Como passar de endividado a investidor em 60 dias

As quatro etapas para sair das dívidas, poupar e investir em um período de dois meses a um ano

São Paulo – Passar do status de endividado a investidor pode parecer uma transformação muito difícil e demorada. Mas com um pouco de esforço, é possível transformar as finanças com mais rapidez do que se imagina. EXAME.com ouviu consultores para traçar um plano da melhor maneira de fazer uma faxina na vida financeira, em quatro etapas: endividado, zero a zero, poupador e investidor.

1. Endividado

Este primeiro passo, para muitos, pode ser o mais difícil de resolver em pouco tempo.

O consultor financeiro Mauro Calil sugere que se comece pelo mais básico: “A pessoa deve listar todas as dívidas, os montantes e os juros de cada uma. Em seguida, fazer uma planilha com todas as receitas, as despesas necessárias, as “super” necessárias e as esporádicas, que são os gastos por impulso. Com isso, você vê a sua capacidade de geração de renda, e o quanto é necessário para sanar as dívidas”.

O passo seguinte é a redução de gastos que não são imprescindíveis e, então, a quitação da dívida. “A pessoa deve sempre dar prioridade à dívida com a maior taxa de juro”, orienta Calil.

Dependendo do tamanho da dívida, essa etapa pode demorar a ser concluída. Aí, cabe outra medida: “Se você vir que vai levar anos para sanar a dívida, cabe outra providência: lance mão de um patrimônio de alta liquidez, como um carro ou uma moto, que possa ser vendido para quitar a dívida.”

Com o dinheiro na mão, parta para a negociação, avaliando quais credores oferecem as melhores condições. “Se a pessoas têm uma dívida de 10.000 reais, ela deve procurar quitá-la de uma vez, forçando descontos”.

E por fim, o consultor recomenda que a negociação não seja desonrada em hipótese alguma. “É preferível não pagar a dívida e ter que negociar com um juiz do que negociar o pagamento e não honrar”, afirma Calil. Veja como se livrar dos problemas com dívidas em 10 dias.

2. Zero a zero

Depois de dar adeus à vida de devedor, você deve dar mais um importante passo: manter-se em abstinência de dívidas.

Anísio Castelo Branco, presidente do Instituto Brasileiro de Finanças, Perícias e Cálculos (Ibrafin), diz que isso pode ser mais fácil se você começar a planejar os seus gastos variáveis. “No Brasil, nós vivemos o problema da CLT: se você tem um salário de 3.000 reais, é isso que você vale. As pessoas acabam se limitando ao que ganham”, diz.


Em vez disso, Castelo Branco sugere a busca de outras maneiras de ganhar dinheiro. Ele cita alguns exemplos: se você tem um amigo que é consultor imobiliário, sugira ajudá-lo a fechar negócios em troca de uma comissão. “É preciso pesquisar opções para montar uma receita variável, diz o presidente do Ibrafin.

Se você não consegue vislumbrar uma opção para obter esta renda extra, Castelo Branco dá uma outra dica: “Se a pessoa tem tendência a reincidir nos mesmos erros de antes, deve quebrar o cartão de crédito, não pegar talão de cheques e ficar longe de tudo que leve ao endividamento até novamente se sentir segura e ter controle sobre os gastos.”

Mauro Calil também ressalta que neste momento é muito importante que o ex-endividado reconheça os avanços. “Muitas pessoas falam sobre como enriquecer. Na verdade se a pessoa já tem um centavo, 10 reais ou 30 reais a mais, ela já enriqueceu. O importante é que amanhã você tenha algo a mais que hoje, não importa o quanto. O importante é caminhar para frente”, avalia Calil.

Saiba quando o endividamento pode ser uma doença.

3. Poupador

Com equilíbrio nas contas, comece a fazer o que os consultores chamam de investimento saudável. Neste ponto, o conselho básico é poupar 10% do orçamento para formar um colchão financeiro, que é o dinheiro reservado para emergências. O ideal é que este montante seja suficiente para que você consiga se manter durante pelo menos 12 meses. “A pessoa que está começando do zero pode começar pela boa e velha caderneta de poupança, que é um tipo de investimento para quem não tem conhecimento sobre aplicações”, orienta Calil.

Nesta fase já começa uma vida financeira sustentável. Um passo fundamental para se manter assim e ainda conseguir avançar é disciplina. O primeiro passo nesse sentido é separar o que é gasto do que é investimento. A rigor, investimentos geram retornos financeiros; mas mesmo alguns gastos podem ser considerados investimentos se, indiretamente, ajudarem você a gerar mais dinheiro.

“Antes de comprar qualquer coisa, peça para o vendedor separar o produto e diga que você vai voltar em três dias para buscá-lo. Se nesse tempo você não sentir falta daquele item, provavelmente ele seria apenas um gasto por impulso. Aí sim a pessoa passa a ser credora dela mesma, e não mais do banco”, diz Anísio Castelo Branco.


4. Investidor

Antes de investir, é preciso identificar o seu perfil. Pessoas completamente avessas a risco – de calote, de oscilação de preços e de qualquer tipo de perda – são conservadoras, e devem preferir investimentos em renda fixa com baixo risco de crédito. Isto é, títulos públicos (operados via Tesouro Direto), fundos DI, fundos de renda fixa sem crédito privado, CDBs de grandes bancos que paguem mais de 90% do CDI e caderneta de poupança.

Quem toparia correr um pouco de risco pode, além da renda fixa, buscar fundos multimercados ou fundos de ações para um pequeno percentual do seu patrimônio investido. E quem tem um perfil mais agressivo pode investir a maior parte do dinheiro poupado em ações, diretamente ou por meio de fundos, desde que mantenha um colchão de liquidez em renda fixa mais conservadora.

“Você pode pesquisar em outros lugares, mas é muito importante começar a decidir por si mesmo, para não ser direcionado pelo que for de interesse do banco, por exemplo”, lembra Castelo Branco.

Mauro Calil ressalta que as opções de maior risco são mais indicadas para quem já tem mais experiência. Para os iniciantes, investimentos em Tesouro Direto e em CDBs são mais indicados. “Depois que a pessoa já iniciou a poupança e quer sofisticar e diversificar a aplicação, ela pode estudar imediatamente os investimentos em Tesouro Direto ou em CDBs, principalmente os de bancos de médio e pequeno porte, que têm uma rentabilidade maior do que os de um banco grande e contam com a garantia de 70.000 reais do Fundo Garantidor de Crédito”.

É importante lembrar que, com as mudanças nas regras da poupança e com a perspectiva de redução na Taxa Selic, algumas variáveis entraram em jogo, e será preciso avaliar com mais cuidado quais são melhores opções de aplicação de acordo com o prazo do investimento.