São Paulo – Desde meados de 2011, quando começaram as discordâncias entre o empresário Abilio Diniz e o grupo francês Casino, investidores do Grupo Pão de Açúcar (PCAR4) têm sofrido com as oscilações das ações da empresa, motivadas pelos conflitos entre os controladores. Mas, com o recente acordo selado entre as partes - que definiu a saída de Abilio da presidência do Conselho de Administração do grupo -, analistas consultados por EXAME.com acreditam que o sofrimento chegou ao fim. 

Marcelo Torto, analista da Ativa corretora, é bastante otimista em relação ao desempenho futuro do papel. Segundo ele, a saída de Abilio tirou um grande peso da ação. “O fim desse processo de arbitragem deve solidificar a boa gestão do Grupo Casino na companhia. Existe a perda da gestão do Abilio, mas o ciclo dele acabou e o fim da disputa retira uma pressão bastante negativa do papel”, afirma.

De acordo com ele, desde 2011 as ações têm sido negociadas a valores próximos aos de seus pares do setor varejista, o que não se justificaria, dado que a empresa teve melhoras significativas em sua gestão nesses últimos anos. “Com a ausência das brigas, eu acho que o mercado voltará a focar nos fundamentos do grupo, que vem expandindo sua base de vendas no setor de alimentos e melhorando muito sua rentabilidade com as sinergias geradas pela incorporação da Via Varejo”, opina.

Em abril deste ano, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) aprovou com restrições o processo de fusão do grupo com a Via Varejo, responsável pela administração da Casas Bahia e do Ponto Frio.

Felipe Rocha, analista da Omar Camargo, concorda que com as questões societárias apaziguadas, as ações do Pão de Açúcar tendem a se valorizar ainda mais daqui para frente porque o mercado deve passar a focar nos aspectos operacionais da empresa e não mais nos rumores sobre seus sócios e fusões. “A ação não vai mais sofrer os descontos que sofria em função dessas polêmicas. Agora o que deve prevalecer é o operacional e nesse aspecto o Pão de Açúcar está indo super bem”, diz. 

Rocha destaca que um dos fatores positivos para o grupo foi a criação, em junho deste ano, do programa Minha Casa Melhor – programa de concessão de crédito para compra de eletrodomésticos para participantes do Minha Casa Minha Vida –, que tem contribuído para aumentar as vendas de empresas que comercializam bens duráveis, como a Casas Bahia e o Ponto Frio. 

Apesar de acreditar que a empresa deve manter seu crescimento e a ação deve apresentar bons resultados daqui para frente, o analista da Omar Camargo avalia que o preço do papel é muito alto e existem ações com valores mais atrativos. “Nós não temos uma conta elaborada e oficial sobre o preço das ações do Pão de Açúcar, mas pela nossa análise extraoficial nós acreditamos que o valor está um pouco alto e que alguns outros papéis oferecem um custo-benefício melhor”, diz.

No último fechamento (dia 24/09), as ações preferenciais (sem direito a voto) do Pão de Açúcar (PCAR4) estavam cotadas a 104,95 reais. A título de comparação, as ações ordinárias (com direito a voto) da BRF (Brasil Foods, resultado da fusão da Sadia com a Perdigão), fecharam o último pregão a 56,32 reais. 

Mesmo com a recente valorização do ativo (que estava cotado a 98,62 reais no dia 06 de setembro, dia do anúncio da saída de Abilio), Marcelo Torto, recomenda a compra da ação. Para ele, o investidor que aplicar na varejista agora ainda pode ter bons ganhos. “O papel continua em um patamar que justifica o investimento. Mas o investidor precisa balancear sua carteira. Não dá para comprar uma empresa só. O ideal é montar uma carteira de longo prazo diversificada”, diz.

De acordo estimativas apuradas pela Bloomberg com analistas do mercado, o preço-alvo da ação - estimativa sobre o valor que ela deve alcançar em dezembro de 2014 - está em 115,16 reais.

Em matéria anteriormente publicada, outros analistas consultados por EXAME.com ressaltaram que as ações do Grupo Pão de Açúcar possuem ótimos fundamentos, mas temiam a fusão com a Via Varejo e a brigas entre os controladores. Dentre os destaques positivos, eles citaram questões como a previsão de abertura de novas lojas nas regiões Nordeste e Centro-Oeste do país, a diversificação de marcas do grupo - que tem lojas de alimentos, lojas de eletrônicos, comércio online e atacadista - e o aumento do potencial de consumo da população. 

Risco

Ainda que as perspectivas sejam mais favoráveis agora, Marcelo Torto lembra que Abilio Diniz ainda detém cerca de 9% das ações preferenciais do Grupo Pão de Açúcar, o que representa um risco para o papel. Conforme ele explica, caso Abilio queira se desfazer de suas ações em uma única tacada, a grande oferta no mercado pode gerar uma desvalorização dos ativos, seguindo a lógica da lei da demanda e da oferta.

“Ele já veio reduzindo a participação no grupo, mas nos últimos meses ele chegou a vender pouco mais de 30 milhões de ações, e agora que saiu de vez do conselho, ele pode vir a se desfazer de parte dos investimentos. Este montante muito grande de ações pode acabar encharcando o mercado”, diz Marcelo Torto.

Felipe Rocha também enxerga a participação de Abilio como um risco, mas nenhum dos dois considera que este risco tenha grandes chances de se concretizar.