Conta de celular pode dizer se você merece empréstimo

Empresas podem usar Facebook, conta de celular e até mesmo avaliar personalidade do consumidor para liberar microcrédito

A “inclusão financeira” global, ou o acesso quase universal a serviços financeiros é citada pelas Nações Unidas e pelo Banco Mundial como uma meta fundamental para reduzir a pobreza global no século XXI.

Entretanto, mesmo com os avanços em microfinanciamento e em outras áreas, mais de 2 bilhões de pessoas no mundo todo ainda operam fora do sistema financeiro. Assim, como é possível alcançar a inclusão financeira e o que é necessário para chegarmos lá?

“O objetivo é melhorar a vida das pessoas”, diz Paul Christensen, professor clínico de finanças da Kellogg School. “A simples concessão de uma conta bancária para todo mundo não necessariamente atinge esse objetivo”.

As plataformas digitais sofisticadas, tais como pagamentos por celular ou mercado de empréstimos, também não oferecem uma panaceia para as populações negligenciadas.

Ao contrário, diz ele, a inclusão financeira deveria focar em um objetivo mais fundamental: proporcionar às pessoas acesso a um espectro completo de serviços financeiros de alta qualidade a preços acessíveis, incluindo o crédito.

Uma das inovações mais interessantes nesta área é o surgimento de sistemas alternativos de classificação de crédito.

“Se estabelecermos um sistema aprimorado para rastrear a capacidade de as pessoas pagarem suas dívidas já assumidas, poderemos oferecer serviços financeiros de forma mais eficaz”, diz Christensen.

“Portanto, há um verdadeiro potencial no que essas empresas de classificação alternativa de crédito estão fazendo”.

Os “invisíveis para crédito” e os “sem banco”

O microfinanciamento pode não ter resolvido a pobreza global, mas mudou a forma como as instituições financeiras veem o mundo em desenvolvimento.

“As empresas de microfinanciamento provaram que pessoas pobres, onde quer que estejam, podem ter capacidade de crédito”, diz Christensen. “Isso foi um passo importante.”

No entanto, o que o boom do microfinanciamento ainda não desenvolveu foi um mecanismo eficaz para a classificação de crédito.

O “microcrédito” tradicional se baseia na garantia solidária, o que significa que, ao invés de preencher pedidos de empréstimos individuais, os beneficiários de empréstimos devem participar de um grupo de colegas ou vizinhos que concordam em respaldar o empréstimo em caso de inadimplência. “Nenhum credor quer dar crédito a uma pessoa que mal conhecem”, diz Christensen. 

“A garantia solidária foi uma maneira de resolver este problema, mas nem sempre era o suficiente. Quando costumava viajar pelo mundo para conversar com empresas de microfinanciamento, via bilhões de dólares de doadores indo para o setor. Então pensei: não haveria a necessidade de todas estas instituições especializadas em microfinanciamento se houvesse agências de avaliação de crédito eficazes”.

Ainda que muitos países em desenvolvimento tenham adotado as agências de avaliação de crédito, geralmente não são tão robustas como tais órgãos nos Estados Unidos, cujas classificações se baseiam em análises dos dados de pagamentos mais recentes de um consumidor.

Elas também não dispõe de muitos dados tradicionais para analisar. Na verdade, menos de uma em cada dez pessoas em países de baixa e média renda estão cadastradas em registros públicos de crédito.

A exclusão é um problema também nos EUA. Segundo o Escritório de Proteção Financeira do Consumidor dos EUA, 45 milhões de consumidores norte-americanos são “invisíveis ao crédito”, o que significa não terem nenhuma classificação de crédito, ou têm registros de crédito considerados “inclassificáveis” por um modelo de avaliação de crédito comercialmente disponível.

Os excluídos são um grupo diverso: pessoas que nunca foram correntistas em bancos, imigrantes recentes com pouca atividade em conta no país, ou jovens que pagam aluguel e serviços públicos, mas não possuem cartão de crédito.

“É um sistema muito conservador”, diz Christensen, “e, em certo sentido, é algo bom porque queremos que os nossos bancos sejam seguros e saudáveis. No entanto, isso deixa muitas pessoas de fora”, diz ele.

Daí a propagação dos empréstimos consignados nas empresas americanas de crédito consignado, que devem conceder US$40 bilhões em empréstimos em 2016, segundo relatório da JMP Securities.

Em busca de alternativas

E se houvesse outra maneira de avaliar a capacidade de crédito que não colocasse em risco o sistema financeiro como um todo?

Nos EUA, empresas recém-criadas, como a FactorTrust, Earnest, e Affirm, utilizam software avançado para transformar dados de crédito “não tradicionais”, como histórico de pagamento de aluguel ou nível de instrução, em perfis de crédito alternativos. Em seguida, vendem essa informação a um banco ou algum credor.

Mesmo as empresas de classificação de crédito bem estabelecidas vêm adotando a medida. A FICO, a empresa cujas classificações têm sido o padrão de referência para crédito ao consumidor nos Estados Unidos, revelou recentemente um novo método de classificação que leva em conta o pagamento de contas de serviços públicos e de telecomunicações, além das medidas tradicionais, como cartão de crédito, empréstimo estudantil e pagamentos de hipoteca.

Porém, o maior mercado inexplorado é, sem dúvida, os países em desenvolvimento, onde as empresas estão desenvolvendo formas não convencionais inéditas de traduzir o comportamento do consumidor em perfis de crédito improvisados.

Uma dessas medidas de capacidade de crédito são os dados de telefonia móvel. A First Access, por exemplo, classifica os consumidores em mercados emergentes com base na frequência e tempo de suas chamadas telefônicas, bem como o modo como gerenciam sua conta de celular.

Retornar frequentemente as ligações é indicativo de uma rede de relacionamento forte, argumenta a empresa, o que sugere confiabilidade.

Manter a conta sempre em dia é outro sinal promissor. As métricas de rastreamento, como tempo médio entre chamadas, continuidade do serviço da conta e frequência de consulta de saldo pode criar um perfil valioso para potenciais credores.

As redes sociais fornecem outra fonte de dados que pode ser usada para estabelecer o crédito. A Lenddo, que opera na América Latina e Filipinas, utiliza pontos de dados de redes sociais, principalmente do Facebook, para criar perfis de risco dos consumidores e identificar os mutuários mais responsáveis ​​dentro da chamada “classe emergente”—aqueles que estão acima da linha de pobreza, mas que ainda têm vidas financeiras precárias e não conseguem obter empréstimos dentro do sistema de crédito tradicional.

Algumas empresas estão dispostas a ir ainda mais longe para avaliar o risco do consumidor e encontrar consumidores com capacidade de crédito em mercados emergentes.

A VisualDNA, empresa com sede em Londres, e a Entrepreneurial Finance Labs, empresa norte-americana, criada na Universidade de Harvard, agora usam testes psicométricos para ajudar a trazer serviços bancários aos “invisíveis ao crédito” e aos “sem banco”.

Este teste envolve questionários on-line que avaliam a personalidade financeira do consumidor e identificam padrões correlacionados ao risco do mutuário.

“Para as empresas, o objetivo da classificação de crédito alternativa é a redução dos custos de transação”, diz Christensen.

“Trata-se de descobrir como criar empréstimos rentáveis ​​que também sejam acessíveis para a maioria das pessoas, e não apenas aos empresários”.

É também uma forma de abordar o problema da assimetria da informação, que ele chama de “uma das causas definidoras do fracasso no mercado” e uma das maiores ameaças ao microfinanciamento tradicional.

Inovação responsável

Esta riqueza de informações ajuda a colocar mais clientes na rede, enquanto reduz o custo para as empresas, porém, também levanta questões éticas.

Como os consumidores podem se proteger dos vieses dos algoritmos dessas empresas? Quanta informação pessoal os mutuários deverão fornecer para conseguir um empréstimo?

Para Christensen, essas preocupações devem ser o foco da regulamentação. “As pessoas devem ter a habilidade de optar”, diz ele. “O ponto é dar às pessoas o acesso ao crédito. Ninguém deveria acabar pior do que ficaria com uma classificação FICO”.

Feito de forma responsável, argumenta ele, o impacto de um sistema de crédito alternativo forte poderia ser drástico, com um dos benefícios sendo taxas de juros mais baixas para pessoas de baixa renda.

“A realidade é que a maioria das pessoas não têm alternativa, exceto o agiota local ou a família”, diz ele.

“Fará uma grande diferença se a classificação alternativa de crédito puder ajudar a reduzir custos e diminuir as taxas de juros de 30% para 10%,”.

Além de taxas menores, a maioria dos clientes prefere receber um empréstimo individual em vez de um com garantia solidária.

“Ao invés de se expor em reuniões de grupo ou ter os vizinhos atestando sua capacidade de crédito, as pessoas que desejarem um empréstimo poderiam simplesmente apresentar uma carteira de identidade ou usar um aplicativo móvel”, afirma Christensen. “Se isso não funcionar, não ficarão em situação pior do que já estão”.

Sendo assim, seria o crédito alternativo a forma de acolher esses 2 bilhões de pessoas sem conta bancária no sistema financeiro?

“Eu não acho que há uma fórmula mágica”, diz Christensen, “É preciso um ecossistema. Os grandes bancos têm uma função. Os emissores de cartões de crédito também.

As empresas de tecnologia de crédito têm uma função, assim como os reguladores. Isto também tem implicações enormes de estratégia, pois o mercado será muito fragmentado e confuso”.

Empreendedores e inovadores, fiquem alertas. “Se você atua no setor de serviços financeiros, é hora de acordar e prestar atenção a este enorme mercado, potencialmente muito lucrativo”, afirma Christensen.

“Para todos os demais, assegurar que as pessoas tenham acesso ao crédito é a melhor maneira de expandir o seu mercado”.

Texto publicado com a permissão da Northwestern University (em representação da Kellogg School of Management). Publicado originalmente no Kellogg Insight