4 perguntas para o presidente da Microsoft para a América Latina

Presidente responsável por América Latina fala sobre a estratégia da empresa. Nuvem, computação (mais pessoal) e produtividade no trabalho são pilares

São Paulo – “Eu quero ser humilde o suficiente, mas também forte o bastante para chamar atenção ao dizer: nós queremos liderar esta transformação digital”, falou a EXAME.com com exclusividade Cesar Cernuda, presidente da Microsoft para América Latina.

Desde a chegada de Satya Nadella ao cargo de CEO da empresa, em fevereiro de 2014, a Microsoft exala novos ares: é mais aberta e focada em seus negócios. O resultado dessa mudança veio na última semana. Após o anúncio dos resultados financeiros do último trimestre, o preço das ações igualou o recorde histórico de 60 dólares por papel. Esse número havia sido atingido em 1999, quando Bill Gates ainda ocupada o cargo de CEO.

Para entender melhor as características atuais da empresa, EXAME.com fez quatro perguntas a Cesar Cernuda. Veja a seguir.

Como as transformações digitais atuais mudaram a Microsoft? A empresa está muito diferente do que era há alguns anos.

Nós decidimos que o mundo está mudando e que somos parte disso. Eu quero ser humilde o suficiente, mas forte o bastante ao dizer: nós queremos liderar esta transformação digital. Para isso, apostamos em três ambições. A primeira é deixar a computação mais pessoal. Por anos, operamos usando teclados e mouse. Mais recentemente com telas sensíveis ao toque, mas isso é o topo de iceberg.

Nós teremos tecnologia menos intrusiva em nossas vidas. No passado, tínhamos que aprender como trabalhar com um computador. Agora, as máquinas terão que aprender como trabalhar conosco. Pense na Cortana [assistente pessoal da Microsoft], no que fizemos com o Kinect [que usa movimentos para computação] ou nas Hololens e na computação holográfica. Tudo isso muda a forma como lidamos com tecnologia.

O segundo ponto é reinventar a produtividade no trabalho. Minha geração se debruçava e decorava uma página. As crianças aprendem compartilhando e acessando mais informações. Um exemplo é o Skype for Business com tradutor. Uma pessoa que fala espanhol pode ligar e ter uma reunião online com alguém na China. Enquanto uma fala em espanhol, a outra ouve em chinês. Isso é reinventar produtividade. É claro que um monte de tecnologia está por trás de todo esse processo.

O terceiro pilar é a nuvem inteligente. Hoje todos falam sobre a nuvem, mas o grande avanço é a nuvem inteligente. E se eu puder falar além disso, é a nuvem inteligente e segura. Você quer nuvens que façam predições, analisem dados, que façam das pessoas mais capazes para tomar decisões.

Desde a chegada de Satya Nadella ao cargo de CEO, a empresa parece mais focada. Como esse foco impacta a empresa?

Nadella trouxe uma obsessão pelos clientes e isso é algo presente em toda a liderança da empresa hoje. Queremos entender o que os consumidores precisam e como podemos ajudar. Se você falar com todos os CEOs das principais empresas do Brasil, todos dirão o mesmo: o mundo está mudando.

Modelos de negócios que tínhamos no passado, podem não funcionar no futuro. As oportunidades que costumávamos ver no passado, podem ser ameaças no futuro. Pense nisso: Uber. A maior empresa de transportes de passageiros do mundo não tem nenhum carro. Nenhum. Basicamente eles criaram algo seguro. Você pode ver a foto do motorista e ele ver o seu rosto. “Ah, esse é o Victor, então tudo bem eu deixar essa pessoa entrar no meu carro.”

São exemplos de coisas sobre as quais você nunca pensaria. Essa lógica pode ser aplicada também ao Airbnb. Tudo isso faz com que nos perguntemos qual será a próxima grande oportunidade e qual será o próximo grande competidor. Dados e analytics nos ajudam a entender as pessoas, a minimizar os nossos riscos. Por isso estamos em uma boa posição. Há anos estamos ajudando nossos clientes a lidar com dados. Por isso podemos dizer, de forma humilde, que estamos no caminho certo para o sucesso, graças ao foco no que interessa ao cliente.

E como encontrar a próxima grande oportunidade? Em 1999, quem diria que  nuvem seria algo tão central para a Microsoft?

Veja, eu não diria que em 1999 não sabíamos que a nuvem seria algo tão importante. Em 1999, eu era country manager de uma empresa chamada bCentral na Espanha. Ela era um webservice online, que era basicamente serviço de nuvem feito pela Microsoft. O chefe dessa divisão, você pode pegar os registros e procurar pelo nome dele, era um cara chamado Satya Nadella. Talvez estivéssemos pensando rápido demais naquela época.

Hoje pensamos em inteligência artificial como uma forma de democratizar. As grandes empresas falam de IA e você pode ver cenários nos quais ela faz todo sentido. Acreditamos que IA estará em todo lugar. Pense nela da seguinte forma: Cortana como uma assistente pessoal que vai lhe auxiliar. Pense em Azure como uma forma de acessar dados e Big Data. Mas não será algo somente para grandes empresas.

Vamos a um cenário. Eu estava nos EUA e minha empresa sabe que eu tenho uma viagem, então o sistema sabe quando eu saio de caso e quando chego no aeroporto. Lá, eles têm meu cartão de embarque e me ajudam a fazer o procedimento. Ao longo das seis ou sete horas de viagem eu posso me conectar à minha seleção musical, de vídeos ou fazer compras. Eles sabem que tipo de carros eu gosto, se quero um motorista me esperando ou não. Pense em todo esse cenário e como Cortana está acessando todas as informações.

Você é parte da Microsoft há 20 anos. Como os resultados da semana passada mudam o clima dos funcionários?

Eu acredito profundamente que a felicidade é o objetivo mais nobre das nossas vidas. Não importa o que você faz. Para mim, pessoalmente, felicidade é algo importante. É preciso achar um equilíbrio entre trabalho e família. O centro dessa pergunta é: e os resultados? Eu acho que eles são o resultado de ações.

O mais importante é como os consumidores estão reagindo. Quando ouvimos que somos uma empresa diferente, que estamos à frente da revolução digital atual, fico profundamente satisfeito. Quando recebo mensagens de profissionais dizendo que ouviram grandes elogios ao nosso trabalho.