As 6 causas das “doenças financeiras”

Leia um capítulo na íntegra do novo livro dos consultores financeiros André Massaro e Conrado Navarro, aberto exclusivamente em EXAME.com

São Paulo – Os consultores financeiros e blogueiros de EXAME.com, André Massaro e Conrado Navarro, acabam de lançar o livro “Dinheiro é um santo remédio” (Ed. Gente), em que comparam a saúde financeira à saúde do corpo e da mente, buscando soluções para as “doenças financeiras” que nos acometem. Trata-se de um livro sobre como fazer planejamento financeiro, voltado tanto para quem está com as finanças na UTI, quanto para quem deseja fazer um check up para se prevenir de “doenças”.

No capítulo a seguir, disponibilizado pelos autores e pela editora especialmente para EXAME.com, Massaro e Conrado explicam as seis demais causas das “doenças financeiras”:

Capítulo 4 – Por que ficamos financeiramente doentes?

O que desencadeia uma doença financeira? Com exceção daqueles eventos imprevisíveis e incontroláveis que já mencionamos, as demais causas de problemas financeiros são decorrência de nosso comportamento e de nossas atitudes.

Existem seis principais causas de doenças financeiras. Vamos conhecê-las?

1 – Desequilíbrio

O responsável primário pelo endividamento é o desequilíbrio. Os instrumentos de crédito são as ferramentas por meio das quais o desequilíbrio financeiro se manifesta, e as dívidas são a consequência (ou o sintoma).

O equilíbrio financeiro (que seria o estado saudável) é apenas e meramente uma relação neutra ou positiva entre o dinheiro que entra e o que sai. Isso não envolve matemática avançada ou conhecimentos técnicos em finanças.

A maioria dos problemas financeiros da humanidade sumiria de uma hora para a outra se as pessoas passassem a observar e seguir uma única regra em suas vidas: viver conforme suas possibilidades. Entretanto, o que mais vemos são pessoas extrapolando seus limites financeiros e, pior, muitas sequer têm noção disso.

Desequilíbrio financeiro causa desnutrição financeira, que causa perda de reservas financeiras e, posteriormente, endividamento. É a consequência objetiva e mensurável que conseguimos enxergar em nosso extrato bancário e em nossas contas.

Existem ainda outras consequências mais difíceis de mensurar, porém igualmente danosas, como o estresse e os diversos problemas de saúde, familiares, profissionais e outros associados ao desequilíbrio e às dividas.

Como falamos anteriormente, o equilíbrio financeiro é uma relação entre o dinheiro que entra e o que sai. Então, o que produz o desequilíbrio financeiro, objetivamente falando, são apenas duas coisas: ou se está gastando demais ou ganhando de menos (ou as duas coisas simultaneamente).

O endividamento das pessoas físicas (a consequência visível da desnutrição financeira) é um problema crescente graças, entre outras coisas, à popularização de instrumentos financeiros como o cartão de crédito e o cheque especial.


O endividamento é hoje a maior fonte de estresse financeiro no Brasil, na frente inclusive do medo do desemprego, que historicamente é o fator financeiro que tira o sono dos brasileiros. Muitas pessoas estão penduradas em financiamentos e no limite rotativo do cartão de crédito.

Nesse ponto, é importante deixar claro que esses instrumentos de crédito, como cartão de crédito, cheque especial, crédito ao consumidor ou outras modalidades de financiamento, não são os verdadeiros responsáveis pelas dívidas e pelo descontrole – são apenas ferramentas que estão sendo usadas de maneira, às vezes, irresponsável.

2 – Imediatismo

O imediatismo tem duas manifestações. A primeira é no consumo, quando a pessoa quer comprar agora, não pode esperar nem um pouco mais. Viver o aqui e o agora é uma ideia tentadora, até romântica.

O mundo do marketing e da publicidade explora isso de maneira muito agressiva tentando, a todo tempo, nos persuadir a comprar as coisas imediatamente, usando chamadas tentadoras como “você merece”, “dê a você mesmo este prazer” e por aí vai.

A segunda manifestação é na acumulação de recursos, seja para ter uma reserva de emergência, para investir ou para se preparar para a aposentadoria. Pessoas imediatistas sofrem de algo que os psicólogos chamam de desconto intertemporal, que é a tendência que temos de dar excessiva importância para o curto prazo e ver as coisas de longo prazo como se estivessem na eternidade.

Um caso clássico de desconto intertemporal é o velho e bom conflito entre o bolo de chocolate e o corpinho sarado no verão. O que é melhor? O prazer imediato (porém passageiro) do bolo ou o de ser mais saudável? Muita gente pensa “Bem, eu posso comer o bolo agora, pois ainda falta muito tempo para o verão e dá tempo de se preparar”. O problema é que um dia o verão chega.

O mesmo raciocínio vale para investimentos e aposentadoria. Muita gente prioriza o prazer de curto prazo (“Vou fazer aquela viagem ou comprar um carro novo a prestações AGORA”) e negligencia o longo prazo (“Posso começar a guardar dinheiro no ano que vem, ainda tenho muito tempo pela frente”). Um dia, porém, o longo prazo se torna curto, e aí vem o pânico e a sensação de ter de correr para sanar o prejuízo.

Aqui entre nós, existe coisa mais inútil do que planejar o futuro? Nós sequer sabemos se estaremos vivos nos próximos cinco minutos, que sentido faz esquematizar os próximos cinco anos e deixar de curtir a vida aqui e agora?

A lógica desse pensamento é perfeita – não temos nenhum controle sobre o futuro, portanto fazer planos é exercício inútil e perda de tempo. Contudo, a prática (e também a ciência) mostra que pessoas que têm uma visão de longo prazo, ainda que imperfeita e imprecisa, acabam tendo um desempenho melhor que as pessoas que estão concentradas no curto prazo.

No início dos anos 1970, o psicólogo Walter Mischel, da Universidade de Stanford nos Estados Unidos, conduziu uma série de experimentos que ficaram conhecidos como o Teste do Marshmallow.


Na experiência, crianças eram colocadas em uma sala sem nada que pudesse distraí-las, e a elas era oferecido um doce (que podia ser um marshmallow, um bombom ou um biscoito). O pesquisador fazia um trato de que, quando voltasse para a sala (em alguns minutos), se a criança não tivesse comido o doce, ela ganharia mais um doce.

Em poucas palavras o combinado era: “um doce agora ou dois daqui alguns minutos”. Naturalmente, muitas crianças não resistiram e comeram o doce imediatamente. Pesquisas posteriores demonstraram que as crianças do teste que conseguiram se controlar e esperar para ter dois doces tiveram melhor desempenho escolar e profissional que aqueles que não resistiram à tentação.

Em 2012, o Teste do Marshmallow voltou a ser bastante mencionado na mídia não só pelos quarenta anos da experiência, mas também porque alguns pesquisadores começaram a questionar a validade dos resultados e a consistência da metodologia do teste, apesar de a correlação entre a capacidade de resistir às tentações no curto prazo e o sucesso na vida ser indiscutivelmente forte.

De qualquer forma, é uma evidência válida de que pessoas que conseguem pensar lá na frente acabem se dando melhor.

É verdade que os planos não são perfeitos. Afinal, muitas vezes na vida planejamos algo e o resultado não foi o desejado originalmente. Entretanto, isso não tira a importância de planejar a vida, em especial o lado financeiro.

Os planos não são escritos na pedra, são dinâmicos, mudam e são adaptados com o tempo. Eles não servem para prever o futuro, e sim para nos dar um rumo, um caminho. Um planejamento é também uma maneira de nos conhecermos e, no caso de um planejamento financeiro, de conhecer nossas contas, nossos ganhos e nossos padrões de gastos.

Pessoas que não planejam e que não conseguem pensar no longo prazo acabam gastando demais, adquirindo coisas sem ter os meios para pagar e não fazendo os investimentos profissionais (que geralmente são de prazo maior) para ter uma boa renda.

O imediatismo pode levar ao desequilíbrio financeiro (ou agravá-lo), o que conduz à desnutrição financeira. O imediatismo é também um dos responsáveis pela anemia financeira e o principal causador de outras doenças, como a miopia financeira e a diarreia financeira.

3 – Apatia

Muita gente tem a seguinte opinião sobre finanças: “Não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe”. Apatia é o principal causador da fobia financeira. Há aquelas pessoas que tem medo de olhar o extrato bancário para não ver o “estrago” e que colocam todas as contas em débito automático e nem olham as faturas para não se irritar. Talvez você conheça alguém assim, pois é muito comum encontrar pessoas que evitam o assunto.

Há também aquelas pessoas que desdenham do assunto, dizendo que “se preocupar com dinheiro é coisa de pobre”, e aquelas que acabam assumindo, falsamente, que finanças é um assunto muito difícil e complicado e que não conseguem entender.

Essas são ideias equivocadas porque não é preciso conhecimento avançado de finanças para ter uma vida perfeitamente organizada. Basta ter informações iniciais e executar!


As pessoas apáticas costumam fazer duas coisas: deixam ao deus-dará, sem saber se têm dinheiro sobrando ou faltando, e simplesmente vão levando a vida; ou entregam a vida financeira na mão de outra pessoa.

Muita gente, quando perguntada sobre algum assunto financeiro, responde logo de cara que quem cuida dessas coisas é seu cônjuge, por exemplo. Essas pessoas estão, como diz uma velha piada, confundindo delegar com de-largar.

A principal consequência da apatia financeira é a fobia financeira, porém em casos extremos ela também pode levar a pessoa a um estado de desorganização financeira que acaba colocando-a em uma posição de desequilíbrio – e já sabemos que desequilíbrio financeiro gera desnutrição financeira que, por sua vez, termina em endividamento severo.

Casos extremos de apatia financeira podem ser vistos frequentemente na imprensa, quando sai alguma notícia sobre um atleta ou celebridade qualquer que estava nadando em dinheiro e simplesmente perdeu tudo sem sequer saber onde o dinheiro estava sendo gasto. Tudo isso porque deixou toda aquela grana na mão de alguém que era “de confiança”.

4 – Renda insuficiente ou inexistente

A renda é o oxigênio das finanças. A renda, na forma de salário, comissões, lucro de empresas, mesada ou seja lá o que for, é a matéria-prima do consumo e da riqueza. Sem renda não temos recursos para consumir, pelo menos não em uma economia organizada.

A renda, na maioria dos casos, está ligada a uma atividade profissional. Algumas pessoas têm rendas oriundas de outras fontes, como pensões alimentícias, mesadas e outras. Entretanto, a maioria das pessoas precisa trabalhar para gerar renda, seja em um emprego convencional, seja em uma atividade autônoma ou empresarial.

É fato que renda insuficiente ou nula pode ser o resultado de circunstâncias que estão fora do controle da pessoa, associadas ao estado da economia e ao desemprego. No entanto, muitas vezes a falta de renda vem do fato de que a pessoa não fez, ou não está fazendo, investimentos para aumentá-la.

Salvo raras exceções, as pessoas iniciam uma atividade profissional ou empresarial ganhando pouco dinheiro, até adquirirem experiência e qualificação para terem aumento de salário, formarem uma clientela ou se estabelecerem em uma atividade empresarial.

Algumas pessoas, porém, em determinado momento param de investir (ou, na verdade, nunca investiram) na geração de renda. Param de estudar, de se atualizar. Há aquelas que o fazem por comodismo, enquanto outras o fazem por falta de condições financeiras, o que acaba aprisionando-as em um dilema de que elas não ganham mais, pois não conseguem se aperfeiçoar, e não conseguem se aperfeiçoar por que não sobra dinheiro.

Frequentemente, a renda insuficiente é potencializada pelo imediatismo. Quando isso acontece, a pessoa prefere direcionar recursos para projetos no curto prazo em vez de investir em coisas que podem aumentar a renda no longo prazo.


Quando falamos do imediatismo, mencionamos o conflito entre o bolo de chocolate e o corpo saudável. Aqui também temos conflitos, como o daquele rapaz que abandona a faculdade para poder pagar as parcelas do carro que comprou para impressionar os amigos, ou daquela mocinha que precisa abandonar os estudos para se dedicar a um projeto de maternidade que não havia sido planejado.

Nos dois casos, as pessoas acabam se condenando (e condenando suas famílias) a uma vida financeira limitada e claramente aquém das reais potencialidades delas.

Já aquela pessoa cuja renda é inexistente está “respirando por aparelhos”. Quem se encontra nessa situação está tirando recursos de algum lugar, seja se endividando, seja consumindo reservas pessoais ou então vivendo graças à ajuda de alguma pessoa ou instituição.

Renda inexistente leva ao desequilíbrio financeiro extremo e à desnutrição financeira. A pessoa sem renda pode ficar endividada muito rapidamente e está sujeita também à desnutrição financeira e à anemia financeira.

5 – Excesso de autoconfiança

Autoconfiança “na medida certa” é um dos segredos do sucesso. Contudo, em excesso é fracasso garantido. O sujeito excessivamente autoconfiante é aquele que dá passos maiores que a própria perna, que compra coisas (a prestação) que estão completamente fora de sua capacidade financeira e que depois diz algo como “Não tem problema, depois eu me viro”.

O excesso de autoconfiança frequentemente combina com o imediatismo, e as duas causas combinadas são responsáveis por grandes doenças e estragos financeiros como a anemia, a disenteria e a miopia. Em casos extremos, podem também precipitar um desequilíbrio financeiro que causa a desnutrição financeira, levando ao endividamento severo.

Assim como no imediatismo, o excesso de autoconfiança se manifesta nos gastos (consumo) e nos investimentos. O sujeito excessivamente autoconfiante compra (financiado) aquilo que não pode pagar, pois ele tem a certeza de que, de alguma maneira, o dinheiro virá.

Quando está no papel de investidor, o sujeito excessivamente autoconfiante é aquele que faz aplicações arriscadíssimas, que coloca toda a poupança da família na ação XYZ porque leu um boato em um “fórum especializado” na internet.

A autoconfiança excessiva tem ainda outras duas manifestações. Uma delas é no gerenciamento de riscos. Muita gente negligencia os riscos e assume o pensamento de que coisas ruins só acontecem com os outros. Essas pessoas nunca formam uma reserva financeira para emergências nem contratam apólices de seguros e ficam permanentemente expostas a fatalidades inesperadas.

A outra manifestação é a confiança cega na própria memória e na capacidade de organizar as finanças sem o apoio de algum tipo de ferramenta. Nesse caso, o resultado é a amnésia financeira, que leva a pessoa a um profundo estado de desorganização financeira e pessoal.

Não temos nada contra a fé, o otimismo e o pensamento positivo, mas em finanças essas coisas costumam não funcionar. Em nossa prática profissional, vemos muito mais pessoas prejudicadas do que beneficiadas por esse tipo de atitude.


6 – Pressão social

Praticamente tudo hoje nos empurra na direção do consumo. Empresas querem que compremos, pois isso significa mais lucro para elas. O governo quer que compremos, pois isso se traduz em mais impostos. Amigos, família e colegas de trabalho também acabam, de maneira voluntária ou involuntária, nos forçando a consumir sempre mais.

Nos Estados Unidos, onde o consumismo é bastante alto e vem sendo muito estudado, há um ditado popular que diz “acompanhar os Jones” (keep up with the Joneses), e “Jones” é a maneira genérica (e pejorativa) de se referir aos vizinhos.

A lógica desse ditado é mais ou menos assim: o vizinho comprou um carro novo, então também temos de trocar o carro da família. O vizinho viajou para a praia, então também temos de viajar. O vizinho construiu uma piscina, então também temos de construir, e por aí vai.

Uma das características da sociedade de consumo é que somos pressionados a comprar coisas para nos sentirmos membros da sociedade. A pressão social afeta gente de todas as idades, todos os gêneros e todas as classes sociais, porém entre os mais jovens seus efeitos são mais visíveis. Se fulano não usa o tênis da moda ou não tem o smartphone de última geração, ele é considerado um perdedor em seu grupo social.

As pessoas podem ser mais ou menos resistentes à pressão social. Pouca gente é totalmente imune a ela, mas algumas chegam a extremos e colocam sua saúde financeira em grande risco, adquirindo coisas que estão totalmente fora de seu alcance apenas para cultivar uma imagem.

A pressão social é a principal causa da anorexia financeira e da bulimia financeira. Pode também se combinar (ou potencializar) com o desequilíbrio financeiro, levando a outras doenças.

Referência:

NAVARRO, Conrado; MASSARO, André. Dinheiro é um santo remédio – Cure sua vida financeira e nunca saia de forma. São Paulo: Gente, 2013. p. 63-77.

Preço: R$ 24,90