São Paulo – Onde você investiria uma quantia de meio milhão de reais no cenário econômico atual? Pode ser que você tenha vendido um imóvel, ganhado um bônus, herdado a quantia ou mesmo poupado em aplicações conservadoras e agora queira fazer esse dinheiro trabalhar para você. Embora a montagem de uma carteira inteligente dependa de muitos fatores, certamente a quantia também influencia: quanto mais dinheiro para investir, melhores são os produtos aos quais você tem acesso e mais fácil é a redução dos riscos do portfólio.

A pergunta de onde investir não tem uma resposta única, pois tudo depende da sua idade, sua renda, sua carreira, sua tolerância a risco e se você tem ou não reservas, filhos e um imóvel próprio. Mas com 500 mil reais já é possível diversificar bastante entre produtos financeiros, gestores de fundos e estratégias, mitigando os riscos.

Em função disso, EXAME.com supôs alguns cenários para exemplificar que tipo de investimento é interessante e acessível, no momento, para quem tem essa quantia para investir:

1. Priorize a reserva de emergência

Se você não tem reservas de emergência afora os 500 mil reais, você deve primeiro tirar desse bolo o equivalente a essa reserva de segurança. Trata-se da quantia destinada ao seu sustento caso você perca a sua principal fonte de renda temporariamente, devido a uma doença, invalidez temporária ou desemprego, por exemplo.

“Você deve deixar o equivalente a, pelo menos, seis meses da sua renda em produtos bem estáveis no curto prazo e que possam ser resgatados imediatamente”, aconselha Annalisa Blando Dal Zotto, CFP, planejadora financeira certificada pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF).

Alguns exemplos desse tipo de produto são os CDB-DIs – de bancos grandes ou médios, desde que a aplicação seja de até 250 mil reais, que é o limite de garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) –, os títulos do Tesouro Direto tipo Letras Financeiras do Tesouro (LFT) e os fundos DI. Todas essas aplicações têm sua remuneração indexada à taxa Selic (caso das LFTs) ou à taxa CDI, que se aproxima da Selic (caso dos fundos DI e dos CDBs).

Para Annalisa, se a renda da pessoa for instável – à base de comissões ou honorários, por exemplo – o ideal é que essa reserva seja maior, de pelo menos um ano. O que exceder o equivalente a seis meses da renda pode ser alocado em produtos com menor liquidez, mas também seguros. Ainda que a liquidez não seja diária, o investidor teria antecedência para fazer o resgate. “Não faz sentido ficar sentado em cima de dinheiro que não seria usado em menos de seis meses no cenário atual de juro real baixo”, comenta.

Ela indica aplicações que busquem de 115% a 120% do CDI, como Letras de Crédito Imobiliário (LCI) ou Letras de Crédito do Agronegócio (LCA), que são como CDBs, com garantia do FGC até 250 mil reais, porém isentos de imposto de renda para a pessoa física. Outra opção são os fundos multimercados multiestratégia e os multimercados Long & Short menos arriscados. Os primeiros investem em diversos ativos, desempenhando várias estratégias e os segundos apostam na alta e na queda de ativos por meio de posições compradas e vendidas.

2. Em seguida, dê atenção ao imóvel próprio

Se você ainda nem começou a pagar um imóvel próprio, Annalisa aconselha a separar uma parcela do bolo dos 500 mil reais para, pelo menos, dar uma entrada. “A compra do imóvel pode não ser a melhor recomendação financeira, mas é algo que dá segurança às famílias”, observa a CFP. Ela acrescenta que o imóvel até pode ser pago à vista, mas que, ainda assim, a reserva de segurança deve vir em primeiro lugar.

De acordo com Claudio Mifano, sócio da área de Gestão de Patrimônio da Claritas, para decidir entre quitar o imóvel à vista, se possível, e financiá-lo, o investidor deve comparar a taxa de juro a que tem acesso ao potencial de retorno de seus investimentos. “Se ele vai se financiar a uma taxa de juros mais baixa que o potencial de retorno, é mais interessante financiar. Se não, é melhor usar a quantia para quitar o máximo possível do valor do imóvel”, explica.

3. Certifique-se de que o risco é para você

As recomendações dos especialistas ouvidos por EXAME.com, que você vai ver a seguir, envolvem investimentos de mais risco, como fundos multimercados, fundos de renda fixa com crédito privado (papéis de dívida de empresas) e fundos de ações. Eles podem sofrer com desempenhos negativos frente aos riscos de oscilações do mercado e, no caso do crédito privado, de calote.

De fato, a economia fraca e a inflação alta – que fazem com que a taxa de juro acima da inflação (juro real) seja baixa – exigem uma tomada de risco maior, especialmente para quem é jovem. Contudo, a possibilidade de tomar risco e a quantidade de risco que será tomada dependem de alguns fatores. Você deve tomar menos ou nenhum risco e priorizar a renda fixa se:

- For usar o dinheiro em até dois anos;
- Tiver renda muito instável, a menos que tenha uns dois anos de reserva de segurança;
- Ainda não tiver feito seguro de vida: se você tem família, isso deve ser priorizado;
- Tiver filhos pequenos;
- Se a família tiver um único provedor, já que o outro não gera renda;
- Em caso de invalidez temporária ou doença grave na família, principalmente se for do principal provedor;
- Tiver dívidas ou financiamentos longos: quitar dívidas de curto prazo e juros altos deve ser priorizado, e financiamentos longos, como o da casa própria, ensejam uma menor tomada de risco nos investimentos e um esforço de quitação antecipada das parcelas;
- Não entender os riscos de determinada aplicação ou não tiver interesse em aprender mais sobre riscos e investimentos;
- Estiver muito perto da aposentadoria;
- Não tiver propensão ao risco, isto é, mesmo que tenha condições de tomar risco, a possibilidade de ter retorno negativo lhe causar pânico.

4. Jovem pode tomar mais risco

Por ainda ter muito tempo pela frente para poupar para a aposentadoria, os jovens no início da vida adulta podem, em tese, tomar mais risco. “Essa pessoa pode buscar uma rentabilidade de 8% ao ano mais inflação pelo IPCA, e pode apimentar um pouco a carteira”, diz Annalisa. Ela lembra, no entanto, que se o jovem tiver complicadores – por exemplo, ainda não tem imóvel próprio, tem filho pequeno e não fez seguro de vida – a meta deve ser mais modesta, e o risco, menor. Ela aconselha, nesse caso, algo como 140% da taxa CDI.

Para a CFP, mesmo pessoas na faixa dos 40 ou 50 anos podem ter carteiras semelhantes às dos mais jovens, desde que ainda falte, no mínimo, uns 15 anos para a aposentadoria. É verdade que o tempo de acumulação nessa faixa etária é menor, mas os filhos podem já ser adolescentes ou adultos, e provavelmente a pessoa já terá um imóvel quitado ou quase, o que torna as coisas mais fáceis para quem quer arriscar. Além disso, a renda nessa fase da vida tende a ser mais alta, a carreira já está consolidada, e a pessoa provavelmente já tem mais conhecimento de investimentos.

Veja as sugestões de carteira para quem ainda tem um bom tempo antes da aposentadoria:

Annalisa Blando Dal Zotto, CFP

Jovem com boa renda, despesas de 10 mil reais por mês e imóvel quitado:

Reserva de emergência para um ano (26%): 70 mil reais em CDB de banco grande e 60 mil reais em um fundo multimercado multiestratégia de pouco risco (com menor variação de rentabilidade).

Parcela moderada (32%): 90 mil reais em um fundo multimercado Long & Short menos arriscado e 70 mil reais em um fundo multimercado macro moderado (do tipo que tenta surfar tendências macroeconômicas).

Parcela arrojada (42%): 70 mil reais em fundos de ações do tipo “long biased”, que ganham não só com a alta de ações, como também com a queda, por meio do aluguel de ações; 70 mil reais em um fundo Long & Short mais arriscado; e 70 mil reais em um fundo multimercado macro mais agressivo.

O que evitar: fundos de ações “long only”, que só compram ações e, portanto, só ganham com a alta dos papéis, e o investimento direto em ações. “Gosto de fundos, pois acho complicado a pessoa fazer a compra direta no dia a dia. Mas os fundos que só operam comprados não estão valendo a pena, por conta do mau cenário para a Bolsa. Se houver financiamento imobiliário, evitar o fundo de ações “long biased” e o multimercados macro mais arriscado.

Claudio Mifano, da Claritas

Parcela conservadora: CDBs e LCIs de bancos médios, diversificados em diversos bancos, até o limite de garantia do FGC de 250 mil reais. Os jovens na faixa dos 30 anos podem dedicar de 50 mil a 225 mil reais (de 10% a 45%) a essa parcela; já as pessoas na faixa dos 40 ou 50 anos podem dedicar de 200 mil a 250 mil reais (40% a 50%) para essa parcela.

Parcela moderada: ativos que pagam juros acima da inflação, como os títulos do Tesouro Direto tipo Notas do Tesouro Nacional-série B (NTN-B) e os fundos de renda fixa – índices que investem nesses papéis, também chamados fundos de inflação; três fundos multimercados de gestores diferentes que busquem retornos de 2% a 5% acima da taxa CDI. Os mais jovens podem dedicar de 100 mil a 150 mil reais (de 20% a 30%) à inflação e a mesma quantia a multimercados, e as pessoas na faixa dos 40 ou 50 anos, cerca de 20% (100 mil reais) para cada tipo de aplicação.

Parcela arrojada: fundos de ações e fundos imobiliários. Neste último caso, Mifano recomenda apenas para quem deseja obter renda com aluguéis, e ainda assim, fundos mais conservadores, como os de agências bancárias. Os mais jovens podem destinar de 75 mil a 150 mil reais (de 15% a 30%) a essa parcela; já os mais velhos, de 50 mil a 100 mil reais (10% a 20%) a essa parcela.

O que evitar: fundos de inflação, se você se sente desconfortável com a impotência diante das cotas negativas. Como as NTN-Bs sofrem marcação a mercado e se desvalorizam quando a taxa Selic se eleva, quem se sente desconfortável com cotas negativas deve investir diretamente. Dessa forma, é possível casar os prazos dos papéis com os seus objetivos e carregá-los deliberadamente até o vencimento, garantindo a rentabilidade acordada. Vender o papel antes do vencimento pode levar o investidor a perder dinheiro. É bom evitar também olhar apenas a rentabilidade dos fundos imobiliários. Eles devem ter ativos sólidos e boas perspectivas de aluguel.

5. Quem está mais perto da aposentadoria deve preservar o patrimônio

Annalisa Blando Dal Zotto caracteriza a carteira dessa fase da vida como “light”. “É carteira para ganhar algo como 140% do CDI, no máximo. O patrimônio deve ser protegido, mas ainda dá para ganhar um dinheirinho”, diz a CFP.

Eis as sugestões de carteira para quem tem entre cinco e dez anos de geração de renda até a aposentadoria:

Annalisa Blando Dal Zotto, CFP

Parcela conservadora (48%): 60 mil reais em títulos do Tesouro Direto tipo Letras Financeiras do Tesouro (LFT); 60 mil reais em um fundo de renda fixa com crédito privado (papéis de dívidas de empresas) bastante pulverizado e que busque 120% do CDI; 120 mil reais em LCI ou LCA.

Parcela moderada (52%): 150 mil reais em títulos do Tesouro Direto tipo Notas do Tesouro Nacional-série B, que remuneram um juro acima da inflação, para carregar até o vencimento, casando os prazos com a época da aposentadoria; 60 mil reais em um fundo Long & Short de baixo risco; e 50 mil reais em um fundo multimercados macro de baixo risco.

Claudio Mifano, da Claritas

Os produtos são basicamente os mesmos recomendados para os mais jovens, mudando-se os percentuais.

Parcela conservadora (de 75% a 60%): de 375 mil a 300 mil reais em CDBs e LCIs de bancos médios, diversificados em diversos bancos, até o limite de garantia do FGC de 250 mil reais.

Parcela moderada (de 10% a 15% em cada tipo de ativo): de 50 mil a 75 mil reais em ativos que pagam juros acima da inflação, como os títulos do Tesouro Direto tipo Notas do Tesouro Nacional-série B (NTN-B) e os fundos de renda fixa – índices que investem nesses papéis, também chamados fundos de inflação; de 50 mil a 75 mil reais em três fundos multimercados de gestores diferentes que busquem retornos de 2% a 5% acima da taxa CDI.

Parcela arrojada (de 5% a 10%): de 25 mil a 50 mil reais em fundos de ações e fundos imobiliários. Neste último caso, Mifano recomenda apenas para quem deseja obter renda com aluguéis, e ainda assim, fundos mais conservadores, como os de agências bancárias.

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