São Paulo - "Livros tão caros, tanta taxa pra pagar/ Meu dinheiro muito raro alguém teve que emprestar", cantou Martinho da Vila em 1969. O samba é antigo, mas o desafio para quem pretende concluir um curso superior que não cabe no bolso continua. Felizmente, agora, até as mais conceituadas universidades particulares já aceitam - ou até oferecem - uma modalidade de crédito ainda jovem no Brasil: o financiamento educacional.

Entre as principais linhas de crédito, o financiamento educacional foi a última a "pegar" no Brasil. A modalidade se tornou mais conhecida no fim da década de 90, quando foi instituído o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), subsidiado pelo governo federal. Mas o acesso a empréstimos para bancar os estudos não se restringe apenas aos estudantes de baixa renda, priorizados pelo Fies. As mensalidades de muitos cursos de graduação e pós em instituições renomadas podem pesar bastante no bolso, mas já é possível financiá-las em bancos e empresas privadas ou até mesmo na própria universidade.

Normalmente, as linhas de crédito educativo permitem ao estudante financiar até 100% do valor da faculdade, estendendo o prazo de pagamento das mensalidades por anos após a conclusão do curso. Durante o período de estudos, as prestações são mais leves, ficando mais caras depois que o beneficiário se forma e, em tese, já está empregado. Além dos juros, são pagos também Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) e correção monetária, como em qualquer outro empréstimo. Atualmente o Fies tem, de longe, as melhores condições do mercado: juros de 3,4% ao ano - a mais baixa nessa modalidade de crédito - e prestações iniciais de até 50 reais por trimestre até 18 meses após a conclusão do curso.

As taxas de juros em bancos privados e correspondentes bancários costumam ser bem mais salgadas. Algumas linhas, como a da empresa Ideal Invest, a maior do setor de crédito educativo privado, saem mais caras, apesar de ainda serem competitivas quando comparadas aos juros de outros tipos de financiamentos. Por exemplo, alguém que decida financiar 100% de um curso de Direito no IBMEC-RJ, a uma mensalidade de 1535 reais, poderá pagar em 10 anos, mas o valor final chega a custar quase duas vezes o valor total do curso. Uma faculdade de mesmo valor financiada pelo Fies não sairia por mais de uma vez e meia o custo do curso sem financiamento.

Mas o crédito educativo privado pode ser a saída para quem não atende aos critérios de renda do Fies ou para quem pretende financiar cursos de pós-graduação. Quem já tem uma instituição de ensino em mente também pode, muitas vezes, contar com boas condições de financiamento na própria faculdade. Na Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP), por exemplo, o aluno não paga juros, apenas correção monetária pelo IGP-M.

Crédito não é bolsa

É importante lembrar que o financiamento estudantil é diferente de bolsa de estudo. O financiamento é um empréstimo como qualquer outro, voltado para quem não pode arcar com o valor integral das mensalidades no momento em que cursa a faculdade. No futuro, com uma suposta melhora de renda, porém, o valor deve ser devolvido com juros. Quem simplesmente não tem condições financeiras de pagar pelos estudos pode pleitear uma bolsa na própria instituição, já que muitas delas dispõem dessa facilidade.

Outra saída é o Programa Universidade para Todos (ProUni), também subsidiado pelo governo federal, que concede bolsas de 50% e 100% em instituições privadas credenciadas para estudantes com renda familiar per capita de até três salários mínimos por mês e que tenham cursado o ensino médio em escola pública ou com bolsa integral em escola particular. Nesse programa, a nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) também é utilizada como critério para distribuir as bolsas. As inscrições podem ser feitas sempre no início e no fim do ano pelo Portal ProUni.

O mercado de crédito educativo no Brasil movimenta hoje cerca de 7 bilhões de reais, mas ainda tem muito que se popularizar. No estado de São Paulo, por exemplo, apenas 6,9% dos estudantes de instituições particulares utilizam algum tipo de financiamento. E se considerarmos que, em todo o país, apenas 13,7% dos jovens entre 18 e 24 anos estão no ensino superior - taxa que ultrapassa os 30% em países como Argentina, Chile e México - mercado para crescer é o que faltará. Principalmente quando se leva em conta que cerca de 90% das instituições de ensino superior brasileiras são particulares.

Conheça os detalhes sobre as diferentes formas de financiamento estudantil:

Programa de Financiamento Estudantil (Fies)

Para quem não atende os requisitos do ProUni, o Programa de Financiamento Estudantil do Governo Federal (Fies) financia até 100% da mensalidade de cursos presenciais, a uma taxa de juros de 3,4% ao ano. Bolsistas parciais do ProUni também podem participar. São priorizados os cursos de graduação, mas cursos de mestrado, doutorado e os técnicos de nível médio também podem ser financiados caso haja disponibilidade de recursos. O financiamento pode ser encerrado a qualquer momento.

Atualmente, o programa é operado pela Caixa Econômica Federal e pelo Banco do Brasil. Desde 1999, quando substituiu o Programa de Crédito Educativo (PCE/CREDUC), o Fies beneficiou mais de 560.000 estudantes, com a liberação de cerca de 6 bilhões de reais.

Simule aqui um financiamento pelo Fies.

Pré-requisitos:
 
- Estar regularmente matriculado em uma instituição de nível superior particular que tenha obtido nota igual ou maior que 3 no Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), antigo Provão.

- Não estar inadimplente com o antigo Programa de Crédito Educativo nem ter sido beneficiado anteriormente pelo Fies.

- Apresentar garantias: fiador com renda mensal mínima de uma ou duas vezes o valor da mensalidade, dependendo se o estudante é bolsista ou não; ou fiança solidária, por meio da formação de um grupo de estudantes beneficiários do Fies pertencentes à mesma instituição de ensino, em que cada um seja corresponsável pelo pagamento das prestações dos demais.

Critérios: Os critérios do Ministério da Educação para a seleção dos estudantes levam em conta o perfil socioeconômico dos candidatos.

Inscrições: As inscrições para o Fies podem ser feitas gratuitamente no endereço www.sisfies.mec.gov.br .

Amortizações: O estudante não pode comprometer mais de 20% de sua renda familiar per capita no pagamento das prestações, feito em três fases. Durante a fase de utilização (período de duração do curso) e a fase de carência (18 meses a partir da conclusão do curso), o estudante só paga, a cada três meses, o valor máximo de 50 reais, correspondente aos juros. Terminado o período de carência, começa a fase de amortização, em que o saldo devedor e os juros restantes serão parcelados em até três vezes o período financiado acrescido de 12 meses. Isso significa que um curso 100% financiado de quatro anos de duração terá uma fase de amortização de 13 anos (3 vezes os 4 anos de financiamento + 12 meses).

Instituições de ensino

Talvez a forma mais tradicional de crédito educativo no país seja o financiamento junto às próprias instituições de ensino. Antes mesmo dos programas de governo ou das linhas de crédito privadas, as próprias faculdades e universidades já ofereciam financiamento para seus estudantes com maior dificuldade de pagar as mensalidades integralmente. Atualmente, muitas instituições ainda oferecem essa modalidade de empréstimo, além das bolsas de estudos e de outros programas de auxílio estudantil.

Insper/IBMEC: o Instituto de Ensino e Pesquisa do IBMEC, entidade sem fins lucrativos, oferece linhas de financiamento para graduação e pós. Para os alunos do MBA é possível parcelar em 24 ou 30 vezes, dependendo da modalidade do curso, com juros de 1,2% ao mês (14,4% ao ano), com dispensa da análise de renda. Já para a graduação, o programa é um pouco diferente do normal. "É como se fosse um auxílio para o responsável que passa por um problema financeiro pontual. Quem simplesmente não tem condições de arcar com as mensalidades deve tentar o programa de bolsas", explica Milena Oliveira, gerente financeira do Insper. Por problema pontual, Milena se refere a perdas no próprio negócio ou no mercado de capitais. Um semestre pode ser parcelado em até 12 vezes, com juros de 1,2% ao mês. Para perdas financeiras referentes a doença, morte ou perda do emprego do responsável financeiro existe outro dispositivo: um seguro já incluso na mensalidade que cobre as despesas do aluno até o final do curso, inclusive com material didático.

Fundação Getúlio Vargas: A FGV de São Paulo financia de 20% a 100% do valor da mensalidade de seus cursos de graduação (Administração, Economia e Direito), sem juros, de acordo com a renda familiar do aluno. O empréstimo só começa a ser pago a partir do 5º ano de solicitação do primeiro financiamento, já depois do curso, apenas com correção monetária pelo IGP-M. Essa facilidade é possível porque o crédito usa os recursos do Fundo de Bolsas da instituição, que também recebe recursos doados por empresas, ex-alunos e funcionários.

Bancos privados

Assim como o governo, por intermédio dos bancos públicos, o setor privado também começa a adentrar a seara do crédito educacional, por meio de programas de financiamento semelhantes ao Fies. No caso dos bancos, atualmente Santander, Itaú-Unibanco e Bradesco oferecem linhas de crédito para custear mensalidades, a taxas de juros bem mais salgadas que a do programa de financiamento do governo. No entanto, são alternativas para quem deseja custear os estudos de pós-graduação ou não conseguiu ser beneficiado pelo Fies ou outra linha de crédito na própria instituição de ensino. O proponente deve ser correntista, passar por uma análise de crédito e estar matriculado em uma instituição conveniada ao banco.

Itaú-Unibanco: o Crédito Universitário financia cerca de 50% de cursos de graduação pelo dobro do tempo de sua duração em 90 instituições conveniadas em 23 estados, a uma taxa de juros de 6% ao ano. O contrato pode ser renovado a cada seis meses. O valor das mensalidades de cada semestre é parcelado em 12 vezes, sem acúmulo de parcelas. Simule aqui um financiamento no Itaú-Unibanco.

Santander: a única linha de crédito educativo é o Crédito Educação Continuada, voltado para o financiamento de cursos de pós-graduação - MBAs no Brasil, pós lato sensu, especialização, mestrado ou doutorado. São 38 instituições conveniadas em todo o país, como a Escola Superior de Propaganda e Marketing (Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Brasília), a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a Universidade para o Desenvolvimento do Estado e da Região do Pantanal (Uniderp, no Mato Grosso do Sul). É possível financiar até 100% do valor do curso em 36 meses, com 90 dias para começar a pagar a primeira parcela. A taxa de juros é de 1,95% ao mês ou 23,4% ao ano.

Bradesco: O crédito educativo no Bradesco é uma modalidade de Crédito Direto ao Consumidor (CDC) e financia apenas cursos de MBA e pós-graduação em instituições conveniadas, com juros de 2,55% ao mês (35,28% ao ano). O limite de financiamento é de 40.000 reais e o estudante tem até 48 meses para pagar. Simule aqui um financiamento no Bradesco.

Empresas

Além dos bancos, empresas privadas também vêm atuando no segmento de crédito educacional como correspondentes bancários. A maior delas é a Ideal Invest, correspondente do Banco ABC Brasil, que, em 2006, passou a oferecer a linha de crédito universitário PRAVALER. Através dela é possível custear parcial ou integralmente cursos de graduação e pós em 173 instituições parceiras em 14 estados, como a Mackenzie (SP), a Unisinos (RS) ou a Universidade Católica de Brasília. A quitação da dívida é feita no dobro do tempo de duração do financiamento, com juros de zero a 1,89% ao mês (22,68% ao ano) e correção monetária pelo IPCA. A linha de crédito banca 100% das mensalidades que, nas instituições parceiras do PRAVALER, estão na média de 800 reais. A Ideal Invest já financiou o ingresso de 44.000 alunos no nível superior e injetou, nos três primeiros anos de atuação, 163 milhões de reais no setor de crédito educacional.

Simule aqui um financiamento PRAVALER.

Pré-requisitos: Aluno e fiador precisam ter CPF regular e não constar em cadastros de proteção ao crédito. A renda mínima do garantidor deve ser de, no mínimo, duas vezes o valor da mensalidade, e é possível somá-la à renda do estudante caso este já possua renda própria. Como qualquer outro empréstimo, a liberação está sujeita à análise de crédito.

Juro zero: os juros variam de acordo com a instituição e a modalidade. O juro zero pode ser obtido junto a instituições que subsidiam o ingresso de um aluno que ocupe uma vaga ociosa. É o caso, por exemplo, das Faculdades Veris, do grupo IBMEC, que tem quatro campi no estado se São Paulo. Lá, metade do valor do curso é pago durante o período de estudos e a outra metade após a formatura, sem juros.

Amortizações: O financiamento pode ser renovado a cada seis meses e amortizado antes do término do prazo, com abatimento dos juros, se o aluno assim desejar. No primeiro semestre de contratação, o estudante paga apenas uma mensalidade, em duas parcelas; nos seguintes, cada semestre será dividido em 12 vezes, e as prestações não se acumulam, mas crescem ao longo do tempo.

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