São Paulo – A sinalização clara do Banco Central de que a taxa básica de juros deve cair para cerca de 9% neste ano embolou os rendimentos oferecidos pela caderneta de poupança, os CDB, os fundos DI e as LFT vendidas pelo Tesouro Direto. Com o cenário econômico atual, todas essas aplicações vão garantir uma rentabilidade líquida de 6,5% a 7,5% ao ano nos próximos 12 meses – já descontados os custos de impostos ou taxas de custódia e administração.

A única forma de bater esses retornos sem incorrer em mais riscos são as LCI (Letra de Crédito Imobiliário) e as LCA (Letra de Crédito do Agronegócio). Algumas corretoras começaram a distribuir LCI aos clientes com rendimentos próximos a 100% do CDI (hoje 9,45%, mas em tendência de queda para cerca de 9% nos próximos meses). A diferença mais importante é que os ganhos com LCI são isentos de Imposto de Renda. Então nem é preciso usar uma calculadora para ter certeza que essa é a única forma de garantir um retorno líquido pouco superior a 9% ao ano correndo um risco muito baixo.

A única diferença é que as LCI exigem alguma astúcia do investidor. Esses papéis são emitidos pelos bancos com lastro em financiamentos imobiliários concedidos. O risco de crédito para o investidor é de o banco quebrar e não honrar o pagamento desses papéis. No Brasil, muitos bancos pequenos e médios enfrentaram problemas de liquidez e fecharam as portas ou foram absorvidos por outros na última década. Então se trata de um risco que não deve ser desprezado.

A astúcia do investidor entra na montagem da carteira de LCI. Quando um banco quebra e o investidor possui até 70.000 em depósitos ou investimentos em papéis da instituição, esse dinheiro é devolvido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Respeitando esse limite, portanto, o investidor corre o risco de o FGC quebrar (muito baixo), e não de o banco ir à lona.

A boa notícia é que uma única corretora já pode distribuir LCI de diversos bancos pequenos e médios – o que facilita o trabalho de montar uma carteira diversificada. Na corretora SLW, por exemplo, o investidor pode investir 300.000 reais em LCI de cinco diferentes instituições financeiras, com as taxas abaixo:

  6 meses (% do CDI) 1 ano (% do CDI)
Banco Pine 94 96
Banco BVA 100 103
Brazilian Securities 93 93
Banco Máxima 100 102
Banco ABC 93 95

Em relação à tabela acima, é importante notar três coisas. A primeira é que as rentabilidades oferecidas estão sujeitas a pequenas alterações diariamente – de acordo com as necessidades de captação de cada instituição financeira.

Outro detalhe importante é que o FGC garante depósitos de até 70.000 reais nos bancos, mas o investidor deve aplicar menos do que isso em cada papel. Como o dinheiro vai render, se a pessoa colocar 70.000 reais hoje, por exemplo, poderá ter 75.000 reais daqui a algum tempo e perder esses 5.000 adicionais em caso de quebra do banco.

A última característica importante das LCI é que na maioria das vezes os resgates só poderão ser realizados no mínimo seis meses após a aplicação. Portanto, o investidor deve aplicar em LCI apenas o dinheiro que não será usado durante esse período. Isso não acontece com as demais aplicações de baixo risco existentes no país. A maioria dos fundos DI e CDB garantem liquidez diária.

No Tesouro Direto, o investidor terá de esperar no máximo sete dias para receber de volta os recursos investidos, já que o Tesouro Nacional só recompra os títulos às quartas-feiras e deposita o dinheiro no dia seguinte. Por último, a poupança oferece liquidez diária, mas o dinheiro investido é corrigido só uma vez ao mês – esse seria, portanto, o melhor dia para o saque.

A corretora SLW é a que oferece hoje o maior número de tipos de diferentes de LCI, mas não é a única. O Banif distribui papéis de três instituições financeiras: Máxima, BVA e Ourinvest. Quem vai investir 100.000 reais em LCI por meio da corretora deve distribuir o dinheiro em LCI de ao menos duas instituições. O papel mais interessante é o do banco Máxima, que paga 102% do CDI para aplicações de seis meses e 104% do CDI para 12 meses.

As taxas são muito competitivas. Para se ter uma ideia, o investidor que opte por aplicar em um CDB de seis meses de um banco teria que encontrar uma taxa de 128% do CDI para conseguir uma rentabilidade equivalente à da LCI do banco Máxima – isso devido à incidência de IR. No mercado brasileiro, quem encontrar um CDB tão rentável deve até ficar desconfiado com a possibilidade de insolvência da instituição.

A corretora Gradual também oferece taxas interessantes. Por enquanto, apenas são vendidos papéis do banco BVA. As taxas oferecidas na última sexta-feira eram de 103% do CDI para aplicações de 188 dias e de 105% do CDI para 364 dias.

Na corretora Souza Barros, é possível comprar LCI dos bancos Ourinvest, ABC Brasil e BVA. Os papéis pagam entre 90% e 92% do CDI para aplicações de ao menos seis meses. À medida que o prazo da aplicação e o volume de recursos crescem, é possível obter taxas maiores.

Pequeno investidor

Muitas corretoras só oferecem LCI para clientes interessados em aplicar ao menos 50.000 reais. Para quem tem menos dinheiro, uma solução interessante é o Sofisa Direto, que não tem nenhuma exigência de aplicação inicial mínima (veja aqui mais detalhes). É necessário abrir uma conta no Sofisa, mas tudo pode ser feito pela internet. As taxas oferecidas estão resumidas na tabela abaixo:

  3 meses (% do CDI) 6 meses (% do CDI) 9 meses (% do CDI) 12 meses (% do CDI)
Banco Sofisa 91 93 93 94

Outras instituições financeiras que oferecem LCI em pequenas quantias são a Brazilian Mortgages (mínimo de 10.000 reais), o Santander (mínimo de 30.000 reais) e a Caixa Econômica Federal (50.000 reais). Em nenhum desses casos, entretanto, a rentabilidade será tão boa quanto nas corretoras.

É importante notar que todos os investimentos comparados com as LCI são de baixo risco. O investidor brasileiro possui diversas opções de aplicação que podem render mais do que isso. Entre elas, estão os fundos de renda fixa, os fundos multimercados, os fundos imobiliários, as NTN-B e as LTN vendidas no Tesouro Direto e os produtos que incluem ações.

Todos esses investimentos, no entanto, possuem uma volatilidade bem maior. Isso significa que, dependendo de quando o investidor entrar e sair da aplicação, pode ter um retorno inferior ao do CDI e, em alguns casos, até mesmo negativo.

A LCI é um título garantido por hipotecas ou financiamentos imobiliários. Na prática, o banco concede esse tipo de crédito aos clientes e depois o repassa a investidores – ganhando um spread. O título foi criado para aumentar as fontes de financiamento dos bancos para a concessão de crédito imobiliário. Hoje a principal fonte de recursos é a caderneta de poupança, já que 65% desses depósitos precisam ser direcionados para empréstimos relacionados a imóveis ou então são recolhidos junto ao Banco Central sem remuneração.

Sempre que uma instituição financeira concede mais crédito que o obrigatório ao setor imobiliário, pode usar esses empréstimos como lastro para a emissão de LCI. Como o banco consegue captar recursos a uma taxa de 90% a 100% do CDI, o negócio acaba sendo bem interessante tanto para a instituição financeira (que paga juros menores que os de mercado) quanto para o investidor (que consegue uma rentabilidade líquida superior devido à isenção de IR). Apenas registrados na Cetip há mais de 55,5 bilhões de reais em LCI. O principal emissor é a Caixa Econômica Federal, banco líder em crédito imobiliário.

Assim como outros papéis de renda fixa, a LCI pode pagar um percentual do CDI, uma taxa prefixada ou a inflação mais juros prefixados. Para o investidor, o menor risco está em papéis indexados ao CDI – ainda que esses títulos se tornem menos rentáveis sempre que o Banco Central iniciar um ciclo de queda dos juros.

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