São Paulo – Juntar 100 mil reais não é uma tarefa corriqueira para a maioria dos brasileiros, mas executá-la também não soa impossível. Mas embora não seja uma quantia desprezível, verdade seja dita: 100 mil reais não é lá um valor muito alto quando se fala em investimentos e diversificação. A boa notícia é que, com essa quantia, já dá para investir de forma inteligente no mercado financeiro, de forma a preservar poder de compra e até obter ganhos.

O primeiro objetivo para o qual todo mundo deveria poupar, segundo especialistas, é para a sua reserva de emergência. Ela deve ser suficiente para cobrir suas despesas por, no mínimo, seis meses, e estar aplicada em investimentos bem conservadores, que possam ser resgatados facilmente. “É o caso da poupança, dos CDBs, dos fundos DI e dos fundos de renda fixa mais tradicionais”, diz Angela Nunes, CFP, planejadora financeira certificada pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF).

Mas se você conseguiu poupar 100 mil reais fora a sua reserva de emergência, já dá para começar a diversificar um pouco, tanto dentro da renda fixa conservadora quanto com outros tipos de produtos. Veja a seguir algumas sugestões de Angela Nunes de bons produtos disponíveis para quem tem esse montante para investir:

Títulos públicos do Tesouro Direto

Os títulos públicos negociados via Tesouro Direto têm a vantagem de não ter uma limitação significativa de aporte mínimo. A compra mínima deve equivaler a 10% do valor de um título, desde que respeitado o limite financeiro de 30 reais. O risco de calote é o mais baixo que existe no Brasil, uma vez que os títulos são garantidos pelo governo federal. Trata-se, portanto, de uma parcela conservadora da carteira.

Para investir no Tesouro Direto é preciso ter uma conta aberta em uma corretora de valores. O imposto de renda sobre os rendimentos varia de 22,5% a 15,0% dependendo do prazo do investimento. Há uma taxa de custódia obrigatória de 0,3% ao ano e uma taxa cobrada pelas corretoras, que varia de zero a 2,0% ano dependendo da instituição. Mas para que o Tesouro Direto seja mais vantajoso que a poupança atualmente, é aconselhável que a corretora não cobre mais que 0,6% ao ano.

Para o curto e médio prazo: as Letras Financeiras do Tesouro (LFT) são os títulos mais conservadores e “tranquilos” mesmo para quem as vende antes do vencimento. São pós-fixadas, pagando aproximadamente a taxa Selic do período do investimento. Seus prazos não costumam ser longos.

Para o longo prazo: as Notas do Tesouro Nacional-série B (NTN-B) são as mais indicadas para quem tem objetivos de longo prazo, mas ainda assim deseja ou precisa de um investimento seguro. Seus prazos costumam ser longos – há NTN-Bs com vencimento em 2050 – e elas pagam um juro pré-fixado acima da inflação oficial (IPCA). É aconselhável carregar esses títulos até o vencimento, pois a venda antes do prazo pode levar o investidor a perder dinheiro, uma vez que o valor das NTN-Bs flutua bastante ao sabor das expectativas para a Selic.

Dica: você pode montar uma carteira com um mix de diferentes títulos, de diversos vencimentos, para não ter que vender nenhum deles antes do vencimento. O melhor é tentar casar os vencimentos com as datas em que você vai precisar usar o dinheiro.

CDB

Os Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) pós-fixados também são uma opção conservadora para o curto e médio prazo, principalmente quando há uma data certa para se usar o dinheiro. Eles costumam pagar um percentual da taxa CDI, que é próxima da Selic. A segurança é similar à da caderneta de poupança, uma vez que o investimento tem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para quantias de até 250 mil reais aplicadas em uma mesma instituição por um mesmo CPF.

Para investir em um CDB basta ter conta aberta no banco emissor, e não há cobrança de taxas. Contudo, há cobrança de IR, que varia de 22,5% a 15,0% sobre os ganhos, dependendo do prazo. Por isso, no cenário ideal, o CDB deve pagar mais que 90% do CDI, para se manter mais vantajoso que a poupança em qualquer prazo.

CDBs de grandes bancos: são os mais conservadores e seguros, pois os bancos grandes são mais resistentes a crises que os bancos médios, correndo menos risco de quebrar. Porém, também é mais difícil conseguir boas remunerações nos bancos grandes, principalmente para quem tem pouco dinheiro para investir. Ideais para quem tem objetivos de curto e médio prazo, pois o resgate pode ocorrer a qualquer tempo, com pouca perda de rentabilidade.

CDBs de bancos médios: não costumam ter muitas limitações de aportes mínimos, e podem pagar a mesma remuneração para qualquer montante investido. Não é difícil conseguir 100% do CDI com liquidez diária, mas com carência é possível obter taxas até maiores. O investimento se mostra seguro para quem aplica até 250 mil reais, devido à cobertura do FGC. Porém, o ressarcimento pode demorar em caso de quebra do banco, o que se mostra um risco adicional. Assim, esses papéis são mais indicados para quem tem objetivos de longo prazo e sem uma data muito exata para o uso do dinheiro.

Dica: quem tem um prazo de alguns anos para usar o dinheiro, mas não quer abrir mão da segurança, uma dica de Angela Nunes é procurar no seu banco um CDB programado. A remuneração desse tipo de aplicação aumenta com o passar do tempo, podendo ultrapassar 100% do CDI em algumas instituições. Porém, resgates antecipados podem penalizar bastante a remuneração.

Fundos DI e fundos de renda fixa conservadora

Os fundos de renda fixa que costumam ter remunerações próximas à taxa Selic não devem cobrar mais que 1,0% ao ano de taxa de administração para manterem vantagem frente à poupança no cenário atual. Isso porque há cobrança de 22,5% a 15,0% de IR sobre os ganhos, dependendo do prazo da aplicação. “Com uma taxa maior que essa, por melhor que seja a gestão do fundo, o produto perde a competitividade”, diz Angela.

Fundos de ações e multimercados

Segundo Angela Nunes, com 100 mil reais já dá para começar a experimentar investimentos um pouco mais sofisticados, desde que o investidor não tenha aversão a risco e tenha objetivos de longo prazo – como a aposentadoria, por exemplo.

Para ela, nessa situação não é aconselhável investir mais que 10% do patrimônio em fundos de ações – isto é, 10 mil reais. Existem fundos de ações que aceitam aportes dessa monta mesmo entre aqueles que não tentam seguir o Ibovespa, principal índice da Bolsa. Contudo, é uma quantia que dificulta muito a diversificação em mais de um fundo.

Em relação aos multimercados, Angela aconselha no máximo 30% do patrimônio, isto é, 30 mil reais. Isso se forem considerados fundos multimercados com um risco intermediário. “Nem aqueles que se aproximam da renda fixa, nem os do tipo 'tarja preta'”, diz Angela.

Cuidado com a concentração excessiva

Os maiores riscos de quem tem "apenas" 100 mil reais para investir são as taxas altas e a concentração excessiva. Existem bons e sofisticados produtos que exigem aportes iniciais de 100 mil reais, mas não é aconselhável aplicar toda essa quantia em um único produto. Isso restringe um pouco as possibilidades de quem quer aplicar em fundos de ações, multimercados e Letras de Crédito Imobiliários (LCI), títulos semelhantes a CDBs que pagam rentabilidades atrativas e são isentos de IR.

Por outro lado, os CDBs para quem tem apenas alguns milhares de reais para investir costumam pagar pouco nos grandes bancos, enquanto que os fundos de aporte inicial mais baixo normalmente cobram taxas de administração altas. Por isso, é fundamental que o pequeno investidor pesquise cuidadosamente e negocie bastante todas as taxas que puder.