São Paulo – Um estudo sobre redes varejistas realizado pela empresa especializada em pesquisas de mercado CVA Solutions constatou que consumidores estão adotando algumas estratégias para se blindar contra os efeitos da inflação. Mas, ainda que muitos brasileiros continuem traumatizados pelos anos de hiperinflação, não é o caso de fazer grandes mudanças nos hábitos de consumo - como estocar produtos de supermercado - porque o impacto no orçamento não é significativo, conforme defende Samy Dana, doutor em economia e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Neste ano, a inflação medida pelo IPCA deve chegar a 5,81% segundo estimativas do mercado apuradas pelo último boletim Focus, do Banco Central. Apesar de ser um nível desconfortável, como o próprio presidente do Banco Central frisou, a alta não se compara às variações registradas nas décadas de 80 e 90, quando a inflação anual chegou a atingir absurdos 2.477%, em 1993, segundo dados do BC

Para Samy Dana, a inflação está em um nível "administrável". "A projeção de 5,8% não é nula, mas também não está fora de controle. E outro ponto importante é que mesmo investimentos como a poupança têm superado a inflação, o que significa que até na poupança o dinheiro rende mais do que a alta dos preços, por isso não tem por que sair correndo comprando produtos”, afirma o professor da FGV.

A taxa Selic, que é usada como uma referência sobre o rendimento das aplicações de renda fixa (investimentos que têm sua forma de remuneração definida no início da aplicação), está em 9% ao ano. Considerando que as aplicações de renda fixa não exigem que o investidor corra grandes riscos, com a Selic nesse patamar pode-se dizer que atualmente é possível investir superando a inflação sem grandes esforços. 

“Claro que a inflação é muito ruim e precisa ser combatida, mas não temos esse problema das compras do mês como antes. É um incômodo porque a inflação está alta e o país cresce pouco - eu estimo um crescimento de 2,2% este ano -, mas não é uma questão de preocupação, não temos uma situação de hiperinflação como no passado”, diz Samy Dana.

Em outras palavras, a inflação não é tão alta que justifique, por exemplo, a compra de 10 latas de óleo em uma ida ao supermercado porque, segundo as projeções, os preços não devem subir de maneira absurda. A tática era válida quando o preço do óleo subia 80% em um mês e valia muito mais a pena "investir" na compra de produtos não perecíveis do que em uma aplicação financeira.

Isso não quer dizer também que a alta dos preços deva ser ignorada. Aproveitar promoções, fazer compras em supermercados mais baratos e estocar produtos cujos preços estão subindo rapidamente pode fazer sentido, mas simplesmente não será uma economia absurda. Entre usar um determinado montante para comprar produtos e estocar, ou investir, a segunda opção pode valer mais a pena. 

Pesquisa

O estudo elaborado pela CVA Solutions teve como objetivo analisar as percepções de consumidores sobre empresas do setor de varejo alimentar. Dentre as conclusões da pesquisa, está o aumento da importância do custo na avaliação das marcas. Na primeira edição do estudo, em 2011, o custo pesava 60% na avaliação dos consumidores e neste ano a variável passou a representar um peso de 63%. 

Além disso, os varejistas que tiveram uma melhora no seu "Valor Percebido" o fizeram principalmente por causa de um avanço em relação aos seus custos.

Segundo Sandro Cimatti, sócio-diretor da CVA, apesar de o foco da pesquisa ter sido a impressão dos consumidores sobre as empresas, a partir das entrevistas foi possível notar a mudança de hábitos dos entrevistados como reflexo da variação mais acentuada da inflação. "Além do aumento da prevalência do custo em detrimento do benefício, os supermercados que tiveram o maior avanço na sua avaliação foram o Assai e o Atacadão, dois atacarejos que são muito econômicos, mas não tão bons de atendimento", afirma. 

Outra constatação, de acordo com Cimatti, foi o aumento na divisão das compras entre diferentes supermercados. "Nós vimos que as pessoas estão comprando mais no Pão de Açúcar o que é perecível e compram os produtos da cesta básica no Dia, que é mais barato. A somatória desses exemplos mostra que o custo está ganhando mais importância. E isso ocorreu porque aumentou o desemprego? Não. O que mudou foi o aumento da inflação", diz.

Apesar da precaução em relação aos preços estar crescendo, o sócio-diretor da CVA ressalta que as mudanças não são comparáveis aos anos de hiperinflação. "A conjuntura agora é outra, a situação não está fora de controle e não se compara à época do Sarney, mas nós vemos uma maior preoupação com a inflação e também que as pessoas estão mais dispostas a fazer alguns pequenos sacrifícios, como ir a um supermercado mais barato para fazer as compras do mês", diz.

Para realizar a pesquisa, foram entrevistados 6.985 consumidores de todo o país durante o mês de agosto deste ano. 

Veja no vídeo a seguir algumas maneiras eficazes de cortar seus gastos:

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