São Paulo – Uma das máximas usada em educação financeira diz que "poupar é mais importante do que investir". Em outras palavras, isto quer dizer que ter uma regularidade de aportes nos investimentos e poupar mais dinheiro é muito mais importante para o sucesso financeiro do que dar uma “grande tacada” e escolher a melhor aplicação disponível no mercado. 

Para Samy Dana, professor da Fundação Getúlio Vargas, no atual cenário de juros baixos, a orientação de poupar antes de investir é mais conveniente do que nunca. “Com os juros mais baixos, os rendimentos na renda fixa estão menores e já não faz mais tanta diferença em qual aplicação investir. O que vai levar o investidor a ter sucesso é a constância dos valores investidos, ou seja, o que vai fazer a diferença é muito mais o hábito de investir do que a escolha entre o produto ‘a’ ou ‘b’”, diz. 

André Massaro, especialista em finanças pessoais da MoneyFit, comenta que uma das compreensões mais importantes dentro da máxima é que antes de iniciar qualquer investimento, é essencial ter uma vida financeira organizada. “Existe um fenômeno estudado na área de finanças, que é a "contabilidade mental" – que vem do termo em inglês mental accounting. É um viés cognitivo, uma falha lógica que leva as pessoas a possuíerm simultaneamente dinheiro investido e dívidas. É o caso de alguém que tem dinheiro na poupança, rendendo menos que 0,5% ao mês, e ao mesmo tempo possui uma dívida no cheque especial com juros de 10% mensais”, afirma Massaro. 

Segundo ele, quem tem uma vida financeira desregrada tem grandes chances de perder dinheiro ao entrar em um investimento. “É preciso antes de tudo ter uma organização financeira para não perder dinheiro. E depois é preciso começar pelo básico, com aplicações apenas na poupança, no Tesouro Direto ou em um fundo de investimento. Aplicações mais complexas não são necessárias, em princípio”, defende. 

Por isso, recomenda-se que antes de destinar tempo à busca do investimento ideal, é importante buscar o planejamento financeiro ideal, que permita que todos os gastos mensais sejam contemplados e ainda que seja possível reservar mensalmente parte do orçamento para os investimentos. Aprender a ter disciplina para poupar mensalmente algo como 10% da renda seria um requisito básico para iniciar um investimento, segundo especialistas. “A maioria das pessoas se preocupa demais com a parte técnica do investimento, se um é melhor que outro, mas não se preocupa com o estágio anterior a esse, que é o planejamento financeiro para conseguir investir sempre 10% da renda mensal”, diz Massaro. 

Além de, obviamente, o investidor mais disciplinado, que faz aportes mensais, reunir mais dinheiro que o investidor displicente, que investe esporadicamente, quem tem mais disciplina tende a escolher o melhor investimento, segundo o professor de finanças da FGV, William Eid. “A pessoa que é disciplinada, quando junta dinheiro escolhe melhor o investimento. Isso porque ela vai reavaliar o investimento de tempos em tempos para ver se aquela aplicação ainda é a mais rentável em determinado momento. O investidor desorganizado escolhe uma aplicação, mas não pensa mais nela, esquece de fazer os aportes e não faz uma revisão de meses em meses”, avalia. 

Para mostrar na prática a importância dos aportes regulares, vamos tomar como exemplo um investimento hipotético com um rendimento de 1% ao mês. Se o investidor aplicar, de janeiro a dezembro, 100 reais por mês - totalizando um investimento de 1.200 reais -, ao final do período ele terá 1.280,93 reais. Mas, se na mesma aplicação fossem investidos em janeiro 100 reais e apenas em dezembro os outros 1.100 reais, ele teria ao final dos 12 meses 1.223,68 reais, 57,25 reais a menos do que se fizesse o investimento regularmente. 

Um bom aporte inicial abre portas em aplicações melhores

Poupar antes de investir também pode ajudar o investidor a ter mais rentabilidade na medida em que, com um maior aporte inicial, ele pode conseguir melhores condições nos investimentos, como menores taxas de administração. E com um investimento inicial maior, o investidor também pode ter acesso a aplicações mais rentáveis, que não aceitam pequenas quantias como tíquete de entrada. 

A poupança é um excelente instrumento para poupar valores antes de dar entrada em outras aplicações. É um investimento de fácil movimentação, que permite o resgate do dinheiro a qualquer momento e é isento de imposto de renda. Poupar valores na caderneta antes de partir para outras aplicações pode ser uma boa estratégia principalmente para investir diretamente em ações, fundos de investimento, CDBs de grandes bancos e fundos imobiliários.  

As ações, por exemplo, são mais comumente vendidas em lotes-padrão de 100 ações, que normalmente demandam investimentos de alguns milhares de reais. Mas é possível também investir uma pequena quantia, por meio do mercado fracionário, no qual as ações são vendidas por unidades. A questão é que para dar uma ordem de compra de ações, as corretoras cobram a chamada taxa de corretagem, que pode ser a mesma para a compra de uma ação ou de um lote. Se o investimento for de 10.000 reais, por exemplo, a taxa de corretagem pode não pesar tanto, mas para um investimento de 100 reais, o peso da taxa pode superar a rentabilidade do investimento em certos prazos. 

Além disso, se a ação ficar custodiada na Bolsa, a corretora pode cobrar uma taxa de custódia, cujo valor, ao final de um ano, pode superar o dinheiro investido inicialmente. O investidor até poder solicitar que a ação não seja custodiada em Bolsa, mas ele não conseguirá vender a ação imediatamente se assim desejar. Quando a ação está no agente custodiante, ao dar uma ordem de venda, a operação pode demorar de 3 a 5 dias. Sendo assim, pode ser mais vantajoso poupar o valor na poupança para começar a investir em um lote-padrão.

No caso de fundos imobiliários e fundos de investimento em geral, aqueles que exigem aportes iniciais maiores costumar oferecer taxas de administração menores. Novamente, com menores taxas, maiores são as chances de obter uma rentabilidade mais elevada. 

Nos investimentos em renda fixa, que possuem menos restrições quanto a aportes iniciais, acumular dinheiro na poupança pode ser útil para conseguir não só taxas mais baixas nos fundos, como também uma maior rentabilidade em CDBs de grandes bancos, que costumam oferecer remunerações mais altas para aportes maiores, podendo chegar a 100% do CDI.

Nos CDBs de bancos médios, porém, a dica não se aplica, pois eles podem remunerar a partir de 100% do CDI qualquer quantia aplicada, como acontece no Sofisa Direto, do Banco Sofisa, e no CDB Direto, do Banco Ficsa. No Tesouro Direto, também o aporte inicial não influencia a rentabilidade. Os títulos públicos exigem investimentos mínimos de 10% do valor de um título, o que muitas vezes não chega a 100 reais.

Juntar dinheiro na poupança antes de investir traz ainda outra vantagem. Alguns custos fixos sobre aportes de baixo valor ficam mais pesados do que em grandes aportes, como um DOC ou um TED para transferir recursos da conta corrente do banco para a corretora. Se o valor investido for de 100 reais, por exemplo, um DOC de 8 reais ficaria pesado, podendo mais uma vez superar a própria rentabilidade do investimento em um ano se ela for inferior a 8%. É possível fugir desses custos investindo por meio de corretoras que não cobram essa transferência quando os recursos são transferidos de volta para o banco, ou mesmo por uma corretora que aceite depósito via boleto bancário. 

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