Como lidar com uma cartinha que até o Papai Noel se assusta

Educadoras financeiras dão dicas sobre como os pais podem lidar caso os presentes pedidos para o Papai Noel estejam além de sua capacidade

São Paulo – Algumas cartinhas para o Papai Noel, além de fofinhas, podem ter listas de presentes que assustam qualquer bom velhinho. Mas, como o objetivo do Natal não é contrair dívidas, nem frustrar as crianças, é importante saber como lidar com esses pedidos da melhor forma possível.

Para mostrar o que fazer quando os presentes vão muito além do custo de fábrica que o Papai Noel pode arcar, EXAME.com conversou com as educadoras financeiras Ana Paula Hornos, coach e autora de livros didáticos sobre educação financeira, e Cássia D’Aquino, consultora em projetos de educação financeira do Banco Central, BM&FBovespa, e United States Agency for International Development (USAID). 

Confira a seguir dez dicas de educação financeira que ajudam a resolver qualquer tipo de cartinha.

1) Se a cartinha ainda não foi escrita, planeje-a com seu filho

Muitos pais já fazem questão de planejar a cartinha do Papai Noel com os filhos para participar de um momento que para eles é muito especial, mas vale aproveitar a oportunidade também para orientar seu filho a dar uma forcinha para o bom velhinho.

Caso ele diga que quer um buggy e você perceba que para isso seria preciso abrir mão da viagem que a família fará no final de ano, por exemplo, Cássia D’Aquino sugere que os pais entrem na brincadeira.

“Eles podem dizer que um buggy é muito grande para caber no trenó, já que o Papai Noel precisa trazer presentes para todas as crianças do mundo. Para as crianças isso faz todo sentido. Usar essa lógica infantil é uma forma de os pais não detonarem o orçamento”, diz Cássia.

2) Oriente seu filho a refletir sobre o pedido e ajudar o Papai Noel

Pare Ana Paula Hornos, os pais devem conversar com os filhos para que eles reflitam sobre seus pedidos. Ao fazê-los pensar com mais calma, eles podem perceber por conta própria que a listinha está grande demais e que não estão ajudando muito o Papai Noel.

“A mídia, os pais, todo mundo fica muito afoito. Se a criança pediu muitas coisas, ótimo. Os pais podem conversar com o filho para que ele reflita sobre o pedido e podem ajudá-lo a fazer uma lista sugerindo que ele recorte itens e cole em um caderno sinalizando quais presentes são mais importantes para ajudar o Papai Noel”, diz.

Ana Paula explica que por trás da brincadeira está uma estratégia de fazer a criança sair do sistema rápido para o devagar, os dois padrões mentais identificados pelo prêmio Nobel de Economia de 2002, Daniel Kahneman. Segundo ele, o pensamento se divide em uma parte rápida, criativa, intuitiva e emocional e outra lenta, analítica, deliberativa e lógica.

“Kahneman identificou que o ser humano tem o ímpeto de responder pela forma rápida para evitar a dor e buscar o prazer. Nosso desafio é trabalhar o lado financeiro devagar. Muitos pais querem evitar a dor do filho e saem do planejamento, mas é um gesto de amor ensiná-lo a se planejar e exercitar seu sistema devagar”, diz Ana Paula.

3) Se for preciso, encaminhe uma resposta do Papai Noel 

A linguagem lúdica é uma ferramenta poderosa na educação das crianças e pode resolver muitas coisas também quando o pedido para o Papai Noel é um tanto quanto ousado.

Se o presente for caro demais, uma solução lúdica para a situação é “encaminhar” uma resposta do Papai Noel à criança dizendo que o presente está em falta na fábrica, que faltou matéria-prima para fazê-lo, ou que os ajudantes estão com problemas para confeccionar “iPads da Galinha Pintadinha”.

4) Fale com seu filho sobre gratidão

Para diminuir as expectativas, Ana Paula Hornos recomenda que os pais despertem nos filhos o sentimento de gratidão. “Esse exercício é fundamental para trazer equilíbrio para a pessoa e evitar tanto o sentimento de avareza, como o da compra compulsiva”, afirma.  

A tarefa pode ser ainda mais fácil nessa época de fim de ano. “Os pais podem conversar com os filhos sobre o que eles têm para agradecer sobre o ano que se passou. Assim a criança exercita desde pequena o contentamento e tem uma relação mais equilibrada com as finanças”, diz Ana Paula.

5) Incentive seu filho a praticar a doação

Ana Paula lembra que em uma de suas experiências, Kahneman mostrou que tendemos a ser mais egoístas quando o assunto é dinheiro. No teste, o economista viu que quando duas pessoas estão conversando e uma delas deixa cair um lápis, se o assunto é dinheiro a outra pessoa demora mais para ajudar a pegar o lápis do que quando outro assunto está em pauta.

O antídoto para isso, segundo a educadora, é a doação. “Além de ajudar o próximo, a doação ajuda a regular a natureza humana egoísta e as disfunções de acumular e gastar muito. Ao incentivar a criança a fazer uma ação de caridade, como reunir seus brinquedos para doação, os pais ajudam o filho a ser mais desprendido“, diz Ana Paula.

6) Papai Noel não se endivida

Segundo as educadoras, se endividar para dar o presente nunca deve ser uma solução. Para Cássia D’Aquino, na verdade quem sofre mais quando o pedido é caro são os próprios pais e não as crianças.

“Não é que as crianças peçam muito, são os pais que se preocupam que elas peçam algo que eles não possam dar. Os pais podem escolher as coisas mais baratinhas da lista, ou podem equacionar isso de outras formas, sem se endividar. As crianças entendem, porque, por alguma razão muito bonitinha, elas sempre perdoam o Papai Noel e sabem que ele faz confusão porque está velhinho”, brinca Cássia.

7) Ensine seu filho a lidar com a frustração

Se mesmo com as dicas anteriores seu filho insistir em um presente impraticável, é importante saber como lidar com sua reação, caso o Papai Noel traga outro brinquedo que não o agrade.

Cássia D’Aquino afirma que em primeiro lugar o adulto deve mostrar à criança que na vida não se tem tudo que se deseja, educando-a para suportar o fato de que nem todos seus desejos serão realizados sempre. “É preciso compreender a natureza humana de querer tudo o tempo todo. Eu continuo querendo ter um apartamento dúplex em Paris, mas nem por isso o mundo faz o que eu quero”, diz.

Ela acrescenta que o ser humano tem necessidades que nunca serão preenchidas por nada, nem por ninguém. “Tem gente que compra, compra, compra sempre tentando preencher um buraco, mas quando nos damos conta de que temos de lidar com esse sentimento de falta vemos que não adianta nada detonar todo nosso dinheiro”, afirma Cássia.

8) Não seja excessivamente racional

Ainda que os pais não devam se endividar com os presentes, também não devem pecar pelo outro extremo e ser extremamente duros com a criança. É importante usar a fantasia para ajustar as expectativas dos filhos à capacidade da família, mas tomando cuidado para não acabar com a alegria do momento.

“Eu gosto muito de Natal com criança e levo isso muito a sério. Os pais têm 364 dias para ensinar a criança lidar com dinheiro e para ela pode ser avassalador dizer que o Papai Noel não tem dinheiro ou que o presente pedido equivale ao salário da babá. A criança ficará com um sentimento de culpa e o tiro pode sair pela culatra e ela pode dizer que não quer nada de Natal”, diz Cássia.

9) Saiba como lidar com o bombardeio de propagandas

Neste mês, foi publicada no Diário Oficial a Resolução 163 do Conselho Nacional dos Direitos da Infância e da Adolescência (Conanda), que recomenda a proibição da publicidade infantil. A resolução não tem força de lei, nem estabelece sanções, mas tem instigado o debate sobre o tema.

O assunto também foi pauta do documentário “Criança, A Alma do Negócio”, da cineasta Estela Renner. O filme esclarece que a publicidade promete mais que a alegria da posse, promete a alegria da inscrição na sociedade, levando a criança a sentir que ao ganhar um brinquedo igual ao de seus amigos ela faz parte do grupo. 

Cássia D’Aquino recomenda que os pais evitem deixar as crianças assistirem à televisão sozinhas e fiquem por perto para traduzir o sentido da publicidade e despertar o senso crítico dos filhos. “Eles podem dizer: ‘Será que essa criança usa tudo isso que mostra na propaganda mesmo?’. Ou: ‘Será que só porque está aparecendo na propaganda esse produto é de qualidade?”, sugere. 

Questionada sobre o fato de muitos pais deixarem os filhos assistirem à televisão para ter mais tempo, Cássia diz que a questão pode ser resolvida de outra forma. “Existem famílias que se organizam e encontram maneiras criativas de ocupar as crianças. Se os pais precisam preparar o jantar, em vez de deixar o filho assistindo televisão, eles podem envolvê-lo na confecção do jantar, por exemplo”, afirma.

Ela defende ainda que uma pesquisa da Eurodata TV Worldwide, de 2005, mostrou que as crianças brasileiras são as que mais ficam em frente à televisão, em média três horas e 31 minutos por dia. Na Alemanha o tempo é reduzido para 30 minutos por dia. “Na Alemanha o número de mães que trabalham fora é maior que no Brasil, eles têm menos babás e empregadas e mesmo assim as famílias conseguem se organizar”, diz.

10) Jamais ofenda o Papai Noel

Dizer que o Papai Noel não existe é uma ofensa grave não só ao bom velhinho, mas principalmente ao seu filho. Além de ser bonzinho e trazer os presentes, o Papai Noel cumpre uma função importante no desenvolvimento das crianças, segundo as educadoras financeiras. 

“A criança é essa coisinha tortuosa e sofrida, tem raivas absolutas e coisas escondidas e o Papai Noel não está nem aí. Ela pensa que mesmo sendo a peste que for, esse velhinho sai do Polo Norte para trazer um presente para mim. Ele reassegura que a criança é bacana, por isso é tão calmante”, diz Cássia D’Aquino.

A educadora completa que a fantasia leva a criança a se sentir mais confiante e a incentiva a ser cada vez melhor, pois ao se sentir amada ela tem vontade de corresponder ao que os outros veem nela.