O problema das pessoas que poupam demais

Saiba como se preparar para a aposentadoria ou para tempos difíceis sem sofrer com a chamada “síndrome de Tio Patinhas”

São Paulo – A imensa maioria dos brasileiros não consegue guardar dinheiro, não é muito racional na hora de gastar e se endivida demais. Tanto que o governo tem tomado diversas medidas para conter a expansão do crédito e o próprio presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, tem defendido que a população compre menos e poupe mais. Mas também há uma parcela de pessoas que faz exatamente o oposto e o consome só o estritamente necessário. Ainda que poupar demais seja melhor do que não guardar nada, especialistas em finanças pessoais veem uma certa “síndrome do Tio Patinhas” nessa atitude. Essas pessoas, dizem, ignoram os possíveis prazeres que o dinheiro poderia proporcionar no presente em prol de um zelo excessivo com a situação financeira futura. Abaixo e nas próximas páginas, Denise Hills, superintendente da área de sustentabilidade do Itaú Unibanco, e Martin Iglesias, gerente de educação para investidores do banco, explicam como não superestimar nem subestimar os gastos da velhice e formar a poupança necessária para garantir uma aposentadoria tranquila:

O jeito certo de poupar

Poupar demais não é o problema da imensa maioria da população brasileira. Pelo contrário. A cada seis brasileiros, quatro estão endividados, um está financeiramente equilibrado e só um é investidor. Infelizmente as aplicações financeiras são algo tão distante de parte da população que há gente que acha que juro é uma coisa só pode ser paga ao banco. É isso mesmo, muitos brasileiros nem sabem que alguém que poupa dinheiro pode receber juros pelos seus investimentos. Dentro dessa parcela de um sexto da população que já investe, há um número pequeno de pessoas que sofre do que chamamos no Itaú de “síndrome de Tio Patinhas”. São brasileiros que poupam mais de 30% da renda líquida a cada mês. É uma poupança exagerada se o objetivo é não ficar sem dinheiro até o fim da vida. Pelos nossos cálculos, uma atitude bastante segura é tentar acumular 20% da renda durante o período de vida ativa. Basta investir do jeito certo (veja os tópicos abaixo). Caso a poupança comece a ser feita bem cedo, aos 20 anos, por exemplo, esse percentual pode ser reduzido para 10% sem grandes riscos de que o dinheiro acabe – a não ser que aconteça algum desastre.

O risco de poupar demais é deixar o tempo passar sem aproveitar as coisas boas que a vida nos proporciona. As pessoas com “síndrome de Tio Patinhas” preferem a segurança e a independência que o dinheiro acumulado pode proporcionar a alguns momentos de prazer bastante necessários a uma existência feliz. Outro caso que surge com frequência no banco é o de aposentados que não se conformam com a queda gradual do patrimônio após o término da carreira. A pessoa acha que só pode consumir com segurança os rendimentos com juros. Conheço gente que chega a ter problemas de saúde quando o principal acumulado começa a diminuir. O que tentamos mostrar a essas pessoas é que não há mal nenhum em gastar parte do patrimônio desde que as despesas sejam planejadas de modo que não falte dinheiro até uma idade avançada, como 90 ou 100 anos. Se a pessoa morrer antes disso, os recursos que sobrarem ficam para os herdeiros. Já os casos de vida após os 100 anos são tão raros que acho que não vale a pena se preocupar. A expectativa de vida média do brasileiro é de 74 anos – 70 anos para os homens e 77 para as mulheres. Portanto, quem faz as contas e se programa financeiramente não precisa se estressar se a aposentadoria minguar lentamente.


O jeito certo de aplicar

Os juros deverão ser menores no Brasil do que foram nas últimas décadas. Logo, quem investe agora com o objetivo de se aposentar deve estar ciente de que não será possível acumular grandes fortunas apenas com o recebimento de juros com fundos e papéis da renda fixa, como aconteceu com muita gente que já parou de trabalhar. A geração atual deverá, portanto, aumentar a parcela de investimentos de maior risco no portfólio. Uma fórmula simples e interessante para determinar o percentual de recursos que deve ser alocado em ações é aquela que propõe subtrair de 70 a idade do investidor. O resultado é o que deve ser investido na bolsa. Alguém de 20 anos, por exemplo, pode aplicar em renda variável metade de seu patrimônio porque 70 – 20 = 50. Aos 60 anos, essa mesma pessoa só terá 10% da carteira em aplicações de risco. Essa é uma forma conservadora de aplicar em ações e tentar se apropriar dos melhores resultados de longo prazo da renda variável em comparação à renda fixa. Outra vantagem é estabelecer uma maneira fácil de reduzir gradativamente a exposição à renda variável à medida que a velhice se aproxima. Aos que não gostam de bolsa, vale lembrar que a proposta é bastante conservadora. Em mercados em que os juros são muito baixos como nos EUA, a fórmula mais utilizada é subtrair a idade de 100. O brasileiro até pode fazer isso desde que tenha um perfil mais agressivo e sangue frio suficiente para manter o dinheiro aplicado em bolsa mesmo nos prováveis períodos de turbulência que certamente virão.

O que comprar na bolsa

No longo prazo, há excelentes oportunidades na bolsa. O Ibovespa está no mesmo patamar de 2007 apesar de o Brasil ter melhorado muito desde então. Na média, as empresas com ações na BM&FBovespa lucram muito mais hoje do que há quatro anos. É verdade que o mundo também mudou muito. O cenário é tão ruim na Europa que nem enxergamos uma grande melhoria no curto prazo. O que a gente recomenda é que as pessoas aproveitem os atuais preços para comprar ações aos pouquinhos com uma perspectiva de longo prazo. Daqui a alguns anos, quando o cenário externo estiver melhor, certamente o Ibovespa irá refletir a mudança de patamar da economia brasileira. Então, quem entrar agora terá obtido um bom retorno.

Uma dúvida muito comum das pessoas é o que comprar. Pensando no longo prazo, não acho que seja possível prever quais serão as empresas vencedoras. O senso comum é escolher empresas sólidas, com forte geração de caixa e baixo endividamento. Setores que provavelmente terão de crescer muito como o de energias renováveis e limpas parecem interessantes. Quando o objetivo é poupar para a aposentadoria, entretanto, é mais importante diversificar do que tentar adivinhar o futuro. Uma forma fácil de ter uma carteira diversificada é comprar ETFs (fundos de índices de ações negociados em bolsa), como o PIBB e o BOVA11. O investidor que investe nesses papéis não ficará a ver navios caso uma empresa peça falência. Também terá a carteira automaticamente balanceada sempre que a BM&FBovespa promover mudanças na composição dos índices que servem de referência para esses ETFs. O único problema dos ETFs é que a pessoa não conta com a isenção de Imposto de Renda quando vende até 20.000 reais em ações num único mês. Portanto, será preciso obrigatoriamente pagar 15% de IR sobre o ganho de capital obtido.


Imóveis

Analisar o investimento em imóveis é particularmente difícil porque os preços podem continuar a subir por muito tempo ainda em determinados bairros ao mesmo tempo em que podem estagnar ou até mesmo cair em outras regiões. De uma forma geral, os preços parecem elevados para entrar neste momento. Houve uma importante correção no mercado imobiliário desde 2008. Ganhou quem comprou naquela época. Não acreditamos que a alta dos próximos anos será igual. Outro problema de investir em imóveis é a liquidez. Hoje, qualquer imóvel que seja colocado à venda em São Paulo acaba encontrando um comprador. Mas os preços estão bem altos, o que diminui o estoque de pessoas com renda suficiente para a aquisição. Quando houver uma mudança na economia, empresas quebrarem e muita gente precisar de dinheiro para tapar algum buraco, é provável que o mercado já não esteja mais tão comprador.

Para quem mesmo assim queira entrar no mercado, uma forma inteligente de investir é com os fundos imobiliários. Os fundos com quotas negociadas na BM&FBovespa não pagam Imposto de Renda sobre os aluguéis distribuídos aos quotistas – ao contrário do imóvel físico, que tem os aluguéis taxados em até 27,5%. Com os fundos, também é possível construir uma carteira de imóveis mais diversificada. A liquidez é satisfatória para pequenas aplicações. O único problema é que não é tão fácil avaliar o valor correto de um imóvel incluído num fundo. Quando alguém vai comprar um apartamento, pode simplesmente comparar o preço dele com outros imóveis na região que estejam à venda e chegar à conclusão se está caro ou não. Para avaliar se um shopping é negociado ao preço justo, entretanto, é necessário gastar mais tempo levantando informações e fazendo contas. É difícil até mesmo saber se um fundo imobiliário tem um histórico bom ou ruim porque não há um índice que meça o rendimento médio desse tipo de investimento no Brasil.

Uma decisão que deve ser tomada de maneira completamente diferente é a da compra da casa própria. Nesse caso, o imóvel não deve ser avaliado apenas como investimento. É preciso entender as necessidades e sonhos de toda a família antes de tomar a decisão. Há gente, por exemplo, que acha que comprar o imóvel cedo demais é ruim porque a família ainda poderá crescer e será necessário trocar de residência. Outras pessoas acham que não é interessante se endividar na juventude para não ficar com medo de fazer apostas arriscadas, como largar o trabalho para abrir um negócio próprio ou estudar no exterior. No caso da compra da casa própria, não há uma fórmula única a ser seguida. A única coisa que vale para todos é que o FGTS deve ser utilizado sempre que possível porque o rendimento do fundo, de TR mais 3% ao ano, é o pior do mercado.

Renda fixa

Um título público interessante para quem planeja investir para a aposentadoria é a NTN-B (Notas do Tesouro Nacional série B). Pelo Tesouro Direto, é possível comprar esse tipo de papel que garante um rendimento equivalente à inflação pelo IPCA mais cerca de 6% ao ano até 2045. O investidor jovem deve comprar o papel que não paga cupom de forma que não tenha o trabalho de reinvestir os juros obtidos com a aplicação. A NTN-B Principal protege o investidor contra a alta dos preços caso o país volte a enfrentar surtos inflacionários e ainda oferece uma rentabilidade interessante ao capital. Poupando e aplicando dessa maneira, o investidor pode ficar tranquilo com a aposentadoria sem precisar sofrer com a “síndrome de Tio Patinhas”.