São Paulo - Mesmo para especialistas, comprar um carro usado é sempre uma experiência emocionante. Por mais que colisões, enchentes e furtos deixem suas cicatrizes, o passado de um veículo sempre pode ser bem maquiado por serviços realizados em oficinas ou "martelinhos de ouro". "A compra se torna ainda mais arriscada quando o vendedor é uma pessoa física", afirma Felício Félix, analista técnico do Cesvi Brasil (Centro de Experimentação e Segurança Viária). A aquisição feita em loja ou concessionária pressupõe uma série de garantias - algumas delas estabelecidas no próprio Código de Defesa do Consumidor. Em primeiro lugar, o endereço do vendedor é conhecido. O estabelecimento é obrigado a prestar garantia de motor e câmbio por ao menos 90 dias. Muitas concessionárias prometem estender essa garantia a outras peças pelo mesmo período desde que o consumidor possa provar que o defeito existia antes do fechamento do negócio.

Já a compra de um carro de outra pessoa física pode ser considerada um tiro no escuro - a não ser que uma série de cuidados sejam tomados. O ideal é comprar o automóvel de algum conhecido ou então obter o endereço e o telefone do vendedor. É sempre recomendável pedir a última conta de telefone do vendedor para ter segurança que as informações prestadas são verdadeiras. Com a ajuda de um especialista, coloque os termos de compra e venda do veículo em um contrato e peça para que o vendedor declare que garante o funcionamento de motor e câmbio por 90 dias.

Mesmo que haja um problema, no entanto, a transação entre duas pessoas físicas não é regida pelo Código de Defesa do Consumidor, explica Maria Inês Dolci, coordenadora da associação de defesa do consumidor Pro Teste. Se for impossível chegar a um acordo, o negócio deverá parar na Justiça. Para ações que envolvam até 40 salários mínimos, o comprador ainda poderá acionar um juizado especial cível - o antigo tribunal de pequenas causas - e requerer a compensação pelo prejuízo. Já em ações relativas a valores maiores, será necessário entrar com uma ação na Justiça comum - onde o desfecho costuma ser mais demorado. Abaixo especialistas dizem como identificar quando um carro foi furtado ou danificado por colisão, enchente ou uso severo. O conselho é claro: se encontrar indícios de algum desses defeitos, fuja de problemas na Justiça e compre outro veículo.

Carro furtado

Cerca de 350.000 veículos são roubados ou furtados no Brasil a cada ano. Em geral, as lojas e concessionárias com melhor reputação já fazem a checagem da procedência de um veículo porque terão de garantir isso aos clientes. No entanto, quando comprar o automóvel usado de outra pessoa física, é necessário tomar uma série de precauções. Cheque o número do chassi. Veja se é o mesmo da documentação e se os mesmos números estão grafados nos vidros. Na lateral do banco do passageiro, verifique se não há indícios de adulteração do número do chassi e se a distância entre os números é a mesma. Outro indício de fraude é o número 3: é difícil desenhá-lo sempre igual no chassi. Faça uma análise se as placas traseira e dianteira do veículo são idênticas. Além das letras e dos números, verifique se o fabricante e o ano de produção da placa são os mesmos. Veja se não há indícios de que o lacre da placa tenha sido rompido. Verifique no site do Detran se a placa do carro é verdadeira e se não há pendências - como multas - a serem pagas.

Cheque também se o documento do veículo não é adulterado. Os verdadeiros possuem um alto-relevo em toda a sua volta. É importantíssimo que a vistoria seja feita com o documento original - e não por cópias enviadas por fax. "Se alguém comprar um carro e depois descobrir que ele é roubado, pode perder todo o dinheiro que desembolsou", diz Cyro Vidal, presidente da comissão de Estudos sobre Direitos de Trânsito da OAB-SP. "Se durante uma blitz a polícia perceber que trata-se de um carro roubado, vai apreendê-lo, instaurar um inquérito e depois a Justiça deverá devolvê-lo ao antigo dono." Na dúvida, o mais recomendado é contratar empresas especializadas em vistorias de veículos. A Linces, por exemplo, cobra 100 reais para realizar um teste que certifica que um carro nunca foi roubado. Caso em até três anos se descubra que o carro foi furtado antes da data da emissão da certificação, a própria Linces arcará com o prejuízo. "Isso nunca aconteceu porque testamos 70 peças e sempre sabemos quando o veículo é roubado", diz Mário Cassio Mauricio, diretor comercial da empresa.

Carro batido

Acidentes costumam depreciar bastante o valor de um veículo. Para identificá-los, faça uma vistoria na pintura com o carro seco e limpo. Ao observá-lo em algum lugar bem claro, de preferência durante do dia, será possível enxergar pequenas diferenças na pintura que denunciam acidentes no passado. Verifique se há simetria entre as portas, os parachoques e o teto. Ondulações, pequenos amassados na lataria ou diferenças nas quinas do capô são outras indicações de colisão. Dê "pancadinhas" com os dedos na lataria para verificar se o barulho é diferente em algum ponto - o que indicaria a colocação de massa plástica.

O ideal é verificar se a própria estrutura do carro não foi avariada. Uma colisão severa costuma exigir reparos no monobloco. Evite comprar carros quando no documento estiver grafado "sinistrado" ou "REM" (chassis remarcado). Devido ao histórico de problemas graves, esses veículos sofrem uma depreciação de 20% a 30% no momento da revenda. Especialistas também alertam que há casos em que um carro sinistrado pode ser comprado sem que o registro do acidente grave seja grafado no documento como determina a lei. Esses veículos são consertados e colocados à venda como se nada tivesse acontecido. "Se o carro tiver um preço convidativo demais, fique com a pulga atrás da orelha", diz José Fernando Penteado, do comitê de veículos leves da associação de engenheiros SAE Brasil. Se você tiver interesse em comprar um carro porque o preço está tão baixo que compensa eventuais problemas, certifique-se que ao menos o cinto de segurança tenha sido trocado.

Já se mesmo após a inspeção você tiver dúvidas sobre o passado do veículo, o ideal é contratar uma empresa especializada. No site www.checkauto.com.br , é possível saber se um carro foi furtado, se sofreu danos em algum acidente grave, se a contagem da quilometragem foi adulterada, se está alienado ao banco, se foi comprado de locadora ou se foi adquirido em leilão, entre outras informações. O serviço custa 25 reais por carro, mas costuma compensar. Cerca de 14% dos veículos comercializados no país já tiveram a quilometragem adulterada, por exemplo. "Todas essas informações são necessárias para que se pague o valor justo pelo veículo", diz Mário Cassio Mauricio, da Linces, dona do site Checkauto. Já no site do Detran, é possível saber se há débitos como licenciamento, IPVA ou multas. No site da Controlar, por sua vez, o comprador fica sabendo se o carro passou por todas as inspeções obrigatórias na cidade de São Paulo para análise do grau das emissões de gases. 

Carro danificado por enchente

O jeito mais fácil de detectar se um carro já ficou alagado durante uma enxurrada é pelo cheiro. Sachês que perfumam o interior do veículo costumam ser usados para disfarçar o odor. Mesmo após uma higienização, ainda é possível achar barro e impurezas depositadas em lugares pouco expostos. Verifique também o estado do estofamento dos bancos e do carpete. Se o tecido estiver estragado, desconfie. O carro pode ter sido vítima de enchente ou está com problemas de vedação.

Carro em mau estado de conservação

A primeira coisa que deve ser observada em um veículo é seu manual. Lá está registrado se o proprietário realizou todas as revisões indicadas pela montadora. Pode parecer um detalhe, mas isso é um sinal de quão cuidadoso o dono foi com o veículo. Procure também pontos de ferrugem em cantinhos e debaixo das guarnições ou do assoalho. Pode ser um sinal de problemas na vedação. Verifique se o carro tem extintor, macaco, triângulo, chave de rodas e estepe em condições de uso. Veja se há vazamento de óleo embaixo do carro, se há queima excessiva de óleo no motor ou se há presença de manchas escuras no escapamento - sinais de problema de vedação. Verifique se o motor não é turbinado. A legislação brasileira não permite a adulteração de suspensão ou do motor. Logo, o carro ficará sujeito a multa e apreensão e, caso isso aconteça, o motorista terá de gastar um bom dinheiro para tornar o motor novamente semelhante ao original.

No caso da instalação de outros acessórios, é possível notar os sinais deixados pela remoção de acabamentos. Se a forração de porta ou do painel não encaixa perfeitamente, o carro deve ter sido desmontado para a colocação de som, alarme ou trava - o que pode fazê-lo perder a garantia de fábrica. Ouça se há ruídos metálicos com o motor frio ou aquecido. Ligue o carro e faça a aceleração. O motor não pode exceder 3.000 rpm enquanto estiver parado. Para checar a compressão do motor, desça uma ladeira em segunda marcha. A diminuição proporcional da velocidade indica o bom funcionamento. Se o carro demora para ligar, há folgas no motor.

Para testar a suspensão, dê uma volta em terrenos de terra ou razoavelmente irregulares. Ruídos e estalos vão denunciar eventuais problemas. Outra forma de verificar o estado da suspensão é balançar o carro para baixo segurando pelo parachoque. Se, ao largá-lo, o veículo balançar duas ou mais vezes, o amortecedor está em más condições. Confira o estado dos pneus. Desgastes irregulares podem indicar problemas com a suspensão ou a falta de alinhamento das rodas. Já pneus lisos (carecas) ou com mais de 60.000 quilômetros rodados precisarão ser substituídos porque trazem risco à segurança.

Para verificar o estado dos freios, ouça se há ruídos metálicos no momento da utilização. Esse será um indício de que as pastilhas estão gastas. Em um lugar plano, freie o veículo soltando as mãos da direção. Se o carro estiver com os pneus corretamente calibrados e puxar para um dos lados, há problemas no freio ou na suspensão. Para os compradores que não se sentem seguros com os resultados da própria vistoria, é recomendável levar o carro a um mecânico de confiança ou à oficina de uma empresa especializada, como a Linces ou a Terceira Visão. Em troca de 100 reais, a Linces realiza a checagem de 90 itens do carro, como carroceria, motor, rodas, freios, câmbio, escapamento e rodas. A vistoria identifica eventuais avarias e descobre até se as emissões de gases estão acima do permitido pela legislação. 

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