentamente, um grupo se aglomerou em torno de uma estátua de Miguel Hidalgo, o patrono da independência mexicana. Quase todos eram jovens e a maioria esmagadora era branca. Em outras palavras, aquilo tinha a cara do Vale do Silício – ainda que com uma presença feminina consideravelmente maior.

Todo mundo observava os telefones com olhos fixos, capturando as criaturas que o aplicativo sobrepunha à paisagem. Aaron Orcino bebia uma lata de cerveja que havia comprado no caminho. O chamariz, segundo ele, “é a aleatoriedade. Você nunca sabe o que vai acontecer”.

Durante um bom tempo, não parecia que algo iria de fato acontecer no parque. Jornalistas de TV faziam entrevistas, a Haagen-Dazs distribuía sorvetes grátis. Com menos de 3 semanas, o Pokemon Go estava cumprindo seu destino como oportunidade de marketing e mídia.

Infantilização? 

Por fim, cerca de 200 pessoas se reuniram e nosso grupo partiu. Outra turma maior e mais diversificada, com umas 600 pessoas, também partiu do lado oposto do parque, o Ferry Building, e caminhou na nossa direção. Assim como todas as coisas que envolvem novas tecnologias, o tamanho da multidão que era esperada era realmente exagerado.

Caminhamos e capturamos alguns Pokémons no caminho. Sergio Gonzalez carregava uma garrafa de champanhe Veuve Cliquot, que ele generosamente compartilhou. “Essa é a minha infância se concretizando. Eu estou me reconectando com a minha geração”, afirmou Gonzalez, um sommelier que tinha 9 anos em 1996, ano da estreia do Pokémon original. Ele se virou para a mulher com quem estava caminhando e disse: “Se vamos passear juntos, é melhor nos apresentarmos formalmente. Eu me chamo Sergio”.

Recebi um e-mail de Michael Saler, autor do livro As If: Modern Enchantment and the Literary Prehistory of Virtual Reality (Até parece: o incremento moderno e a pré-história literária da realidade virtual), além de especialista nas realidades aumentadas que as empresas estão criando para nós.

Ele é bastante otimista. “O Pokemon Go está renovando tudo. Não se trata apenas da empolgação da caça, mas de cruzar outras pessoas que estão fazendo a mesma coisa. Esses aplicativos estão indo além da pura fantasia e ajudam as pessoas a apreciarem a realidade um pouco mais. Eles mostram que a natureza e a fantasia não são opostas e que podem se unir.”

Saler acrescentou que “sempre pensamos nessas inovações como o novo paraíso terrestre ou como o nono círculo do inferno. Mas elas nunca são nem um extremo, nem o outro. Há vantagens e desvantagens”.

Na verdade, depois de ler inúmeros comentários a respeito do Pokemon Go na internet, vi poucas críticas além de algumas preocupações com privacidade. Denúncias sobre a infantilização da cultura americana? Não encontrei. O triunfo da cultura pop é tão completo que ninguém nem percebe mais.

Na verdade, o que mais vi foi o entusiasmo com o fato de as pessoas saírem de novo às ruas, seja quais forem os meios. Quem estava participando da caminhada conosco concordou que isso era praticamente um milagre. “Se você tivesse me dito há uma semana que eu iria sair para ir ao parque, eu teria duvidado”, afirmou Anton, um programador que preferiu não revelar o sobrenome. Ele contou que agora joga Pokemon Go durante horas, correndo pelos parques da cidade para capturar os animais virtuais.

Tentei pegar o trem de volta para casa em East Bay, mas alguma coisa estava atrapalhando o trem. As telas e caixas de som da estação, com seus trens sempre lotados, afirmavam que ficariam sem serviço por algumas horas. A companhia recomendava que os passageiros tomassem o ônibus, mas, seguindo o hábito de contar multidões, típico do Vale do Silício, estimei que houvesse pelo menos 9.000 pessoas no terminal.

A única opção era chamar um Uber, que informou que o preço estava entre duas e três vezes mais alto que o normal. Minha viagem que geralmente custa 5 dólares acabou me saindo por 76 dólares: mais um bocado de ouro para o Vale do Silício.