Brasileira recebe prêmio por luta contra tráfico de animais silvestres

Juliana Machado Ferreira, foi escolhida com outros trezes jovens do mundo inteiro como Emerging Explorer 2014 da National Geographic Society

Uma das principais vozes no Brasil contra o tráfico de animais silvestres acaba de receber um grande reconhecimento pelo seu trabalho da mais importante e conhecida publicação internacional sobre o meio ambiente.

A pesquisadora, doutora em biologia genética e diretora executiva da Freeland Brasil, Juliana Machado Ferreira, foi escolhida com outros trezes jovens do mundo inteiro como Emerging Explorer 2014 da National Geographic Society. Segunda a entidade, as pessoas que recebem este título são cientistas, contadores de histórias e inovadores. O programa investe e apoia estes jovens que, de acordo com a publicação, são os visionários do amanhã: realizando descobertas, fazendo a diferença e inspirando pessoas a cuidar do planeta.

A brasileira também é uma TED Senior Fellow, integrante da famosa comunidade de palestrantes de destaque do mundo inteiro.

Juliana acaba de voltar de Washington D.C., capital dos Estados Unidos, onde recebeu o título e conheceu os demais Emerging Explorers deste ano. Conversamos com ela e nesta entrevista a pesquisadora nos conta sobre a importância da nomeação e os projetos com que está envolvida no momento.

Foi uma surpresa receber a nomeação da National Geographic?
Foi. Eles me procuraram no final do ano passado comunicando que eu havia sido selecionada. Alguém tinha indicado meu nome e depois disso um comitê de análise escolheria os quatorze finalistas. O processo incluiu algumas entrevistas por skype.

O que é exatamente o programa Emerging Explorer?
A National Geographic tem outro programa chamado National Geographic Explorers, com pessoas muito importantes que já fizeram grandes contribuições para o planeta, como a pesquisadora e ativista pelos oceanos Silvia Earle e o antropólogo Lee Berger. E a National acredita que os Emerging Explorers serão os futuros National Explorers. Eu me tornei bióloga por causa do Jacques Cousteau e da Jane Goodall. Eles imaginam que daqui a alguns anos outras pessoas vão se tornar biológas por causa da gente. A National aposta que seremos responsáveis por grandes pesquisas, alterações nos nossos respectivos campos de trabalho, vamos causar mudanças importantes.

Qual a sensação de receber este título?
É uma honra fenomenal. Quando eles anunciaram e chamaram no palco em Washington os emergentes, foi muito legal. Na plateia havia muitas pessoas da National Geographic que eu admiro e  elas estavam nos aplaudindo de pé. Foi uma sensação incrível para quem cresceu lendo a revista, cresceu assistindo documentários de Jacques Cousteau e Jane Goodall.

A partir de agora, o que muda na sua vida profissional?
Segundo eles, agora fazemos parte da família National Geographic SocietyQuando eu estava em Washington, fui apresentada a diversos setores deles: televisão, revistas, educação, crianças, conteúdo digital. Tive reuniões com eles e vi formas de colaborar e como eles podem me ajudar a dar luz às questões com as quais trabalho. Um dos meus colegas do Emerging Explores é um cara incrível e acabou de encontrar um esqueleto de dinossauro, único no mundo. Ele já vai colaborar com um especial para a revista de setembro e para a televisão. É um trabalho que dará notoriedade para todos nós e também contribuirá para o conteúdo da National.

Haverá colaboração também entre o próprio grupo?
Sim, pretendo colaborar já com uma das minhas colegas do Emerging Explorers. Estamos planejando que no ano que vem ela venha passar um mês aqui no Brasil. O programa também espera isso de nós, que sejamos um grupo coeso.

E como anda sua participação no TED?
Todos os fellows têm acesso a um grupo privado numa rede social, onde nos ajudamos, colocamos questões, pedimos colaborações. Há uma rede de contato superforte e poderosa. As pessoas são muito pró-ativas e isso auxilia na hora de conseguir indicações. Na prática, funciona de verdade! Estive num encontro com eles no ano passado no Canadá e vou encontrar novamente o grupo no próximo TED Global no Rio de Janeiro, em outubro.

Como a participação na comunidade auxiliou sua carreira?
Minha vida virou, mudou completamente de uma maneira muito positiva. Tive um enorme amadurecimento pessoal e profissional. Pessoalmente, me tornei uma cidadã do mundo. Profissionalmente, aprendi muito e amadureci meu trabalho. Antes ele era menor e mais localizado, hoje é mais amplo. De um doutorado em genética, atualmente faço colaborações internacionais para mudar a maneira como se trabalha o tráfico de animais silvestres de forma regional na América do Sul. Acabei de ter reuniões no Departamento de Estado e Justiça Americanos para tecer colaborações e fazer com que o trabalho tenha um impacto muito maior. E isso foi sobretudo graças ao TED, que me mostrou que eu precisava ampliar meu estudo. Ter uma palestra no TED é um cartão de visitas fenomenal. Fiz a palestra em 2010 e ainda hoje recebo emails de pessoas sobre ela.

E com quais projetos você está envolvida atualmente?
Na Freeland Brasil, uma organização que iniciei há uns dois anos, estamos colaborando com a realização de um documentário de uma produtora brasileira sobre o tráfico de animais silvestres no país. Também estou trabalhando junto com uma aluna continuando a pesquisa que fiz no doutorado. Ela está estudando o DNA de uma espécie de pássaro brasileiro muito explorado no tráfico. Estou ainda trabalhando muito na organizarção de um workshop para discutir a questão do tráfico de animais silvestres no Brasil com procuradores de todos os estados brasileiros e de diversos países da América do Sul, em colaboração com a Dr. Vânia Tuglio, do Ministério Público do Estado de São Paulo. Pretendemos lançar uma força tarefa nacional e tecer uma carta de intenções sobre como podemos colaborar de maneira mais forte multinacionalmente com ações efetivas contra o tráfico de animais silvestres na região.