5 dores de cabeça que o dinheiro traz

Quem quer enriquecer deve estar preparado para os problemas que o acúmulo de patrimônio traz

São Paulo – Os estereótipos sobre a riqueza, como outros sobre qualquer condição humana, estão por todos os lados. Coerentes ou não, não faltam imagens construídas de ricos individualistas e gananciosos, ou então de ricos generosos e filantropos. Porém o próprio conceito de riqueza é relativo, e as representações do que seria uma família rica nem sempre mostram as reais dores de cabeça que o enriquecimento traz. Sim, elas existem, e precisam ser levadas em conta por quem deseja acumular patrimônio e elevar o padrão de vida.

Há muitas discussões sobre o pensamento de que o dinheiro traz felicidade. Uma pesquisa relevante sobre o tema foi realizada pela Universidade de Princeton com 450.000 americanos entre 2008 e 2009. O resultado mostrou que, até a faixa de 75.000 dólares por ano, a elevação da renda contribui para o aumento da felicidade dos entrevistados. Mas, depois disso o aumento de renda deixa de fazer diferença na satisfação com a vida em geral.

Conrado Navarro, planejador financeiro da consultoria Dinheirama e autor do livro “Vamos Falar de Dinheiro” afirma que existe uma visão muito “glamourizada” sobre o dinheiro. “Ter dinheiro é bom, mas quando a pessoa eleva o padrão de vida, ela tem que se preocupar em ter condições de manter esse novo padrão”, diz Navarro.

Enriquecer por si só pode não ser o caminho para atingir o nirvana. Veja a seguir algumas das dores de cabeça para as quais você deve estar preparado na sua trajetória para o enriquecimento e a independência financeira:

1. Transmissão do patrimônio

O planejamento sucessório de um patrimônio é tão trabalhoso quanto maior o volume da fortuna. Isto porque a passagem de grandes patrimônios pode compreender planos para a manutenção da fortuna, a mudança do controle de empresas, a prevenção de conflitos familiares e a prevenção de grandes perdas.

Por conta desta complexidade, existem hoje dois serviços de consultoria financeira específicos para milionários: o private bank, para clientes que possuem patrimônio acima de um milhão de reais e o Family office, para clientes que possuem de 5 a 10 milhões de reais. Ambas as consultorias têm como objetivo fazer um plano de perpetuação do patrimônio e de transição para as novas gerações, orientando os clientes sobre as questões familiares, societárias ou tributários que estão envolvidas no processo.

Annalisa Dal Zotto, sócia fundadora da consultoria Par Mais, gestora de Family offices, explica que é muito comum que pessoas com alto poder aquisitivo sejam esclarecidas e muito bem-sucedidas, mas tenham dificuldade em administrar os recursos. “Nós temos muitos clientes médicos, advogados e atletas que são extremamente capacitados no que fazem, mas não conseguem planejar as finanças porque não têm tempo de pensar nisso”, explica.


A transmissão de patrimônio pode se dar por testamento – a forma mais cara, mas que permite designar quaisquer herdeiros para quaisquer quantias -; inventário, que pode compreender altos custos; e por meio de doação, que pode ser a forma mais em conta, mas que deve respeitar uma série de regras e exige o pagamento de um imposto específico. Quando existem empresas envolvidas, a complexidade aumenta, principalmente se for necessário preparar uma nova liderança.

Conheça mais sobre as formas de transmissão de patrimônio.

2. Muitos imóveis para administrar

A mesma lógica do item anterior se aplica aos imóveis. Se controlar as contas, documentos, manutenção e acompanhar a valorização de um imóvel apenas algumas vezes já pode dar uma dorzinha de cabeça, o controle de mais de dez imóveis tem grandes chances de causar uma enorme enxaqueca, principalmente se o proprietário o fizer sozinho. “Os imóveis são um dos principais um problemas de pessoas com alta renda. Principalmente aqueles que ficam ricos de forma muito rápida. Eles acabam comprando muitos imóveis de uma vez, muitos sem potencial de valorização e não fazem a escritura de forma correta”, diz Annalisa.

Assim como outros investimentos, a compra de imóveis também exige um certo grau de conhecimento do negócio para que o proprietário não perca dinheiro. Em alguns casos, a compra é baseada na esperança de que uma região se valorize, sem que haja qualquer evidência de que isso seja possível. É por isso que, novamente, é recomendado que profissionais especializados ajudem o investidor a fazer as escolhas certas. 

Por esses e outros motivos, a gestão de imóveis e de todos os recursos financeiros acaba se tornando uma segunda ocupação. Em alguns casos, pode ser tributariamente mais vantajoso abrir uma empresa para administrar todos os ativos imobiliários. “Com dinheiro, o investidor deve procurar mais informação, leitura e eventos sobre administração de recursos. Esse relacionamento com o dinheiro tem que estar sempre presente”, diz Conrado Navarro.

3. Burocracia do Imposto de Renda

Para quem tem muito dinheiro, a declaração do IR ainda conta com uma burocracia adicional. Contribuintes que têm patrimônio superior a 10 milhões de reais só podem fazer a declaração depois de obter um certificado digital no valor de 300 reais que deve ser comprado pessoalmente pelo contribuinte em um ponto credenciado da Receita. É uma espécie de token que serve para certificar se é o próprio contribuinte que está fazendo a declaração.

Além desta exigência, Bianca Xavier, tributarista e sócia do Siqueira Castro Advogados, afirma que a declaração de imposto de renda deste perfil contribuinte exige mais cuidado, atenção e tempo. “É bem comum que os mais ricos caiam na malha fina.  Eles têm muito mais informação para prestar, mais bens a declarar, mais aplicações financeiras e por isso a probabilidade de erro é maior”, comenta.


4. Mais bens, mais seguros

À medida que aumentam as posses, cresce também o temor de perda. Para pessoas com uma renda média o universo dos seguros se restringe normalmente aos carros, imóveis e seguros de vida. Na lista de uma pessoa com alto capital e grandes posses, se somam à lista seguros para imóveis de alto valor, obras de arte, embarcações, helicópteros, joias, coleções valiosas, pedras preciosas, porcelanas antigas, cristais e outros. Leia mais sobre os seguros de carros antigos, embarcações e aeronaves.

O empresário José Rubens Tocci confessa que os valores dos seguros e a necessidade de contratá-los incomodam. Ele tem três carros e todo ano tem um gasto elevado com os seguros. “Eu já pensei inclusive em parar de pagar os seguros dos carros para aplicar o dinheiro. Em alguns anos eu já teria o valor suficiente para comprar outro carro novo”, desabafa.

Navarro explica que os seguros para carros esportivos e outros modelos mais sofisticados costumam ser mais caros, uma vez que a troca destas peças é mais cara, e elas podem ser importadas, o que dificulta a reposição. “E para alguns objetos de luxo, como um quadro da ordem de milhões de reais, a perda seria inestimável. O valor do seguro, portanto, é altíssimo. É preciso ter um alto fluxo de caixa para manter isso”, diz.

5. Aproveitadores

Se por um lado os endinheirados desfrutam de regalias e atendimentos personalizados em bancos, clubes e lojas, por outro eles também estão sujeitos às investidas de aproveitadores que querem tirar vantagem de sua situação financeira.

Os jogadores de futebol são claros exemplos disso. Quando eles precisam comprar apartamentos ou carros, alguns vendedores inflam os preços ao saber que estão lidando com um cliente que tem alto poder aquisitivo.

Segundo Annalisa Dal Zotto, a relação com os bancos também pode ser complicada. “Os gerentes têm que cumprir metas, e por saber que o cliente é rico, algumas vezes se aproveitam e acabam convencendo o cliente a levar produtos que podem não ser interessantes”, conta.