São Paulo - "O que nos causa problemas não é o que não sabemos. É o que temos certeza que sabemos e que, no final, não é verdade". A citação do escritor americano Mark Twain, que aparece logo no início do filme "A grande aposta", em exibição nos cinemas desde o dia 14, resume uma importante lição do filme: nos investimentos, a certeza desvinculada de fatos concretos é mais prejudicial do que a dúvida.

Baseado no livro-reportagem do jornalista americano especializado em finanças Michael Lewis, o filme do diretor Adam McKay recebeu cinco indicações ao Oscar deste ano. "A grande aposta" conta a história de quatro investidores que ganharam muito dinheiro ao antecipar a bolha imobiliária e, consequentemente, o colapso do mercado financeiro americano, que culminou na crise de 2008 (relembre a crise financeira de 2008-09).

Os personagens retratados no filme conseguiram descobrir, de maneiras diferentes, como títulos ligados a hipotecas, e oferecidos por grandes bancos, não eram tão seguros como se alardeava.

Eles previram que esses investimentos poderiam ter um desempenho extremamente negativo diante de um eventual aumento da inadimplência no pagamento desses créditos, concedidos de forma irresponsável a americanos que claramente não tinham capacidade financeira de arcar com as prestações.

Nesse cenário, os quatro investidores apostaram que a rentabilidade desses títulos, considerados muito seguros, iria despencar quando a inadimplência aumentasse, já que as taxas desses créditos seriam fortemente reajustadas para cima ao longo do tempo.

À primeira vista, o roteiro pode parecer distante do pequeno investidor, já que os personagens retratados são gestores de fundos, consultores de investimentos, donos de corretora e grandes investidores. Mas "A grande aposta" passa mensagens interessantes, que valem para qualquer tipo de investidor.

O filme mostra, por exemplo, as pressões enfrentadas por quem nada contra a maré, além dos artifícios utilizados por grandes instituições financeiras para seduzir clientes.

Veja a seguir essas e outras lições passadas pelo filme para quem quer se aprimorar no mundo dos investimentos:

1) Para descobrir, basta olhar (ou questionar)

O gestor de fundos Michael Burry, interpretado no filme por Christian Bale, se baseia em conhecimentos históricos para saber que, ao contrário do que se fala de forma recorrente, nem sempre o mercado imobiliário é um porto seguro. Pelo contrário: os preços dos imóveis caíram durante a Grande Depressão da década de 30.

Com essa pulga atrás da orelha, ele começa uma extensa pesquisa para verificar a situação das hipotecas incluídas nos títulos vendidos pelos bancos. Ele acaba descobrindo que elas não são tão seguras como foram classificadas, e estão, na verdade, misturadas a créditos de alto risco.

Dificilmente o pequeno investidor terá acesso a informações tão estratégicas, que permitam antecipar uma bolha, mas nunca é demais questionar a instituição financeira sobre os reais riscos de uma aplicação financeira e confrontar as informações passadas pelos bancos com os dados divulgados em livros, na internet e com profissionais do mercado.

2) Não fique intimidado com termos complicados

Está difícil entender como funciona um investimento oferecido pelo banco? Não hesite em pedir explicações até que o conceito fique bem claro. Para isso, vale até mesmo buscar relações entre o funcionamento do investimento e situações cotidianas.

Esse é um dos recursos utilizado pelo filme para facilitar o entendimento do espectador sobre o que são créditos de alto risco, por exemplo. Em um determinado momento do filme, um dos personagens dá a dica: o mercado financeiro parece propositalmente utilizar termos sofisticados para intimidar o investidor e evitar possíveis questionamentos. Não caia nessa e peça sempre esclarecimentos.

3) Não confie em avaliações 

Na crise imobiliária dos Estados Unidos foi constatado que o esquema dos títulos ligados à hipoteca era fraudulento e chegou a envolver até agências de classificação de risco, as chamadas agências de rating.

Essas agências classificaram os títulos lastreados em hipotecas como aplicações de baixo risco quando eles estavam misturados a créditos podres. A razão? Conflito de interesses, já que os clientes das agências de classificação de riscos são os próprios bancos.

Também foram verificadas falhas na regulação do mercado financeiro, que permitiram aos bancos fazer essas manobras. Ou seja, nunca é demais se proteger contra possíveis brechas na legislação questionando e comparando dados. O segredo é não seguir a manada e evitar aplicar seu dinheiro em um determinado investimento apenas porque um familiar ou o seu vizinho o indicou. Busque pensar por si mesmo. 

4) Analise bem com quem você deixará o seu dinheiro

Diferentemente do que se pensa, "A grande aposta" mostra que não foram pequenas corretoras, sem reputação no mercado, que fizeram parte do esquema de títulos ligados a hipotecas, mas, sim, grandes bancos de investimento. Ou seja, não importa o porte da instituição financeira: o investidor deve sempre se certificar se o que está sendo oferecido é, de fato, o mais adequado para o seu perfil.

É natural que consultores de investimento e gerentes de bancos ganhem uma comissão ao recomendar uma aplicação. Mas é necessário checar se ela é, de fato, a mais vantajosa, ou se há conflitos de interesse que podem estar interferindo nessa escolha. 

5) Não existe investimento 100% seguro ou que se valoriza o tempo todo

Todos os personagens do filme foram alvos de chacota (e até processos) simplesmente por estarem apostando contra o mercado imobiliário, considerado altamente seguro.

Mas, de acordo com uma máxima das finanças, um investimento não pode ser avaliado apenas por seu histórico passado, ainda que essa performance corresponda a décadas consecutivas de valorização.

É o que explicam no filme o economista Richard Taler, especializado em finanças comportamentais, e a cantora Selena Gomez. Na cena, Selena joga blackjack em um casino e mostra como os participantes do jogo de cartas passam a apostar nela apenas por conta de seu desempenho inicial, desconsiderando que suas chances de manter o bom desempenho diminuíam ao longo do jogo.

A crise das hipotecas americanas foi uma situação específica, que levou à criação de uma bolha. Pensando em uma situação mais cotidiana, toda aplicação financeira está suscetível a mudanças inesperadas da economia, que podem ter grande impacto em seu desempenho futuro. 

6) Especular nem sempre dá certo

Ainda que tenham se baseado em fatos, todos os personagens retratados no filme podem ser considerados especuladores, que são aqueles participantes do mercado que investem visando o lucro e não apenas a manutenção do patrimônio.

Ainda que no filme os especuladores tenham sido certeiros em suas apostas, analisar todas as variáveis que podem impactar um determinado investimento é extremamente complexo e inúmeros especuladores já perderam rios de dinheiro com isso. O problema é que essas histórias não necessariamente viram filmes.

Por isso, não faça apostas sem aconselhamento, muito menos com dinheiro que possa precisar no curto prazo. Caso contrário, você pode ter de arcar com grandes prejuízos se precisar resgatar seu dinheiro antes do tempo, por exemplo (veja 10 livros que te ajudam a enriquecer em 2016). 

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