São Paulo – A recente trajetória de alta da taxa básica de juros, a Selic, vem mostrando ao brasileiro que a renda fixa de fixa não tem é nada. Quem investiu recentemente em títulos e fundos atrelados à inflação – a fim de proteger seu patrimônio da escalada dos preços – está tomando um susto com as perdas.

Em 2012, as aplicações de renda fixa que pagam juros fixos mais inflação foram as campeãs no ranking de investimentos. A Nota do Tesouro Nacional-série B Principal (NTN-B Principal) com vencimento em 2035 valorizou quase 50%. Esse título é negociado via Tesouro Direto, plataforma online de compra e venda de títulos públicos pela pessoa física. Já os fundos de renda fixa-índices que investem nesse tipo de papel – apelidados de fundos de inflação – renderam, em média, 21,71% no ano passado.

Mas neste ano, são essas aplicações que mais vêm apanhando. A mesma NTN-B Principal já recuou 25% em 2013, mais do que a queda de 13,79% do Ibovespa. Títulos de prazos mais curtos tiveram quedas um pouco menores. Já os fundos de inflação caem, em média, 3,50%.

O pequeno investidor, muitas vezes desinformado acerca dos riscos dessas aplicações, investiu nelas para proteger seu patrimônio da inflação, uma vez que esta deve se manter próxima dos 6% tanto neste ano quanto no próximo. Mas ao contrário do que muitos pensam, essas aplicações não se valorizam quando a inflação sobe; elas se desvalorizam quando a perspectiva futura de juros é de alta.

É um pouco complicado para a maioria dos investidores entender; mas investimentos que tem parte ou a totalidade de sua remuneração fixada no ato da aplicação passam por um mecanismo matemático chamado marcação a mercado. Assim, sua remuneração (ou parte dela) se mantém fixa, enquanto seu preço de mercado oscila de acordo com as expectativas para a Selic. Se a perspectiva é de alta do juro, cai o preço de mercado; se é de queda, sobe o preço.

Quem compra um título desses e permanece com ele até o vencimento vai ganhar exatamente a remuneração acordada, sem perder dinheiro. Assim, se você comprou uma NTN-B que pagaria 3% mais IPCA no vencimento, é exatamente isso que você vai ganhar naquela data. No máximo, você terá perdido a oportunidade de ganhar mais em outra aplicação financeira.

Porém, se você se desfizer do título antes do vencimento, em um momento em que o mercado espera aumentos futuros na taxa Selic, você vai vender esse título a um preço mais baixo. Quanto maior o prazo do título, maior a oscilação na marcação a mercado, e mais amplas as desvalorizações quando a perspectiva de juros é de alta.

Os fundos de inflação são obrigados a comprar e vender títulos sujeitos a esse risco. Mais do que isso: precisam atualizar diariamente o valor da cota segundo esse mecanismo de ação a mercado, estando sujeitos exatamente ao mesmo efeito.

“O nome do fundo [Renda Fixa – Índices] já induz o investidor ao erro. Muita gente liga aqui na corretora e pergunta como pode estar investindo em um fundo de renda fixa que perde dinheiro. São poucos os que entendem a dinâmica de ter um fundo ou um título desses”, diz Arnaldo Curvello, diretor de gestão de recursos da Ativa Corretora.

Como se pode ver, a renda fixa, nesse caso, não é tão fixa assim. Além disso, muitos investidores desrespeitam a máxima de que rentabilidade passada não garante rentabilidade futura. Depois de verem os grandes ganhos dessas aplicações no ano passado, muita gente decidiu investir nelas, conforme o pensamento de “investir no que está rendendo mais”. “Muitos entraram na festa quando ela já tinha acabado”, diz Carlos Haber, gestor de investimentos da Lecca.

Conheça formas de proteger o patrimônio da inflação no patamar de juro atual evitando perdas.