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O capitalismo, com sua criatividade e rapidez características, não tardou em ver no mercado de luxo uma oportunidade de ampliar os ganhos
Desde 1975, a renomada vinícola Château Mouton Rothschild, da região francesa de Bordeaux, convida, a cada safra, um artista famoso para desenhar o rótulo da bebida que leva seu nome. Já aceitaram a tarefa expoentes do mundo das artes como Joan Miró, Pablo Picasso e Andy Warhol.
Em 2008, a vinícola decidiu chamar para participar da série o renomado pintor Xu Lei, da China. Foi uma estratégia bem pensada, pois, além de oito ser o número de sorte do país, os chineses vinham ganhando destaque enquanto consumidores de vinho. Assim que as primeiras garrafas foram colocadas à venda, os preços saltaram de 400 euros para 800 euros a unidade em apenas três meses.
Essa magnífica valorização, graças ao impulso dado pelos novos consumidores emergentes, não é exceção entre produtos fetiche das classes mais abastadas, como bebidas finas, obras de arte, carros de luxo, etc. O capitalismo, com sua criatividade e rapidez características, não tardou em ver aí uma oportunidade de ampliar os ganhos.
Com isso, belos quadros e bebidas deliciosas ficam temporariamente afastadas do deleite do consumidor para serem armazenadas e representadas por um papel (que comprova o investimento). Aquele 'recibo' é o registro de posse de uma quota daqueles bens, que, com o passar do tempo, tende a se valorizar. Nos últimos anos, inclusive, com a demanda fortíssima e uma estrutura produtiva limitada, os preços sobem com vigor – o que faz destas aplicações campeãs de rentabilidade. São os chamados passion investments.
Para fazer parte do grupo dos que aplicam nestes bens é preciso, primeiramente, ter bastante dinheiro. Ao adquirir uma cota de um fundo de vinhos, por exemplo, o investidor leva para casa apenas um comprovante da operação. Nada de degustação. As garrafas que compõem as carteiras são previamente selecionadas por equipes de especialistas em finanças, enófilos e traders. Elas ficam devidamente armazenadas em ambientes seguros – e caros – com climatização especial em Bordeaux, na França, a milhares de quilômetros da maioria dos investidores. A lógica de aplicação em outros artigos finos é semelhante.
O efeito China – O episódio do Château Mouton Rothschild 2008 ilustra como o enriquecimento e a crescente demanda das nações em desenvolvimento, sobretudo da China, têm impulsionado o mercado internacional de ativos de luxo. Em 2010, os leilões de vinhos finos da prestigiada Sotheby’s somaram 88,3 milhões de dólares – seu melhor resultado em 40 anos de operação. Só as vendas no leilão organizado em Hong Kong cresceram 268%.
Desde 2005 até o ano passado, os preços dos vinhos da região de Bordeaux – considerados “investíveis” por oferecerem perspectiva de valorização no longo prazo – tiveram uma alta de 148%, aponta o índice Liv-ex Fine Wine Investable, medido pela Liv-Ex (bolsa de vinhos sediada em Londres). “Percebemos que, para cada ponto porcentual acima de 7% que cresce o PIB chinês, esse índice sobe 10%”, relata Filipe Albert, gestor do Bordeaux Wine Fund Multimercado, o primeiro fundo brasileiro dedicado a vinhos, da gestora Cultinvest.
Não somente os vinhos finos usufruem da onda de prosperidade que aportou no mundo em desenvolvimento. Enquanto o S&P 500 – índice das 500 principais ações negociadas nas bolsas de valores norte-americanas – caiu 1,3% em 2011, na esteira das incertezas que rondam a economia dos Estados Unidos, as vendas nos leilões de arte contemporânea da Sotheby’s e da Christie’s aumentaram 35%. O mercado global de obras de arte, aliás, atingiu recorde de faturamento de 10,7 bilhões de dólares no ano passado, segundo a Artprice, que compila resultados de leilões em todo o planeta. A China representou entre 35% e 40% desse valor e se tornou o maior mercado internacional de arte.
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