Quais investimentos vão sofrer mais se a Selic cair a um dígito?

Investidores devem estar preparados para a rápida queda dos juros, que pelas projeções do mercado pode levar a taxa Selic para 9% ou 8,5%

Os juros básicos da economia brasileira caminham para baixo, e num ritmo cada vez mais veloz.

E os investidores devem estar preparados para esse novo cenário, que pelas projeções do mercado pode levar a taxa Selic para 9% ou 8,5% no fim deste ano, ou até um pouco antes.

Um dos efeitos dessa queda será a valorização de aplicações isentas de imposto de renda e uma retomada da atratividade da caderneta de poupança, que passará a render mais que a maioria dos fundos de varejo dos bancos.

Tanto que a expectativa é de que as cadernetas voltem a captar, revertendo parte das saídas dos últimos anos.

Para Ricardo Figueiredo, economista e consultor do programa financeiro Vida Investe da Fundação Cesp, o investidor brasileiro irracionalmente tende a caminhar para a poupança, mesmo no cenário adverso.

“Crescemos ouvindo o pai falar que investia, que acha que é seguro, que o retorno é suficiente, e as pessoas nem se preocupam em verificar se isso mudou”, diz.

Nos últimos três anos, por exemplo, as cadernetas perderam feio para outras aplicações e até para a inflação, o que aumentou os saques, mas não abalou a maioria dos investidores.

O Tesouro Direto, por exemplo, veio trazer outra opção, segura, mais rentável que poupança.

Poupança ganha força

Mas agora o cenário está mudando, alerta Figueiredo.

“Caminhamos para um momento em que a caderneta vai voltar a ganhar força pela isenção tributária”, diz.

Com a taxa Selic em torno de 9% ao ano, se o investidor não tiver disciplina muito grande e fizer uso dos recursos antes de seis meses no Tesouro Direto, vai cair na alíquota de 22,5% e poderá ter um ganho menor que na poupança.

Figueiredo usa o exemplo das aplicações corrigidas pela taxa diária Selic, o caso do Tesouro Direto, a LFT.

Com juro entre 9% e 8,75%, ele vê a poupança ganhando força porque o retorno na LFT dependendo da faixa de imposto.

“Se o investidor ficar na primeira faixa, até seis meses, vai perder para poupança”, diz.

Além do imposto, se o investidor pagar alguma tarifa para a corretora ou mesmo a taxa de custódia da bolsa, de 0,30% ao ano, o ganho líquido do investidor pode se aproximar de 6%.

“Fatalmente vai estar igual ou abaixo da poupança”, diz.

Novo cálculo da poupança

Se a taxa cair para 8,5%, o cenário pode melhorar um pouco para outras aplicações pois o cálculo da poupança muda e deixa de ser a Taxa Referencial (TR) mais 0,5% ao mês, ou 6,17% ao ano, e passa a ser de 70% da Selic.

Isso garante uma previsibilidade maior para o investidor, já que a TR depende de cálculos do BC sobre os juros dos CDBs dos bancos.

Mais recursos para crédito imobiliário

O cenário para as cadernetas hoje, porém, ainda não é propício e o investidor ainda pode ganhar com outras opções, diz Figueiredo.

Mas, olhando para frente, a poupança vai voltar a ser uma opção com bastante força. “E isso vai ser bom para o setor imobiliário, que terá mais recursos, pois hoje os bancos usam o dinheiro da caderneta para financiar obras e dar crédito para a casa própria”, lembra.

Custos das aplicações serão mais importantes

O juro menor também fará o investidor olhar mais os custos que vai ter nas aplicações, o que exigirá pensar no momento de aplicar qual prazo ele vai poder ficar para calcular o imposto de renda e ver se vale a pena ficar com o Tesouro Direto ou a poupança.

Os dois têm liquidez diária, mas a poupança tem um dia de vencimento, fora do qual o investidor perde o rendimento do mês. “Se sacar na véspera do vencimento, o investidor em poupança pode perder 25 dias de ganho se bobear”.

Fundos DI sofrerão mais

É preciso também ficar de olho nos custos do Tesouro Direto, e principalmente o imposto de renda, que varia de 22,5% até seis meses a 20% de seis meses a um ano, 17,5% de um a dois anos e15% acima de dois anos.

“Mas a poupança com juros de 9% na Selic fica muito competitiva”, admite Figueiredo.

“E se formos falar em fundos DI, fica pior, pois eles além do imposto ainda têm a taxa de administração, e fatalmente ele vai perder da poupança”, diz o consultor.

“Especialmente nos fundos para investidores de menor porte, de varejo, que têm taxas de administração mais altas”, alerta.

Vale migrar?

A situação é preocupante para os gestores e para quem já está aplicado nesses fundos, e que terá de avaliar se vale a pena migrar para o Tesouro Direto ou para a poupança, pagando imposto de renda no saque.

Como os fundos já pagam o come-cotas a cada seis meses, o impacto do imposto no resgate para mudança de aplicação tende a ser menor.

Há também a vantagem do fundo, de permitir saques a qualquer momento sem perda da rentabilidade, que precisa ser avaliada.

Separar dinheiros e prazos

E será preciso casar melhor os objetivos com os prazos de aplicação, afirma Figueiredo.

“Não dá para comprar uma NTN-B 2050 para trocar de carro daqui 3 anos”, diz.

A sugestão é procurar o Tesouro Selic, ou a LFT, que tem menor oscilação. “Migrar não é proibido, às vezes é necessário, mas precisa ser feito com um planejamento, levando em conta custos e objetivos e prazos e perspectivas futuras”, explica.

De olho no ganho real

E o investidor precisa garantir que vai pelo menos cobrir a inflação.

“O investidor guarda para consumir amanhã, portanto, se a aplicação não rende a inflação, é melhor consumir hoje”, diz.

Diante desse cenário, Figueiredo acredita que a volta para poupança de boa parte dos recursos investidos deve ser inevitável, pelos fatores positivos do cenário financeiro e pela simplicidade.

Investimentos adormecidos

Mas o juro mais baixo vai trazer à tona diversos produtos adormecidos, que com o juro alto não tinham condições de competir com o Tesouro Direto e os fundos de renda fixa.

“Agora os outros vão ganhar espaço, graças à isenção imposto de renda ou a taxas de retorno maiores, mas com cenário de incerteza maior”, diz Figueiredo.

Fundos imobiliários

Papéis isentos, como fundos imobiliários, Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) ou Imobiliário (LCI), são mais procurados nestes momentos de juro em queda.

Mas Figueiredo lembra que não há almoço grátis.

O fundo imobiliário, lembra, tem suas cotas negociadas em bolsa de valores, o que aumenta a volatilidade do principal investido.

“O dividendo pode ser bom, mas a cota pode cair e o principal vai junto”, lembra o consultor.

E é preciso ver qual o lastro do fundo, se é um shopping center, um prédio comercial de uma empresa só ou de várias ou galpões.

“Não pode olhar só o retorno passado e a isenção, esse tipo de aplicação tem uma lição de casa que precisa ser feita pelo investidor”, alerta Figueiredo.

“Toda vez que busca produto mais sofisticado e de maior risco para ter mais retorno, o investidor precisa de mais informações”, afirma.

Já sobre as LCI e LCA, o problema é o menor interesse dos bancos em captar para empresas, o que reduz os juros oferecidos nesses papéis.

A onda dos CRA

Outra opção de papéis isentos são os Certificado de Recebíveis Imobiliários (CRI) e os do Agronegócio (CRA).

Os CRI estão em baixa pela fraqueza do mercado imobiliário, que não cria contratos de empréstimos suficientes para servirem de garantia para novas emissões, como nas LCI.

Mas os CRAs estão crescendo, com muitas empresas de primeira linha, mesmo de outros setores, captando recursos para compras do agronegócio, como supermercados ou empresas de alimentos.

Papéis sem garantia

Para esses papéis, porém, não contam com a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), como as LCI e LCA, pois são emitidos por empresas, garantidos por recebíveis, ou seja, vendas a serem pagas, observa Figueiredo.

“O investidor precisa ver qual a qualidade desses recebíveis, qual a garantia que essa dívida vai ser paga para o investidor receber”, afirma.

É preciso ver a qualidade do emissor, qual a nota de crédito (rating) do papel nas agências de crédito.

Debêntures de infraestrutura

E isso vale também para as debêntures de infraestrutura, também isentas, que são garantidas apenas pela empresa emissora.

“O vendedor vai querer destacar sempre o lado positivo da operação, o rendimento, a isenção, mas o investidor precisa olhar qual a situação da empresa emissora, seu grau de endividamento, por que ela está emitindo o papel e se vai conseguir pagar a dívida”, aconselha.

“Podem acontecer casos de insolvência, como no ano passado, por isso, o valor prometido tem um risco muito maior de não se materializar com que no Tesouro Direto”, diz.

“O investidor precisa avaliar bem o risco, e evitar o efeito manada, de entrar porque todos estão entrando”.

Ações, ainda muito risco

Na renda variável, ou seja, ações, Figueiredo lembra que o Brasil é um pais de grandes incertezas. “Veja que, com o juro alto do ano passado, mesmo assim a bolsa subiu bastante”, diz.

Por isso, mesmo com expectativas de o Índice Bovespa chegar a 70 mil pontos, ou até 75 mil como falam alguns, o investidor precisa avaliar bem se pode e se quer correr esse risco.

“Na renda variável, o investidor incorre em um risco maior de volatilidade e sofre a sensação de perder dinheiro, apesar de não ter resgatado”, lembra Figueiredo.

“Além disso, ele vê muito movimento de sobe e desce e volta para o patamar que estava há cinco anos”, diz.

De volta a 2012

Ele lembra que, nominalmente, quem investiu há cinco anos no Índice Bovespa tem hoje o mesmo valor que investiu.

“Se colocarmos o custo do dinheiro, ou seja, o que ele poderia ter ganho aplicando o no Tesouro Direto, o investidor em ações deveria estar chorando”, afirma.

Por isso, Figueiredo acredita que o investimento em bolsa exige ainda mais preparo do investidor.

“Tentar capturar movimentos que não duram muito para aumentar ganhos é muito difícil, e com juro de 9% na renda fixa, ainda vamos ter juros reais altos, acima de 4% ao ano com inflação caindo para 4,5%”, diz.

Se o investidor pode ganhar isso num ativo de baixo risco, por que correr risco de volatilidade ou num investimento que há cinco anos está no mesmo nível, questiona.

E, além de tudo, o imposto de renda na renda variável e de renda fixa após dois anos é o mesmo, 15%.

“O melhor é ficar na renda fixa.”

Dólar, para proteção ou diversificação

No caso do dólar, Figueiredo diz que especular com a moeda não vale a pena.

“Se tem algum compromisso em dólar ou euro, é melhor comprar, mas deixa a especulação para quem é especialista, como gestores de fundos”, diz.

Mas moeda estrangeira pode ser uma reserva de valor interessante, desde que não seja a maior parte da carteira.

“Não é o câmbio que vai resolver sua vida financeira”.

Imóveis, muita oferta

Sobre imóveis, Figueiredo acredita que o pior já parece ter passado, mas ainda há muitas salas e apartamentos vagos. “Até enxugar essa vacância vai ser um trabalho duro”, diz.

Mas, se para quem quer investir em imóveis para alugar o momento está ruim, para quem precisa alugar a situação está favorável.

“Talvez com queda de juros o investimento em imóvel faça mais sentido na carteira dos investidores, mas com timidez”, sugere o consultor.

Este conteúdo foi publicado originalmente no site da Arena do Pavini.