São Paulo - A inteligência emocional já virou um clichê do mundo corporativo. Desde que o americano Daniel Goleman lançou, em 1995, o best-seller Inteligência Emocional, o tema se tornou recorrente dentro das empresas — quase como um amuleto que garantia ascensão profissional.

A inteligência emocional sempre pareceu uma característica positiva, mas alguns estudiosos estão contradizendo essa teoria de que saber interpretar as próprias emoções e os sentimentos dos outros é sempre algo benéfico. Os professores Martin Kilduff, Dan S. Chiaburu e Jochen I. Menges lançaram uma tese, publicada pela escola de negócios da Universidade Texas A&M, na qual questionam o lado benéfico da inteligência emocional.

Segundo os autores, pessoas que têm essa habilidade elevada podem, também, desenvolver um lado maquiavélico, manipulando os outros com facilidade. Isso porque, de acordo com os estudiosos, os emocionalmente inteligentes mudam os próprios sentimentos para fabricar impressões favoráveis. Ou seja, fingem o que não sentem para conquistar um objetivo de ganho pessoal ou obter uma informação estratégica. 

Basicamente, a inteligência emocional tem três pilares: perceber as próprias emoções e as dos outros; usar o lado emocional para facilitar o pensamento; e entender as emoções e manejá-las em si mesmo e nos outros.

“Quem usa esses atributos com ética consegue criar empatia com mais facilidade e criar laços de liderança”, diz Rodrigo Fonseca, presidente da Sociedade Brasileira de Inteligência Emocional. Mas quem se deixa levar apenas pelos resultados positivos que a inteligência emocional pode proporcionar corre o risco de se tornar um manipulador.

Claro que, para isso, é preciso ter predisposição — algum traço de perversidade na personalidade que, estimulado pelo ambiente de alta pressão ou de clima tóxico, favoreça a atitude manipuladora. “Entre 4,5% e 6% das pessoas têm traços de perversidade”, diz Luiz Fernando Garcia, psicanalista e presidente da Cogni-MGR, consultoria de treinamento de São Paulo. “No mundo corporativo, esse índice sobe para 16%.”

Os manipuladores com alta inteligência emocional conseguem entender rapidamente quais são os sentimentos alheios e se a outra pessoa está passando por um momento delicado. “Eles costumam usar táticas de chantagem e dissimulação para pressionar o colega ou subordinado a fazer algo que vá gerar algum resultado positivo para o manipulador”, afirma Carlos Diz, do Centro de Neoliderança, do Rio de Janeiro.

Há maneiras de se proteger de um chefe ou colega que use a inteligência emocional para manipular os outros. A mais importante é desenvolver a consciência do que se passa ao redor. “Isso nos permite perceber o que está acontecendo e ter mais controle sobre se estamos ou não sendo coagidos”, afirma Carlos.

Essa consciência pode ser treinada por meio de meditação e de exercícios diários, como negar a assinatura de um jornal ou a doação para uma instituição de caridade. Só é manipulado quem permite — e dizer “não” para quem quer estimulá-lo a fazer algo é um escudo contra a manipulação.

Outro exercício é dar feedback objetivo ao manipulador. “Na hora de conversar, procure deixar claro o que você quer”, diz Luiz Fernando. Evite levar o diálogo para o lado pessoal e, ao concluí-lo, faça um resumo do que você quis dizer para inibir que o outro encontre brechas em seu raciocínio e as use contra você no futuro.

Tópicos: Atitude, Inteligência emocional, Liderança, Gestão