São Paulo – Esperado para fechar o ano a 1,80 real, segundo as previsões do mercado, o dólar ultrapassou os dois reais nesta terça-feira, alcançando o maior patamar desde julho de 2009. Os temores em relação às eleições gregas e à deterioração do cenário econômico internacional fizeram a moeda americana disparar nos últimos dias, ao mesmo tempo em que derrubou as bolsas pelo mundo e zerou os ganhos do Ibovespa no ano.

Para o investidor individual, os efeitos da alta do dólar se farão sentir numa maior pressão inflacionária, mas desta vez as empresas exportadoras talvez não sejam tão beneficiadas. “Em teoria, empresas como Vale, Petrobras, companhias de papel e celulose se beneficiariam, mas a menor demanda e a queda do preço das commodities neutralizam esse efeito”, diz Alexandra Almawi, economista da Lerosa Investimentos.

Uma alta da inflação, por sua vez, reduziria o retorno do investidor, o que vem se somar a uma taxa de juros que deve ainda ver queda neste ano e uma Bolsa que passa por uma má fase. O mercado já elevou suas perspectivas de inflação para o ano, prevendo uma alta para o IPCA de 5,22% e para o IGPM de 5,57% ao final de 2012.

Para o economista Sidnei Moura Neme, diretor executivo da corretora NGO, especializada em operações no mercado cambial, a alta recente do dólar só vai afetar mais diretamente o investidor que tem ativos atrelados ao dólar, o que não é o caso da maioria dos investidores pessoa física. Em relação à inflação, Neme admite que a situação é preocupante, e reforça que os investidores precisarão sair da zona de conforto para conseguir mais rentabilidade.

“O mercado está agora descobrindo as letras de crédito imobiliário, que são papéis de renda fixa bem rentáveis e isentos de IR. Os fundos imobiliários também podem ser interessantes”, observa o economista.

Pessimismo para a Bolsa

Para a Bolsa, o cenário parece mesmo nebuloso. “A Bolsa neste momento é um ambiente conturbado. É um investimento de risco e tende a atrair uma quantidade menor de capital. Falta a capacidade para enxergar o que pode ocorrer num prazo mais longo, devido às dúvidas em relação ao cenário internacional”, diz Márcio Cardoso, diretor da Título Corretora.

Um relatório divulgado pelo Santander nesta terça-feira, quando a Bolsa zerou seus ganhos no ano, reconhecia que as ações poderiam estar descontadas, mas recomendava a redução da exposição do investidor à renda variável.

Mesmo em relação às empresas exportadoras de commodities, o cenário não é tão animador. Analistas do Morgan Stanley, por exemplo, divulgaram relatório em que concluem que a história do Brasil está se deteriorando para o setor, agora mais dependente de ações governamentais. A Vale continua sendo uma das ações preferidas dos analistas, mas empresas de siderurgia e de papel e celulose são consideradas como de baixo potencial de valorização.

Mas nem todos são tão pessimistas. Para Alexandra Almawi, da Lerosa, apesar de o Ibovespa estar abaixo dos 60.000 pontos, sua previsão é que o fechamento ocorra em 75.000 pontos este ano. “Isso corresponderia a uma valorização de mais ou menos 14%”, diz. “Mas mesmo com a alta do dólar, continuo acreditando mais nas empresas voltadas para o mercado interno do que nas empresas de commodities”, diz a economista.

As ações de empresas do mercado interno devem ser indiretamente beneficiadas, pois pode ocorrer uma redução da concorrência das importações. “Nós gostamos, por exemplo, da Grendene, que pode absorver parte desse movimento”, diz João Pedro Brugger, analista da Leme Investimentos.

Devem ser prejudicadas particularmente as empresas dependentes de importações de máquinas e equipamentos – notadamente empresas pequenas e médias da indústria pesada – e aquelas que têm grande endividamento em moeda estrangeira, mesmo que sejam empresas exportadoras. “É o caso, por exemplo, da Fibria”, completa Brugger.

Previsões para o dólar

Na opinião de Sidnei Moura Neme, da corretora NGO, o dólar deve fechar o ano entre 2 e 2,20 reais, o que representa a manutenção de sua estimativa no início do ano. “Esse patamar chegou antecipadamente”, acredita Neme. Uma pesquisa feita pela Bloomberg com 27 economistas, porém, mostra que existe uma crença do mercado de que o real avance e o câmbio retorne ao patamar de 1,80 real até o fim do ano.

“A dois reais, não há muito mais espaço para o real desvalorizar. O Brasil vai ficar barato para o investidor externo, que vai ficar estimulado a aplicar no Brasil. Mas não acredito que isso vá ser no curto prazo. A crise atrasa esse movimento. Os investidores brasileiros também começam a ver uma taxa de juros mais baixa e terão que buscar mais risco”, diz Alexandra Almawi.

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