A carteira de ações que rendeu mais de 1000% na década

Ações que oscilavam pouco em relação ao Ibovespa em 2001 fizeram o índice comer poeira em 11 anos; ações que são defensivas hoje repetem o mesmo bom desempenho há 5 anos

São Paulo – As ações mais defensivas, que oscilam pouco em relação ao Ibovespa, tornam-se o porto seguro de investidores em épocas de crise como a atual. Mas não é apenas nos tempos difíceis que esses papéis menos emocionantes entregam retornos acima da média do mercado. Clodoir Vieira, economista-chefe da corretora Souza Barros, refez um estudo já realizado em 2001, e percebeu que as ações com menor correlação com o Ibovespa têm mostrado um excelente desempenho, tanto para quem investiu nelas em 2001 e as carrega até hoje quanto para quem investiu nos últimos cinco anos, já em tempos de crise.

O estudo teve duas frentes. Primeiro, Vieira analisou a carteira de 2001, composta por 25 ações de setores variados que oscilavam pouco em relação ao Ibovespa na época. Naquele ano, 20 delas já superavam o principal índice da Bolsa há cinco anos. Das 25 ações da carteira, apenas 13 continuam presentes na Bolsa hoje (por vezes com outro nome após fusões e aquisições) e nem todas se mantêm tão defensivas. As demais ações foram canceladas, ou porque fecharam o capital, ou porque foram incorporadas. Mesmo assim, reinvestindo ou não o dinheiro dos papéis cancelados nas ações da carteira que permaneceram ativas, o investidor teria obtido um retorno de mais de 1000% de lá para cá, contra menos de 300% do Ibovespa e 376% do CDI.

A segunda frente do estudo foi analisar uma carteira atual de 25 ações que oscilam pouco em relação ao Ibovespa. Nos últimos cinco anos, o retorno dessa carteira defensiva teria rendido ao investidor 116%, contra 20% do Ibovespa e 66% do CDI.

Para chegar às carteiras de ações mais “tranquilas” da Bolsa, o economista tomou por critérios liquidez, volatilidade e um índice chamado beta, que calcula quanto uma ação oscila em relação ao Ibovespa. Ações com o beta menor que 1 são mais estáveis, desvalorizando menos quando o Ibovespa cai e subindo menos quando o índice sobe. Por isso esses papéis são considerados defensivos. Já as ações com beta maior que 1, mais arriscadas, sobem mais que o Ibovespa quando este se eleva, mas caem mais quando há retração do índice. Quanto mais próximo de 1 estiver o beta, mais semelhante à variação do Ibovespa será a oscilação da ação.

Para selecionar as ações – tanto no estudo atual, quanto naquele realizado em 2001 –, Clodoir Vieira considerou apenas ações que combinassem boa liquidez e beta entre 0,4 e 0,8, isto é, cuja correlação com o Ibovespa variasse de 40% a 80%. Em cada época, foi considerado o beta médio dos últimos cinco anos. Das ações que preenchiam os critérios 11 anos atrás, apenas três mantêm o beta médio dos últimos 60 meses dentro do intervalo de 0,4 a 0,8. De qualquer forma, quem tivesse mantido os papéis lá do início na carteira durante todos esses anos não teria se decepcionado.

Os resultados aparecem nas tabelas na página a seguir. Considerou-se um investimento de 1000 reais em cada papel (25.000 reais no total), o beta médio dos últimos 60 meses tanto em 2001 quanto agora, e o retorno de 14 de março de 2001 a 20 de agosto de 2012.


Papéis ativos

Nome/classe Retorno desde 2001 Retorno X Ibovespa Capital acumulado (R$) Beta em 2001 Beta atual

Nome/classe Retorno desde 2001 Retorno X Ibovespa Capital acumulado (R$) Beta em 2001 Beta atual
Souza Cruz ON 3424,36% 806,25% 36.712,09 0,5 0,4
Gerdau PN 1944,84% 425,81% 21.300,38 0,7 1,4
CSN ON 1595,31% 335,93% 17.659,53 0,6 1,4
Itausa PN 1365,49% 276,84% 15.265,52 0,8 0,9
Vale PNA 1251,47% 247,52% 14.077,81 0,8 0,9
Ambev PN 1199,11% 234,05% 13.532,39 0,7 0,3
Bradesco PN 999,05% 182,61% 11.448,41 0,8 0,9
Itaú Unibanco PN 730,36% 113,52% 8.649,63 0,8 1,0
Usiminas PNA 510,72% 57,04% 6.361,69 0,7 1,4
Pão de Açúcar PN 170,40% -30,47% 2.816,71 0,7 0,3
Braskem PNA 154,65% -34,52% 2.652,58 0,6 0,7
Embraer ON 44,81% -62,76% 1.508,40 0,4 0,6
Unipar PNB 18,65% -69,49% 1.235,93 0,8 0,9

Papéis cancelados

Nome/classe Retorno desde 2001 Capital acumulado (R$)
Telemig ON 19,21% 1.241,74
Telemig PNB 15,13% 1.199,27
Caemi PN 1330,22% 14.898,09
Copesul ON 711,00% 8.447,95
Ipiranga Distribuidora PN 374,73% 4.945,13
Ipiranga Petroquímica PN 423,26% 5.450,58
Unibanco ON 300,84% 4.175,45
Sadia S/A PN 722,57% 8.568,45
Vale Fertilizantes PN 3783,93% 40.457,61
Confab PN 3918,22% 41.856,47
Fertibrás PN 575,39% 7.035,32

Comparação de resultados

  Sem reinvestimento * Com reinvestimento nas ações ativas** Ibovespa CDI
Valor acumulado (R$) 291.497,14 379.172,88 97.223,50 118.996,79
Retorno 1065,99% 1416,69% 288,89% 376,10%

(*) Considerando-se que as ações canceladas foram vendidas e o dinheiro não foi reinvestido.
(**) Considerando-se que as ações canceladas foram vendidas e o dinheiro foi reinvestido nas demais ações da carteira que permaneceram ativas.


Para quem estiver se perguntando por que as 25 ações da carteira de 2001 se tornaram 24 ações no estudo atual, a resposta está nas fusões e aquisições que ocorreram no período e que levaram certas ações a desaparecerem. A ação que ficou faltando é a da Serrana, incorporada pela Bunge, que nunca teve capital aberto no Brasil. Segundo Clodoir Vieira, não foi possível obter dados sobre a empresa.

O banco que era só Itaú na lista inicial aparece como Itaú Unibanco na carteira atual, em função da fusão com o Unibanco, cujas ações desapareceram. E a Braskem era a Copene na lista inicial, tendo incorporado a Copesul e a Ipiranga Petroquímica. A Caemi foi incorporada pela Vale, que também permanece na lista de ações ativas. A Vale Fertilizantes (antiga Fosfértil), a Fertibrás e a Confab fecharam o capital.

Note que a Sadia não se “transformou” na BR Foods na carteira que permaneceu ativa, a Ipiranga Distribuidora não se “transformou” na Ultrapar, nem a Telemig se “transformou” em Vivo ou Oi. De acordo com Clodoir Vieira, fazer isso teria distorcido o resultado, uma vez que a natureza dessas transações não teria permitido considerar dessa maneira. Enquanto a Braskem realmente se originou da Copene e o Itaú Unibanco, do Itaú, a Telemig e a Ipiranga Distribuidora foram incorporadas por suas atuais controladoras.

O caso da Sadia é um pouco diferente. “A fusão ocorreu porque a Sadia tinha questões financeiras. O papel havia desvalorizado muito e o acionista da Sadia perdeu muito na conversão. Se eu tivesse usado a BR Foods no cálculo, não seria correto, haveria uma distorção. Então preferi considerar como se o acionista tivesse vendido suas ações e reinvestido nos papéis que continuaram a existir”, esclarece Clodoir Vieira.

O economista-chefe da Souza Barros também refez o mesmo estudo realizado em 2001, considerando quais seriam hoje as ações mais “tranquilas”, com beta médio entre 0,4 e 0,8 nos últimos cinco anos, chegando à seguinte lista:

Nome/classe Retorno em 5 anos Retorno X Ibovespa Volatilidade Beta em 60 meses
RaiaDrogasil 426,71% 337,18% 33,71 0,52
Pet Manguinhos 362,25% 283,67% 52,44 0,53
Totvs 260,19% 198,96% 32,24 0,54
Odontoprev 259,73% 198,58% 28,83 0,55
Coelce 240,67% 182,76% 20,8 0,42
Sabesp 153,84% 110,69% 27,18 0,59
CCR SA 153,08% 110,06% 28,46 0,48
Multiplan 146,94% 104,96% 29,49 0,71
M. Dias Branco 145,35% 103,64% 28,33 0,70
Valid 143,46% 102,08% 25,33 0,57
Grendene 129,11% 90,16% 25,57 0,64
Contax 117,49% 80,52% 31,24 0,78
BR Foods 94,69% 61,60% 28,07 0,69
Klabin S/A 92,84% 60,06% 34,71 0,74
Redecard 54,15% 27,95% 22,27 0,49
Comgás 50,17% 24,64% 24,24 0,45
Amil 45,76% 20,98% 34,81 0,64
Celesc 36,49% 13,29% 28,99 0,53
Dasa 28,52% 6,67% 35,54 0,58
Weg 16,69% -3,15% 24,89 0,74
Tim Part S/A 4,45% -13,31% 33,84 0,46
Braskem 1,00% -16,17% 46,48 0,70
Oi -4,89% -21,06% 37,77 0,57
Saraiva Livr -15,08% -29,52% 36,74 0,67
Embraer -26,64% -39,11% 33,96 0,56

Comparação de resultados

  Carteira estável Ibovespa Retorno sobre o Ibovespa CDI
Retorno 116,68% 20,48% 79,85% 66,08%

Embora o beta não possa ser usado como único indicador na hora de avaliar ações, o estudo dá pistas de que ações defensivas costumam ter bom desempenho tanto em épocas de crise quanto em épocas de bonança. Repare que a maior parte das ações citadas nos dois estudos é de empresas voltadas para o mercado interno. Fora isso, são poucas as semelhanças entre elas. Resta saber se a carteira atual das ações “tranquilas” permanecerá com um desempenho tão brilhante nos próximos cinco anos.