São Paulo - Quando desembarcou no Brasil há quatro anos, o francês radicado nos Estados Unidos Olivier Grinda, de 27 anos, não falava uma palavra de português. Apesar disso, veio determinado a ficar.

Ele chegou com a família a tiracolo e com uma proposta: trazer para o país o modelo de clube de compras, que já prosperava lá fora. Ajudou a fundar o Brandsclub, um dos maiores sites do ramo no Brasil. Mas não parou por aí.

Pouco tempo depois faria parte do time que fundou o site de compras coletivas ClickOn, emplacando outro negócio de sucesso na internet brasileira. Com essa experiência na bagagem, qualquer um poderia ter pendurado as chuteiras. Mas ele queria mais. Com mais dois sócios embarcou em seu terceiro empreendimento: a Shoes4You, uma loja online que vende sapatos por assinatura. 

O empreendedor Olivier faz parte de uma nova geração de estrangeiros que está vindo em peso para o Brasil aproveitar o momento da nossa economia, mais propício a negócios do que mercados de países da Europa e da América do Norte.

Nos últimos quatro anos, mais de 200 000 estrangeiros receberam autorização do governo brasileiro para trabalhar de maneira temporária ou permanente no país. Esta é uma realidade com a qual o profissional local cada vez mais terá de conviver: a concorrência de estrangeiros bem qualificados.

Na bagagem, os que vêm para fazer a vida aqui trazem disposição para correr riscos, capacidade para se adaptar a uma vida completamente diferente e vontade de construir algo totalmente novo. “Quando se é imigrante, você abandona tudo que conhece para ter a chance de uma vida melhor”, diz Olivier. “Você corre um alto risco para ter um alto retorno”, diz ele, que não tem planos de deixar o Brasil. 

Mas, no lugar de competir, talvez seja mais importante aprender com os estrangeiros. Quando o assunto é trabalho, eles têm várias lições a ensinar. Essa é a tese do consultor Glenn Llopis, filho de imigrantes cubanos que construiu sua vida e carreira nos Estados Unidos.

Ele defende que a “perspectiva do imigrante” — suas experiências pregressas e sua forma de encarar a vida — o torna o candidato perfeito para assumir posições de liderança e criar negócios de sucesso nos países onde decide fixar raízes.

O argumento tem força: mais de 40% das empresas presentes no ranking das 500 maiores companhias americanas da revista Fortune foram fundadas por imigrantes ou por seus filhos, incluindo marcas consagradas como Apple, IBM, Disney e McDonald’s. No Brasil, há casos semelhantes: Gerdau, Votorantim e WEG são exemplos de empresas fundadas por imigrantes ou seus descendentes.

De acordo com Glenn, os imigrantes são mais abertos às oportunidades e se entregam a elas com mais paixão. Eles também são flexíveis e sabem se adaptar a condições adversas, já que muitos deixam seu país de origem após passar por crises e períodos de mudança intensa.

O problema, de acordo com o consultor, é que as empresas ainda não acordaram para essa realidade e, com isso, perdem oportunidade de se tornar mais inovadoras e competitivas.

“Ninguém sabe melhor sobreviver e se adaptar do que os imigrantes”, diz Glenn, que desenvolveu uma metodologia para fazer com que as companhias abracem a “perspectiva do imigrante” e façam dela um instrumento de mudança.

O consultor trabalha principalmente com grupos de imigrantes hispânicos nos Estados Unidos e já realizou trabalhos com grandes empresas, como a varejista Target, a operadora de cartões American Express e a rede de farmácias CVS, que em fevereiro deste ano anunciou a compra da drogaria brasileira Onofre.

O processo envolve palestras e treinamentos online e presenciais. “Nós os ensinamos a enxergar suas raízes culturais como vantagem e a usá-las para identificar oportunidades de melhoria no que fazem”, diz Glenn.

Entender o perfil do imigrante também é importante para o profissional brasileiro que tem a experiência no exterior como objetivo de carreira. Trata-se de um dilema vivido nos corredores de diversas empresas brasileiras no momento, diante da oportunidade de internacionalização de seus negócios — e em algumas multinacionais que atuam no país e querem enviar brasileiros para trabalhar no exterior.

“Os países emergentes tornaram-se mais relevantes no cenário global, e o fluxo de brasileiros para o exterior cresce em ritmo forte”, diz Tatiana da Ponte, sócia da consultoria Ernst & Young Terco, de São Paulo. Segundo um estudo da empresa sobre mobilidade global da força de trabalho, o número de projetos que exigirão deslocamento de pessoas entre países deve crescer mais de 20% nos próximos dois anos.

De acordo com Tatiana, as companhias ainda estão mal preparadas para lidar com essa realidade. “Faltam estratégias para a gestão dos talentos globais, e a escolha de quem vai se mover acaba tendo por critério as habilidades técnicas, o que é um equívoco, porque o funcionário às vezes não tem o perfil ideal para viver na condição de imigrante e acaba voltando antes do tempo”, diz Tatiana.

De acordo com o estudo, fatores pessoais, como problemas com a família e o choque cultural, são os maiores responsáveis pelo fracasso das expatriações. “Não basta ter a competência para a função, é preciso assumir certos riscos e estar disposto a se adaptar”, diz Tatiana.

Seja para quem vem para ficar, seja para quem vai para nunca mais voltar ou até para quem está de passagem, a regra é uma só: abrace o imigrante que existe em você.

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