Quando pensam em se candidatar a uma promoção, as mulheres precisam ter certeza de que têm 100% das atribuições exigidas. Se tiverem 99%, nem cogitarão almejar o cargo. Os homens são diferentes. Quando acham que têm cerca de 60% das competências, já correm atrás.

As informações fazem parte de uma pesquisa mundial feita pela empresa de tecnologia HP sobre o mercado de trabalho feminino e trazem à tona uma questão que tem assombrado cada vez mais mulheres: na vida profissional, elas são mais inseguras do que eles.

O que significa que, mesmo sendo maioria nas universidades e mesmo com as empresas começando a se empenhar com programas de inclusão e estímulo ao desenvolvimento das funcionárias, inconscientemente, elas sabotam o próprio crescimento. “Embora se prepare muito, a mulher ainda tem dificuldade de provar para si mesma e para a empresa que dará conta do recado”, diz Cris Kerr, organizadora do Fórum Mulheres em Destaque, de São Paulo.

Talvez esse seja um dos muitos motivos por que elas são exceção no alto escalão das empresas — entre as companhias que compõem o Guia VOCÊ S/A — As 150 Melhores Empresas para Você Trabalhar, só 7% têm mulheres na presidência.

Para entender o porquê dessa falta de confiança, as americanas Katty Kay e Claire Shipman, autoras do best-seller Womenomics, escreveram o livro The Confidence Code (“O código da confiança”, numa tradução livre, ainda sem edição no Brasil).

As autoras conheceram de perto mulheres poderosas e sentiram que, mesmo quando estavam no topo, elas achavam que não mereciam estar ali. “As mulheres falam que deram sorte de chegar aonde chegaram, coisa que os homens raramente dizem”, diz Katty Kay, em entrevista à VOCÊ  S/A. “Isso nos levou a questionar se as mulheres eram, de fato, menos confiantes.” E a resposta das autoras, depois de compilar pesquisas e conversar com várias profissionais, é “sim”. 

Além da questão comportamental, há explicações biológicas para isso. Falar que os hormônios influenciam as atitudes femininas não é só um clichê, mas um fato: cientistas descobriram que a atuação do estrogênio (principal hormônio feminino) no cérebro faz com que as mulheres tenham mais facilidade em criar laços e conexões e mais dificuldade para discordar e correr riscos — essas últimas atitudes são, muitas vezes, necessárias para aumentar a confiança.

Outro fator é que as mulheres costumam ativar a amígdala cerebral (parte fundamental do sistema límbico, que controla as emoções) com mais facilidade do que os homens. O resultado? Muito tempo gasto remoendo os erros do passado e temendo o futuro. A natureza não está a favor, mas dá para mudá-la. 

Menos neura, mais segurança

Confiança nada mais é, nas palavras do psicólogo Richard Petty, professor na Universidade de Ohio, nos Estados Unidos, do que “a coisa que transforma pensamentos em ação”. Por isso, as mulheres precisarão parar de pensar tanto e agir mais se quiserem ser mais confiantes. “Viver numa zona de conforto pode se tornar monótono e triste.

Portanto, ajam. A ação separa os tímidos dos ousados”, dizem Claire e Katty em um trecho do livro. Claro que é importante ponderar sobre o que fazer e sobre os riscos atrelados a cada passo — desde que isso não paralise a tomada de decisão.

Por mais difícil que seja, as mulheres têm de aprender a se posicionar e a bancar as próprias ideias, como faz Vanessa Castanho, de 42 anos, diretora de vendas e rede da Renault, fabricante de carros.

Primeira gerente regional da indústria automobilística brasileira, ela começou como estagiá­ria e precisou se posicionar (e se impor) para tornar-se respeitada em um universo masculino. “Não ajo como um homem e tenho um estilo próprio de trabalho”, diz Vanessa. “Mas não hesito: quando traço um objetivo, não penso se vou ou não cumpri-lo, mas como farei isso.” 

A segurança vem de dentro. Por isso, é fundamental olhar para si mesma e mapear as virtudes para aumentar a certeza de que é competente. Um cuidado deve ser tomado: não transformar essa avaliação em uma competição pessoal e pender para o perfeccionismo — descomunal nas mulheres. “Profissionais em altos cargos tendem à autocrítica e à exigência exageradas”, diz Pamela Magalhães, psicóloga de São Paulo.

Tudo pela sombra de que, para assumir certos cargos, deve-se provar o tempo todo que é a melhor opção.

Quem se transformou para lidar com o fantasma do perfeccionismo foi a advogada Camila Lastra, de 32 anos, ouvidora da SulAmérica Seguros, de São Paulo. “No começo, eu me dedicava umas 14 horas por dia, inclusive aos sábados, e ia para casa me sentindo culpada”, diz Camila. “Considerava qualquer erro bobo inadmissível.”

Mas, ao receber, em maio de 2014, a tarefa de resolver as demandas que a seguradora recebe todos os meses de clientes insatisfeitos, Camila decidiu que era hora de mudar. Fez terapia, reformulou a equipe e modificou processos que antes não surtiam efeito, como o de mandar e-mails em vez de telefonar para os clientes.

Em menos de um ano, a porcentagem de casos resolvidos sem nenhuma intervenção judicial saltou de 65% para 90%. “Confiar em meu trabalho e passar essa confiança para meus diretores e minha equipe foi fundamental para atingir esse resultado”, diz Camila. 

O mito da Mulher-Maravilha 

Conciliar a vida pessoal com a carreira é mais um fator que aumenta a insegurança feminina. Uma pesquisa feita pela consultoria McKinsey com mais de 1 000 pessoas mostra que, enquanto 86% dos homens acreditam que chegarão a ocupar um cargo executivo, apenas 69% das mulheres dizem o mesmo.

Outro levantamento, esse da consultoria Bain&Company, revela que, quando mulheres ingressam no mercado, metade aspira a um cargo de alta gerência. Após cinco anos, só 16% delas têm a mesma ambição, enquanto 34% dos homens acreditam que chegarão lá. A falta de confiança pesa, mas há outro problema: por achar que têm a obrigação de dar conta, sozinhas, de todas as responsabilidades profissionais e domésticas, as mulheres recuam quando se veem diante de uma promoção.

A autocrítica é tamanha que, apesar de estudos mostrarem que mulheres em cargos de liderança contribuem mais para o sucesso das empresas (quando compõem os conselhos de administração, trazem para as companhias um lucro bruto 48% superior), elas ainda se sabotam. 

A melhor maneira de contornar essa angústia é compartilhar as responsabilidades. A romena Alina Asiminei, de 38 anos, diretora de marketing e produto da Philips para a América Latina, empresa de bens de consumo, percebeu que dividir as atribuições pode ser a melhor maneira de aumentar a confiança.

Há dez anos no Brasil, com uma agenda cheia de viagens, Alina dá autonomia ao time, pois só assim tem tempo para fazer atividades que considera importantes, como buscar a filha na escola. “Gosto de ter sucesso, mas gosto de viver e, para isso, tenho de dividir responsabilidades”, diz Alina.

Só alcançamos um equilíbrio parecido com o de Alina quando deixamos de imaginar e começamos a fazer. Desistir de algo por achar que suas prioridades não são importantes é um erro que só aumenta a insegurança. Como dizem Katty e Claire: “Nada constrói mais a confiança do que a ação”. 

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