São Paulo – As ações da OGX (OGXP3) valorizaram 123,80% nesta semana, e apenas nesta quarta-feira chegaram a ver uma alta de mais de 50%. Contudo, os papéis da problemática petroleira de Eike Batista ainda estão distantes da sua máxima histórica de 23,39 reais, e continuam valendo menos de 50 centavos. Desde sua cotação mais alta, a ação desvalorizou 98%. Mas um investidor que tivesse comprado a ação na sua máxima histórica e mantido o papel na carteira até hoje precisaria de uma alta de algo como 4.876,60% apenas para voltar ao zero a zero.

Nos últimos dias, o rumor de que a gestora Vinci Partners assumiria o controle da OGX – o que foi negado pela gestora – foi uma das notícias que contribuiu para a alta de mais de 100% dos papéis. Nesta quinta a ação cai novamente, mas duas novas notícias já foram adicionadas à sua novela: uma de que a companhia poderia vender o campo de Tubarão Azul aos chineses da Sinopec, e outra de que o braço de crédito da administradora Blackstone poderia emprestar dinheiro à petroleira.

Com o preço da ação na casa dos centavos e uma penca de problemas para resolver – como uma dívida de mais de 10,8 bilhões de reais, quase o dobro do valor dos seus ativos – a OGX acabou se tornando uma ação bastante especulativa. Qualquer nova notícia sobre a companhia, ainda que seja um rumor, faz o papel oscilar violentamente.

Uma valorização de 123,80% em alguns dias, que poderia ser mais que formidável no caso de uma empresa saudável, não faz nem cócegas no investidor da OGX que já perdeu um bom dinheiro com a ação. Primeiro porque, para uma ação que vale centavos, uma alta de 123,80% não é nada, pois qualquer centavo a mais no preço gera uma variação percentual enorme. Papéis que valem centavos, portanto, se tornam muito voláteis e arriscados.

Em segundo lugar, porque uma total recuperação do preço do ativo necessitaria de uma valorização de quase 5.000%, muito difícil de ser alcançada. “Matematicamente essa recuperação até seria possível. Mas em termos realistas, pode ser impossível no prazo de vida de um investidor pessoa física”, observa Paulo Bittencourt, diretor técnico da Apogeo Investimentos. Tendo em vista que a OGX é uma empresa em dificuldades, seria necessário mais que uma reviravolta para haver uma valorização tão estrondosa.

Mas como uma ação que caiu 98% pode precisar de milhares de pontos percentuais para se recuperar? “O motivo matemático disso é que o cálculo percentual está sempre relacionado a uma base de comparação. Se um ativo vale mil e cai 20%, para 800, sua base agora é menor. E toda a análise dos investidores será feita com base nesse preço menor. Para voltar a valer mil, esse ativo precisaria de uma recuperação de 25%”, exemplifica Bittencourt.

Ou seja, quanto mais o preço de um ativo cai, maior a “inércia” que precisa ser vencida para que ele volte ao preço inicial. Da mesma forma, é muito mais difícil crescer sobre uma base maior, o que torna mais complicada a valorização de ações que já se valorizaram muito.

Matematicamente a situação se explica, mas investimentos não são puramente matemáticos. Se uma ação cai de 23,39 reais para 47 centavos, como é o caso da OGX, a diferença entre os dois pontos é de 22,92 reais. E 22,92 reais são 22,92 reais, não importa se é um ganho ou uma perda. O que impede então a recuperação de 5.000%?

“Se um ativo caiu de mil para 800, a diferença é de 200 reais. Acontece que quem compra o ativo a 800 não precisa esperar que ele volte a valer mil para realizar um lucro. Ao contrário do investidor que comprou a mil, teve uma perda, e quer que o ativo se recupere. Quem compra a 800 pode se contentar com um lucro de 100, por exemplo, se desfazendo do ativo antes que ele possa voltar ao ponto inicial”, exemplifica o diretor da Apogeo.

Assim, um especulador que comprou OGX a 21 centavos e a vendeu a 47 centavos embolsou um formidável lucro de 123,80% em três dias. Para quem compra um ativo com um preço mais baixo, valorizações mais modestas que aquela necessária para a sua total recuperação já são suficientes.

Desista das perdedoras

É por isso que Paulo Bittencourt aconselha os investidores a sempre limitarem seus prejuízos, definindo o seu chamado “stop loss” – isto é, seu limite máximo de perda que, quando atingido, deve motivar a venda da ação. Para ele, não adianta ficar segurando uma ação que está em brusca trajetória para baixo, uma vez que as chances de recuperação ficam cada vez mais distantes. “Depois de haver um rompimento para baixo, associado a um grave problema da companhia, o investidor ganha mais ao limitar o prejuízo do que ao acreditar que algo vai mudar. A mudança teria que ser muito radical”, explica.

Por essa mesma razão, o diretor da Apogeo é contra a prática de comprar mais ações, quando elas se desvalorizam, para obter preços de compra mais baratos e, com isso, reduzir o preço médio daquela ação. Na opinião dele, isso cria um efeito psicológico de redução da perda, mas se a ação está indo ladeira abaixo, a redução de preço médio será feita indefinidamente.

“O investidor que faz isso se ilude, pois não está percebendo que está afundando junto com a empresa. Ele ganha mais ao comprar mais ações quando elas se valorizam, elevando seu preço médio, do que fazendo o contrário. Por mais que no primeiro caso o investidor pague mais caro, ele está acompanhando um negócio que está dando certo. Ao reduzir o preço médio de compra da ação, o investidor está na verdade acompanhando um negócio que está indo mal”, explica.

No caso de grandes prejuízos com uma ação, até mesmo o benefício fiscal oferecido aos investidores pessoa física pode ser inócuo. Pela Lei brasileira, o investidor pessoa física pode abater suas perdas com ações do lucro obtido com a venda de outras ações, a fim de pagar um imposto de renda menor sobre o ganho de capital. Porém, alguém que teve um prejuízo de centenas de milhares de reais com uma única ação, por exemplo, pode demorar muitos anos para conseguir compensar tudo isso com lucros.

Vídeo: Como saber se existem outras ações como a OGX na Bolsa?

Tópicos: Guia de Ações, Investidor agressivo, Renda variável, Investimentos pessoais, Empresas, OGpar -ex-OGX, Petróleo, gás e combustíveis, Indústria do petróleo, OGXP3