São Paulo - O número de pessoas que compra um carro para viajar certamente é bem maior do que o grupo que viaja para comprar um carro. Engana-se, no entanto, quem acha que a minoria enlouqueceu. O preço dos carros novos em São Paulo é o menor do Brasil e pode justificar o deslocamento. Segundo a tabela da Molicar, empresa que coleta o valor de mercado de veículos em todo o país, um carro 0 km custa até 5,2% mais em outros estados quando comparado aos preços do mercado paulista. Já os carros usados mais baratos estão no Centro-Oeste e os mais caros, no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina. (veja abaixo qual é o desconto ou o sobrepreço dos carros em relação a São Paulo, segundo a Molicar).

Regiões de Abrangência Carros de passeio

Novos

Usados

Nordeste (1)

   
Abrangência 3,5 -1,2
BA,SE    
     

Centro Oeste (1)

   
Abrangência 3,4 -2,0
DF,MS,GO,MT,TO    
     

Sudeste (1)

   
Abrangência 2,9 -1,6
MG    
     

Sul (2)

   
Abrangência 3,4 3,2
PR    
     

Sudeste (2)

   
Abrangência 2,8 -1,3
RJ    
     

Sul (2)

   
Abrangência 4,0 3,7
RS,SC    
     

Nordeste (2)

   
Abrangência 4,4 -1,5
PE,AL,PB,RN    
     

Norte (1)

   
Abrangência 5,2 -1,2
PA,AP    
     

Nordeste (3)

   
Abrangência 4,8 -1,3
CE,PI,MA    
     

Sudeste (3)

3,9 -1,6
Abrangência    
ES    
     

Norte (2)

4,4 -1,7
Abrangência    
AM,RR,AC,RO    

Em geral, o valor dos veículos novos sofre pequenas variações de acordo com o preço do frete. O principal fator para que São Paulo tenha um carro mais barato, no entanto, é a grande concorrência entre as concessionárias. O consumidor paulistano pode pesquisar o preço de um mesmo veículo em várias lojas antes de levá-lo para a garagem. Mesmo marcas não tão populares como Citröen ou Mitsubishi possuem diversas concessionárias no estado que disputam compradores entre si. O consumidor portanto, tem como espremer o vendedor até que ele aceite um melhor preço. Além disso, por ser o maior centro de negócios do país, São Paulo abriga muitas empresas que compram carros no atacado e conseguem preços melhores – jogando o preço médio para baixo.

Entre os estados com carros novos mais baratos, aparecem em seguida o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Esses mercados possuem características bastante parecidas com as de São Paulo, mas em um grau menor de intensidade. Já os valores mais altos são cobrados no Amazonas e no Pará. Os dois estados estão bastante distantes das principais montadoras - o que encarece o frete. O número de concessionárias é bastante limitado. Além de reduzir a disputa por fatias de mercado, a menor concorrência desestimula as lojas a formar estoques - e a queimá-los quando necessário.

Usados

Já o preço dos veículos usados varia de acordo com condições culturais, das estradas e até climáticas de cada região. O coordenador técnico do setor de veículos da Fipe, João Alves, afirma que a diferença de preços entre os seminovos já foi muito maior do que atualmente. Antes dos sites de comercialização de veículos se tornarem bastante populares no Brasil, um comprador do interior do Pará tinha poucas alternativas para a consulta de preços e acabava nas mãos dos poucos fornecedores de veículos da região. "Já se foi o tempo em que o cara conseguia um carro 20% mais barato ao vir para São Paulo", diz Vitor Meizikas Filho, analista de mercado e gestor da Molicar. "A internet reduziu muito a diferença de valores."

Os carros usados mais caros encontram-se na região Sul - e há motivos reais para isso. Em geral, as estradas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná são melhores que a média brasileira. Os carros estão menos expostos ao sol, que estraga a pintura. Quem roda em Curitiba, por exemplo, não precisa se preocupar com os efeitos da salinidade sobre o veículo como os proprietários de cidades como Rio de Janeiro ou Salvador. Por último, o dono de carro nos estados do Sul gosta de cuidar bem do automóvel. Essa "cultura da conservação" naturalmente valoriza o veículo na hora da revenda.

Tanto que, quando as lojas de veículos do Sul precisam buscar carros em outros estados por falta de oferta, vêm para São Paulo. Os carros paulistas são bastante aceitos em todo o país porque as estradas, as oficinas de manutenção, os estoques de peças originais e a qualidade da mão de obra são, na média, melhores que em outros estados. O preço dos veículos usados costuma ser menor do que no Sul principalmente devido à grande concorrência entre os vendedores. "A oferta de carros é maior em São Paulo porque 65% da frota de todo o país roda no estado", diz João Alves, da Fipe.

Já os carros que rodam no Centro-Oeste, Norte e Nordeste perdem valor por causa das condições das estradas e devido às altas temperaturas. "São carros que não têm a mesma qualidade. As condições de uso são severas", diz André Martins, gerente de vendas da Caltabiano em São Paulo. Além disso, faltam carros usados em boas condições nas cidades mais afastadas dos grandes centros. Tanto que muitos lojistas de Cuiabá, por exemplo, vão buscar veículos em locais como Brasília, onde a oferta de veículos em boas condições de uso é maior.

Como comprar em outras cidades

Quem se interessou pela possibilidade de comprar um carro em outra cidade deve saber que a compra de carros usados exige diversos cuidados. Encontrar veículos com preços interessantes tanto nas páginas das concessionárias na internet quanto em sites de classificados de veículos é muito fácil. Somente na WebMotors, o maior site de comercialização de veículos do país, há cerca de 200.000 ofertas consultadas por 8 milhões de pessoas diferentes por mês. No site, o preço de um mesmo modelo chega a variar mais de 5.000 reais.

Em geral, as melhores ofertas são colocadas por pessoas físicas - e não por lojas ou concessionárias. Mas é recomendável desconfiar dos preços baixos demais, principalmente quando justificados com o fato de o veículos ter sido ganho em sorteio, brinde ou herança - o que raramente é verdade. Para quem está interessado em um carro de um internauta de outra cidade, saiba que é imprescindível vistoriá-lo antes da compra. Sem uma inspeção presencial, é praticamente impossível garantir que um carro não ficou debaixo d'água durante uma enchente, foi roubado ou sofreu avarias graves em um acidente. Muitas vezes algum desses defeitos só é descoberto quando o veículo é levado para a análise de um especialista.

O ideal é pedir para algum conhecido verificar as condições de uso e a própria existência do veículo antes de realizar qualquer depósito na conta do vendedor. Ter certeza sobre a veracidade do endereço e do telefone declarados no site também é importante. Tomados todos esses cuidados, é hora de negociar o pagamento. O ideal é tentar não depositar nenhuma garantia com antecedência. Mesmo o dinheiro da passagem muitas vezes pode ser negociado. Há casos em que o comprador obtém do vendedor a promessa de que o custo do bilhete aéreo será reembolsado caso o carro não esteja nas condições descritas.

Outra saída é tentar conciliar a compra do carro com alguma visita que deveria ser realizada à cidade do vendedor. Para economizar, muita gente já também volta para o município de origem dirigindo o novo carro. Quando a distância é muito longa, a opção é despachar o veículo por carreta. O frete costuma custar ao menos 500 reais - o valor varia muito de acordo com a distância. Isso deve ser colocado na conta para avaliar se vale a pena ou não comprar um carro em outra cidade. Muitas vezes a viagem só compensa quando o valor do carro é bem alto ou quanto se trata de um veículo que simplesmente não existe em determinada região.

Tópicos: Carros, Autoindústria, Veículos, Orçamento pessoal, Patrimônio pessoal