São Paulo - Reza a ideologia dominante entre teóricos financeiros que os mercados são lógicos, racionais e sempre tendem ao equilíbrio. Investidores seriam seres guiados apenas pelo objetivo de ganhar o máximo de dinheiro, sem se importar em assumir erros para evitar perdas maiores ou ignorar oportunidades de aproveitar uma pechincha por mais que todos os alarmes de risco estejam soando. Afinal, por mais que o mercado possa se equivocar momentaneamente, uma hora ou outra a razão falará mais alto, e quem tiver enxergado a oportunidade primeiro embolsará os lucros mais gordos.

Aparentemente conectado à realidade, esse discurso sofreu um abalo durante os anos de 2008 e 2009, quando expressões como "pânico" e "euforia" frequentaram o noticiário econômico com uma assiduidade nunca vista na história. Nessas horas, quem aparece com a explicação mais convincente para os seres humanos comprarem ações muito caras e venderem papéis muito baratos são os teóricos das finanças comportamentais. Trata-se de uma classe ainda vista com certo preconceito pela maioria do mercado, mas que possui um argumento difícil de refutar: os investidores são seres humanos e, como tais, acabam influenciados por suas emoções até na hora de lidar com o próprio dinheiro. Grandes perdas financeiras podem ser tão difíceis de suportar quanto a dor física. É por esse motivo que, quando a bolsa desaba, muita gente vende ações ao invés de aproveitar a oportunidade para comprar.

Ainda de acordo com as finanças comportamentais, qualquer ser humano estaria sujeito a tomar decisões desesperadas em momentos de estresse no mercado, mas pessoas menos acostumadas a lidar com o próprio dinheiro são as mais suscetíveis ao pânico. Nessas horas, até mesmo um componente biológico não pode ser ignorado. Um estudo da Universidade de Cambridge concluiu que 23% das mulheres e 18% dos homens sofrem de um distúrbio chamado fobia de finanças pessoais. Metade das pessoas que participaram da pesquisa sofrem aceleração do ritmo cardíaco ao lidar com o próprio dinheiro, e 15% deles chegavam a evitar abrir os envelopes bancários "para não ter transtornos".

Curar esse tipo de fobia não é fácil. Mas especialistas dizem que é possível evitar que o lado emocional atrapalhe suas decisões de investimento seguindo cinco dicas simples.

1 - Evite o movimento de manada

O ser humano tem a tendência de seguir o grupo. Primeiro, porque essa é uma maneira de simplificar a decisão. Na preguiça de pensar, é mais fácil fazer o mesmo que todo mundo. Além disso, parece lógico que, se todos estão fazendo alguma coisa, deve haver uma boa razão para isso. Se os amigos estão ganhando dinheiro na bolsa, o normal é não querer ficar para trás. Se eles também se derem mal, a frustração de quem perdeu diminui.

Por isso, o investidor muitas vezes segue o movimento do mercado e acaba cometendo um grande erro: vende seus ativos quando eles estão em baixa e compra quando estão em alta. Ao ver seus investimentos em ações minguarem por causa de uma baixa na bolsa, o investidor entra em pânico. Resolve, então, seguir os demais, e também se desfaz de seus papéis. Mas quando as ações estão indo bem, o investidor se sente confiante e decide comprar.

Para Márcia Dessen, cofundadora do Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros (IBCPF), todos esses são exemplos de decisões irracionais. "O investidor tem que olhar para a bolsa com o seguinte pensamento: a hora de comprar é quando o preço está baixo; a hora de vender é quando o preço está alto. O curioso é que as pessoas seguem instintivamente essa lógica na hora de comprar alimentos, roupas e eletrônicos. Mas não com ações."

Dica: De acordo com o estrategista de investimentos pessoais do Santander Asset Management, Aquiles Mosca, uma medida simples - mas essencial - é rebalancear os investimentos a cada três meses de forma a manter constante o percentual aplicado em cada tipo de ativo. Se o investidor definiu que vai manter 15% de seu dinheiro aplicado em bolsa e 85% em renda fixa, periodicamente tem que vender alguns papéis e comprar outros para alcançar a meta estipulada. Em um cálculo grosseiro, se a bolsa subir 50%, o valor das ações passará a representar 22,5% da carteira. Para rebalanceá-la, será necessário vender uma parte do que está investido em bolsa.

"A maioria dos investidores quer sair da bolsa quando as ações estão em baixa. Mas a recomendação é recompor a carteira, pois, automaticamente, após uma forte queda, as ações estão baratas. Assim, mantém-se a disciplina e, invariavelmente, compra-se na baixa e vende-se na alta. Os retornos são bem interessantes ao longo do tempo", avalia Aquiles Mosca.

Márcia Dessen reforça: "Quando o investidor vende na baixa, ele não recupera mais o que perdeu". Mas mesmo que não se desfaça de suas ações, se não rebalancear a carteira, o investidor corre outros riscos: o de perder parte do que ganharia na alta e o de demorar muito a neutralizar suas perdas. Afinal, se suas ações caírem 50%, precisarão, em seguida, subir 100% para que o valor investido seja recuperado.

2 - Não se exponha demais

Estudos de finanças comportamentais mostram que a maioria das pessoas não tem aversão a risco, mas sim a perdas. Ou seja, elas normalmente não estão dispostas a arriscar para ganhar, mas estão dispostas a arriscar para não perder. A possibilidade de perder o suado dinheiro que conseguiu poupar para investir apavora os novatos da bolsa. A consequência desse descontrole emocional aliado - muitas vezes - à falta de informação pode levar o investidor a tomar medidas irracionais e, normalmente, desastrosas.

Dica: Para não cair nesse erro, o investidor deve destinar à bolsa somente aquele dinheiro extra do qual ele pode prescindir. Isto é, um percentual de poupança que não seja essencial no curto prazo e que, se for completamente perdido, não fará falta. Vale lembrar ainda que investir em renda variável é uma medida de longo prazo. "O investidor tem que concordar em esperar o tempo que for necessário para não sair em qualquer baixa", diz Márcia Dessen.

3 - Cuidado com os eventos atípicos

Eventualmente, os movimentos de manada são provocados por eventos atípicos. Às vezes, o acontecimento nada tem a ver com a economia, mas o simples fato de ter se tornado muito evidente já é o suficiente para causar grandes oscilações nas bolsas, o chamado "efeito contágio". Foi o que aconteceu em 2007, por exemplo, quando a bolsa chinesa arrastou mercados do mundo inteiro por causa de uma medida do governo chinês que só afetaria os próprios chineses. O aumento do Imposto de Renda para a pessoa física levou os chineses a sacarem parte do dinheiro investido, derrubando a bolsa em 8%. O pânico se espalhou pelos mercados, afetando, inclusive, o Ibovespa.

Mas nem sempre esses eventos raros são pontuais. As bolsas também costumam viver momentos de euforia, que podem trazer grandes lucros no curto prazo, mas que terminam com a formação de "bolhas". Nessas ocasiões, o investidor deve ser especialmente cuidadoso.

Dica: O raciocínio do rebalanceamento vale, até mesmo, para momentos de crise ou recessão. E para quem estiver fora da bolsa nessas ocasiões, o ideal é observar. Se houver perspectiva de alta, entre devagar, começando por aportes menores. Assim, fica mais fácil sentir se as recuperações são momentâneas ou se representam uma possibilidade de crescimento sólida.

Sejam quais forem os motivos para a euforia ou o pânico do mercado, é importante que o investidor jamais subestime as possibilidades de eventos raros acontecerem. "O investidor normalmente acha que tudo vai dar certo, e que dificilmente um fato raro, como uma grande crise econômica, vai acontecer. Com isso, deixa de se preparar para os soluços do mercado. Foi o que aconteceu com a crise de 2008. Em seguida, vem o pessimismo excessivo", alerta a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira, especialista em psicologia econômica e autora dos primeiros livros sobre o tema no Brasil.

4 - Consulte especialistas

Segundo especialistas, o investidor brasileiro costuma ser excessivamente autoconfiante e relutante em recorrer a especialistas. Afinal, pensam esses investidores, ninguém cuida melhor do dinheiro deles que eles mesmos.
Mas não é bem assim. Ter alguns meses de bons resultados não significa que o investidor é um especialista. E bons resultados no passado não necessariamente se repetem no futuro. Há muito mais em jogo. E abrir mão de ajuda profissional ou de literatura especializada pode levar o investidor a cometer graves erros de julgamento.

Dica: Defensor da análise fundamentalista, Aquiles Mosca, do Santander, acredita que, para tomar decisões, o ideal é que se conheça a fundo a economia para saber analisar as perspectivas dos setores e os balanços das empresas nas quais se investe. Assim, é possível saber se o valor das ações é justo e se a empresa tem realmente condições de entregar os resultados prometidos. "Balanços robustos mostram tendência à valorização", explica.

"O investidor pode e deve recorrer mais a publicações e aos próprios gerentes do sistema bancário, que estão cada vez mais qualificados. Não faltam fontes de informação. O investidor brasileiro está caminhando para o risco sem buscar um maior apoio, sendo que esse apoio está disponível", afirma Mosca. Mas para quem não tem tempo de se dedicar tanto a conhecer o mercado, o economista aconselha buscar um fundo de ações. Nesse caso, o trabalho fica por conta do gestor profissional. "O investidor pode escolher o grau de envolvimento que quer ter", conclui.

5 - Questione os motivos para determinado investimento

Para muita gente, cuidar do próprio dinheiro não é tarefa simples, pois requer muita disciplina, paciência e informação. Para alguns, pode até mesmo desencadear grandes tensões. Só deve investir na bolsa, quem sabe controlar suas emoções. "Quem não tolera oscilação alguma nos investimentos não deve investir em ações", diz Márcia Dessen.

Dica: Cuidado com as próprias justificativas para realizar uma operação no mercado. É preciso se questionar: quero comprar ou vender determinado ativo pelos motivos certos? Ou é simplesmente porque eu estou com essa ideia fixa? Muitas vezes, fatores que nada têm a ver com a economia podem influenciar o investidor a fazer determinada operação. Em outras palavras, a pessoa se ilude com um argumento aparentemente sólido. "Se o investidor estiver vendendo, ele deve se colocar no lugar do comprador, e vice-versa, para ver se aquele argumento resiste", explica a psicanalista Vera Rita de Mello Ferreira.

Outra ilusão que o investidor pode produzir para si mesmo é o chamado "efeito posse", uma sensação de que tudo o que pertence a si vale mais do que realmente vale. No entanto, emoções negativas podem produzir o efeito contrário: se a pessoa está triste ou com raiva, por exemplo, corre o risco de vender suas ações em um momento de forte baixa sem se dar conta de que o preço pago por seus ativos é, de fato, injusto. "Quanto mais serena a pessoa estiver, maior a chance de não ficar submetida à força do efeito posse", afirma Vera Rita.

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