Converter carro para GNV reduz gastos; veja prós e contras

Pesquisa da Comgás mostra que a economia com o GNV pode compensar o custo de instalação do equipamento de gás em poucos meses

São Paulo – Para os motoristas mais antenados, não é novidade que o Gás Natural Veicular (GNV) é um combustível mais barato que a gasolina e o etanol, mas uma pesquisa realizada pela Comgás, divulgada com exclusividade para EXAME.com, mostrou que a economia no abastecimento pode compensar o custo de conversão do carro para o gás em apenas quatro meses. 

Esse é o tempo de retorno médio do investimento na instalação do equipamento de gás para motoristas que percorrem 8 mil quilômetros por mês, como taxistas.

Já para quem percorre mil quilômetros por mês, como é o caso de pessoas que usam o carro para uso particular, o prazo de retorno é de 30 meses, ou dois anos e meio.

Para chegar ao resultado da pesquisa, a Comgás utilizou os dados de um rali promovido pela Associação de Rádio Taxis de São Paulo (Artasp). No teste, três carros, modelo Renault Duster, percorreram um trajeto igual, de 102 quilômetros, que incluiu situações reais de trânsito na cidade e na estrada, apenas modificando o tipo de combustível: etanol, gasolina e GNV.

O rali mostrou que ao abastecer o carro com o GNV, a economia é de 61,1% em relação à gasolina, e de 59% em relação ao etanol.

Enquanto o carro movido a GNV apresentou uma média de 22 centavos por quilômetro rodado, o abastecido com etanol registrou média de 53 centavos e o com gasolina, de 56 centavos por quilômetro.

A partir desses resultados, a Comgás chegou ao prazo médio para que a economia com o GNV compense o investimento no kit gás – equipamento que permite que o carro seja abastecido com o GNV – para diferentes quilometragens.

Foi considerado um custo de 4 mil reais do kit gás (custo médio do equipamento de quinta geração, segundo a Comgás) e os seguintes preços médios de combustíveis: 2,89 reais por litro de gasolina, 1,89 real por litro de etanol e 1,72 real por metro cúbico de GNV – preços médios nacionais, segundo dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP).

Veja no gráfico a seguir o resultado do levantamento:

Gráfico mostra o tempo de retorno do investimento no equipamento de gás para diferentes quilometragens (Comgás)




Mais economia para quem roda mais

Conforme mostra o resultado do estudo, o GNV compensa muito mais para quem costuma percorrer quilometragens altas com o carro. 

Apesar de não existir um estudo abrangente sobre a quilometragem média percorrida pelos brasileiros, de acordo com Milad Kalume Neto, gerente de desenvolvimento de novos negócios da consultoria automotiva Jato Dynamics, em condições de uso normal, os motoristas percorrem cerca de 20 mil quilômetros por ano, ou 1,8 mil por mês.

De acordo com a pesquisa, quem percorre uma distância um pouco maior que essa, de 2 mil quilômetros por mês, obtém o retorno sobre o investimento no kit gás em 15 meses. Já quem percorre mil quilômetros tem o gasto compensado em 30 meses, ou em dois anos e meio.

Ricardo Vallejo, consultor de Marketing Industrial e GNV da Comgás, afirma que o gás natural é uma fonte de combustível interessante, sobretudo para taxistas e frotistas, que utilizam o carro com frequência ao longo do dia.

“Muitos taxistas comentavam que não faziam a conversão para o GNV por causa do custo do kit gás, mas se eles percorrerem 5 mil quilômetros por mês e parcelarem o equipamento, a economia com o combustível paga o kit em cinco meses, sem que eles precisem gastar nenhum centavo a mais do que já gastavam antes”, diz Vallejo.

Ele também afirma que o combustível pode ser interessante para quem mora longe do local de trabalho ou para quem mora em uma cidade e trabalha em outra. 

Mesmo quem roda apenas mil quilômetros por mês e tem o retorno apenas em dois anos e meio pode ter vantagem, uma vez que o equipamento pode ser transferido de um carro para outro, segundo Vallejo.

Outra vantagem ainda é que o GNV é um combustível menos poluente. “O GNV ajuda o meio ambiente e contribui para reduzir o trânsito porque o gás é transportado por gasoduto, então reduz a demanda por combustíveis como a gasolina, que é transportada por caminhões”, afirma Ricardo Vallejo.

Segundo ele, o gás natural tem uma emissão de gases poluentes 15% menor que o etanol e 20% menor do que a gasolina.

Isso ocorre porque a queima do GNV é muito mais completa do que a da gasolina e do álcool, uma vez que sua combustão acontece com excesso de ar, liberando mais água do que gás carbônico.

Além disso, o gás natural também é mais seguro. Por ser um combustível mais leve que o ar e possuir uma faixa de inflamabilidade menor, eventuais vazamentos dissipam-se rapidamente, diminuindo o risco de explosões e incêndios.

O que considerar antes de converter seu carro para o gás 

Apesar da economia, a instalação do kit gás pode ter alguns efeitos colaterais no carro. Leandro Vanni, engenheiro de serviços da DPaschoal, diz que uma das principais desvantagens é a perda de potência.

“É comum que o veículo perca potência. A capacidade de arranque é perdida. Antigamente também se falava muito que o gás gerava problemas de motor, mas os equipamentos de quinta geração usam combustíveis líquidos, como a gasolina, para dar a partida e depois automaticamente passam para o gás, o que gera menos desgaste no motor”, afirma Vanni.

De acordo com Ricardo Vallejo, os carros perdem em média 4% da potência com o equipamento de gás. “Ele adiciona cerca de 60 quilos ao carro, o que corresponde ao peso de uma pessoa. É um peso que não interfere muito na carga do veículo”, diz.

O carro também perde espaço no porta-malas. No caso de modelos compactos, como o Ford Ka ou o Volkswagen Gol, o kit gás costuma ocupar um terço do porta-malas, já em um carro SUV, como o Renault Duster, ou Hyundai Tucson, o equipamento bloqueia um quinto do espaço.

Os carros movidos a gás também precisam passar por uma vistoria anual de segurança e de emissões, que custa 120 reais. A inspeção ocorre exatamente como ocorria a extinta inspeção veicular de São Paulo e como a inspeção dos carros no Rio de Janeiro.

Milad Kalume Neto, da Jato Dynamics, também lembra que nem todos os postos oferecem o combustível GNV. “Há uma restrição na quantidade de postos, então o proprietário pode ter dificuldades para abastecer o carro com GNV em cidades menores”, diz.

De qualquer forma, mesmo instalando o kit gás, o carro ainda pode ser abastecido com gasolina e etanol na ausência de postos com GNV.

Vallejo também lembra que em algumas regiões do país o GNV pode compensar mais do que em outras. “Tudo depende do preço do combustível concorrente. No Nordeste, por exemplo, o gás é mais caro. Já no Rio de Janeiro, um caso típico de sucesso do GNV, o gás é mais barato e o governo ainda dá desconto de 75% no IPVA para carros movidos a gás”, diz.

No site da ANP é possível consultar os valores médios de cada tipo de combustível por região. Antes de investir no equipamento a gás, portanto, é recomendável pesquisar a economia que o gás geraria por mês na sua região para verificar com mais precisão em quanto tempo o custo de 4 mil reais do equipamento seria compensado.

Outra desvantagem ainda é que os veículos zero-quilômetro perdem a garantia de fábrica depois que o equipamento de gás é instalado. “Essa questão de garantia, no entanto, é discutível porque apenas com a troca de óleo o proprietário já pode perder a garantia”, afirma o consultor da Comgás.

Uma alternativa para contornar o problema seria comprar um carro tetrafuel, que já vem de fábrica com as opções de abastecimento a gasolina, etanol ou gás. No entanto, o único carro tetrafuel do Brasil, o Fiat Siena Tetrafuel, deixou de ser fabricado e só pode ser encontrado no mercado de modelos usados

Para o motorista que quiser utilizar o GNV, portanto, a principal recomendação é buscar oficinas que façam a instalação do kit gás. A conversão deve ser realizada apenas em empresas homologadas pelo Inmetro. No site da entidade é possível consultar a lista de instaladores registrados.

Vale citar também que, assim como a gasolina e o etanol, as vantagens e desvantagens do GNV podem variar de acordo com fatores políticos e econômicos. 

Um estado pode incentivar o uso do GNV por meio da redução de IPVA, por exemplo, mas por outro lado o governo federal pode ampliar a vantagem da gasolina ao interromper os reajustes do combustível na Petrobras, como fez recentemente para conter o avanço da inflação. 

Portanto, é sempre importante se atentar a fatores macroeconômicos que possam afetar as condições de mercado de cada combustível.