Aguarde...

EXAME.com - Notícias de negócios, mercados, economia, tecnologia, marketing, carreira e finanças pessoais

Finanças | 13/12/2011 07:28

Gustavo Franco explica a magia do dinheiro

Entenda como governos e bancos de investimento emitem dinheiro ou títulos que possuem um valor reconhecido por convenções sociais – mas que podem não ter lastro nenhum

João Sandrini, de
 Comentários (1) Views (14076)
Salvar notícia

Divulgação

Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central

Gustavo Franco, ex-presidente do BC: bancos e governos emitem títulos e dinheiro sem lastro

São Paulo – Você já parou para pensar por que uma nota de cem reais vale cem reais? Que convenção social está por trás da transformação de um pedaço de papel em moeda? Por que foi dado a governos e bancos de investimento o poder de emitir cédulas ou títulos com determinados valores? A quem cabe verificar se esses papéis realmente possuem o lastro necessário para justificar tal validade? E o que tudo isso tem a ver com Fausto, a obra-prima do poeta alemão Johann Wolfgang von Goethe?

As respostas a todas essas perguntas podem ser encontradas no livro “Dinheiro e Magia: Uma Crítica da Economia Moderna à Luz de Fausto de Goethe”, escrito pelo professor Hans Christoph Binswanger e com apresentação e posfácio do ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos, Gustavo Franco. Em entrevista a EXAME.com, Franco explicou que existem muitas semelhanças entre as práticas do sistema financeiro mundial, o processo de desenvolvimento brasileiro e a segunda e menos conhecida versão de Fausto, publicada em 1832, após a morte de Goethe.

Na obra do poeta alemão, um rei já acostumado a pedir conselhos a astrólogos e alquimistas sobre assuntos de Estado descobre que é bem mais fácil imprimir dinheiro do que transformar chumbo em ouro. Políticos brasileiros como Juscelino Kubitschek se esbaldaram nessas políticas e as batizaram de desenvolvimentismo. Nos dias de hoje, os bancos de investimento também conquistaram o poder de criar dinheiro do nada. Com derivativos exóticos ou com ações sem lastro na economia real, esses banqueiros têm gerado prejuízos bilionários a investidores pelo mundo. Na entrevista abaixo, Gustavo Franco analisa a economia e os mercados financeiros sob a ótica de Fausto:

Bolsa

O mundo financeiro é cheio de valores fictícios que são estabelecidos por meio de convenções. Objetos como joias ou ornamentos não possuem um valor intrínseco. Nós é que dizemos quanto eles valem. O valor de uma ação negociada em bolsa não é tão subjetivo. Há cálculos, múltiplos e métodos que são usados para se chegar ao preço justo de um papel. Mas também há um componente de sentimento coletivo que tem reflexo no preço das ações: o pessimismo ou o otimismo. Outro componente importante da formação de preços em bolsa é que ao menos uma parcela da cotação de mercado de uma empresa está relacionada ao seu futuro. Qualquer ativo financeiro tem um componente artificial que depende do cumprimento de uma série de premissas. Quando uma empresa frustra as expectativas dos agentes do mercado, os investidores imediatamente começam a questionar se o valor atribuído a determinada ação é o correto. Nos períodos de euforia, as distorções podem durar muito tempo para serem corrigidas. Mas os mercados possuem mecanismos próprios para lidar com bolhas, ainda que algumas delas terminem em tragédia.

Derivativos

O advento dos derivativos de operações estruturadas de crédito pode ser comparado à emissão de papel-moeda em Fausto. É a uma inovação financeira com um aspecto mágico e antissocial. Às vezes, essa mágica poderosa pode ser usada para produzir riqueza e progresso. Outras vezes, há uma fraude envolvida. O que aconteceu na crise de 2008 foi que muita gente abusou na utilização desses instrumentos de crédito.

Uma manifestação bastante irônica sobre a emissão de títulos no mercado financeiro são os Monte Carlo Bonds, apresentados pelo artista plástico Marcel Duchamp em 1924. O Monte Carlo Bond era bem parecido com um título de dívida, só que estampado pelo próprio rosto do Duchamp se barbeando. A ideia era colocar os títulos no mercado e, com o dinheiro levantado, apostar nas roletas de Monte Carlo. Caso as apostas fossem bem-sucedidas, os investidores teriam direito aos dividendos. Essa é uma metáfora muito atual sobre a qualidade de alguns papéis que são vendidos aos investidores.

Comentários (1)  

Irineu Pereira Coutinho

Penso que toda manobra principalmente especulativa e exótica lastreada em convenção e ou crença, mas...

13.12.2011 | Ler comentário completo |  

Editora Abril

Copyright © Editora Abril S.A. - Todos os direitos reservados