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Bolsas | 17/01/2011 06:22

Ações de empresas que doam a políticos sobem mais

Estudos mostram que o mercado vê maior potencial de expansão e riscos menores ao se investir em empresas bem-relacionadas com o governante da vez

Divulgação

Sérgio Lazzarini, do Insper

Sérgio Lazzarini, do Insper: empresas doadoras ganham mais acesso a crédito

Já houve um tempo em que eleições eram sinônimo de nervosismo nas bolsas. Em 2002, o mercado entrou em pânico com a expectativa de que o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva pudesse mudar os rumos da economia brasileira. O dólar chegou a ser cotado a um recorde de 4 reais, a Bovespa afundou e o governo teve de pedir dinheiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI) porque não havia investidores suficientes para aplicar em títulos brasileiros. No ano passado, o que se viu foi bem diferente. Apesar das trocas de acusações de baixo calão entre PT e PSDB, no mercado de capitais as eleições não geraram intranquilidade. Mas para os professores Sérgio Lazzarini, do Insper, e Rodrigo Bandeira de Mello, da FGV-EAESP, se engana quem acha que a política não tem mais nenhuma relação com as cotações das ações. Segundo eles, as empresas que usam as doações de campanha para construir boas relações com políticos eleitos acabam se valorizando mais em bolsa.

Ainda que pouco notada pelo mercado em geral, essa relação é sustentada por diversos estudos. O principal deles, chamado "Political Connections and Preferential Access to Finance", foi elaborado por um grupo de pesquisadores liderados por Stijn Claessens, do FMI, e analisou as doações de campanha feitas aos deputados vencedores nas eleições de 1998 e 2002 e as cotações das ações das empresas doadoras no intervalo de 20 dias antes e 20 dias depois da divulgação dos resultados. O resultado é surpreendente. Nas duas eleições, para cada 100.000 reais doados por uma empresa a um candidato vitorioso, suas cotações subiram 2,8 pontos percentuais acima da média do mercado.

A importância das boas conexões com o governo não é exclusividade brasileira nem de países menos desenvolvidos. O estudo "The Value of Political Connections in the United States", desenvolvido por um grupo de professores liderado por Daron Acemoglu, do MIT, mostra que as empresas mais próximas de Timothy Geithner tiveram uma valorização 15% maior que a média do mercado nos dez dias após ele ser nomeado pelo presidente Barack Obama para comandar a Secretaria do Tesouro dos EUA.

O mercado gosta de empresas conectadas a políticos mesmo quando o mandatário da vez não merece nenhum crédito. O estudo "Betting on Hitler - The Value of Political Connections in Nazi Germany", de Thomas Ferguson e Hans-Joachim Voth, mostra que no primeiro trimestre de 1933, época em que Adolf Hitler se tornou chanceler alemão, as ações das 119 empresas da Bolsa de Berlim bem-relacionadas com o partido nazista tiveram um desempenho entre 5% e 8% melhor do que as demais 632 não-conectadas. O que importa, portanto, são as portas abertas com o governo - seja ele qual for.

Clientelismo?

Se as ações sobem, é um sinal claro que o mercado espera que a empresa seja favorecida pela vitória de determinado candidato – ou ao menos não seja prejudicada. Mas de que forma isso acontece? No livro "Capitalismo de Laços", o professor Sério Lazzarini, do Insper, afirma que as relações entre empresas brasileiras e o governo são marcadamente clientelistas. Qualquer eleição no Brasil é muito cara. O político precisa de doações de campanha para fazer comícios, contratar cabos eleitorais, distribuir brindes e produzir programas eleitorais atrativos. O cientista político David Samuels demonstrou estatisticamente que as chances de eleição de um candidato no Brasil são maiores quando ele detém mais dinheiro que os demais.

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