São Paulo - São 11 e meia da manhã e o escritório da Mead Johnson, multinacional de nutrição infantil, em São Paulo, está na penumbra, em silêncio quase total. Dos cerca de 60 funcionários, alguns trabalham normalmente enquanto outros estão imóveis diante do computador, de olhos fechados. É o momento da meditação na empresa.

Há quase dois anos a prática se repete: duas vezes por dia, de manhã e à tarde, parte da equipe interrompe o que está fazendo para meditar durante 25 minutos. Quem introduziu a ideia foi o próprio presidente, o argentino Nestor Sequeiros, de 46 anos, meditador experiente que apostou na atividade para melhorar o ambiente de trabalho.

“No primeiro mês, 12 pessoas aderiram à iniciativa. Hoje, o grupo soma mais de 30, o que representa 50% do staff”, diz Nestor. “É o momento de parar para respirar e recarregar as baterias.” De acordo com o executivo, o resultado é a melhora no relacionamento entre os departamentos, um maior esforço dos profissionais para solucionar problemas e até a diminuição das ausências por questões de saúde.

Cérebro turbinado

Parece mágica, mas não é. Os efeitos da meditação no bem-estar e na saúde são estudados desde os anos 70, e de lá para cá vários trabalhos revelaram que praticá-la regularmente, sem a necessidade de vínculo com qualquer religião, ajuda a aliviar o estresse e a ansiedade.

Mais recentemente, meditar virou febre no mundo corporativo graças aos benefícios comprovados para a redução da tensão e também para a manutenção do foco e a regulação dos impulsos emocionais — na prática, é como abrir uma brecha entre a emoção e o instante da decisão, evitando a reação impulsiva.

Isso porque, além de relaxar, a atividade é capaz de modificar estruturas e funções cerebrais, como mostrou um estudo realizado pela bióloga Elisa Kozasa, do Instituto do Cérebro do Hospital Israelita Albert Einstein, de São Paulo, uma das maiores pesquisadoras do mundo sobre os efeitos da meditação na saúde e nas funções cognitivas.

O trabalho, publicado na revista científica americana NeuroImage, comparou o cérebro de pessoas que meditam regularmente (pelo menos meia hora, três vezes por semana) e que não meditam. “As que não praticam precisam ativar mais regiões para realizar a mesma tarefa de atenção”, afirma Elisa. “É como se o cérebro de quem medita fosse mais eficiente.”

Outro estudo, conduzido por neurocientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, submeteu voluntários a um programa de oito semanas com 45 minutos de meditação por dia e revelou um aumento na capacidade de controlar um tipo específico de onda cerebral ativada por informações que geram distração e dissipam a atenção.

Ou seja, meditar devolve o foco, habilidade essencial, mas tão em falta em um mundo digital, acelerado e lotado de estímulos como o de hoje.

Foco no indivíduo

As mudanças velozes no universo empresarial exigem adaptações no modelo mental. “Não dá para enfrentar os problemas da mesma maneira de antes”, afirma Jair Moggi, sócio e diretor da Adigo Consultores, em São Paulo. “A meditação trabalha o equilíbrio entre razão e intuição, bastante valorizado nos negócios.”

Entre as gigantes de tecnologia e inovação, há quem trate a meditação como “a nova cafeína”, pela capaci­dade de aumentar a atenção e manter a mente alerta, e também, é claro, pelo que isso pode significar para a produtividade.

Facebook, Google e eBay já entraram na onda oferecendo aos funcionários programas de mindfulness (atenção plena, estado da mente consciente e focado no presente, atingido com exercícios de meditação), palestras com mestres budistas e espaços próprios para meditar.

No Brasil, há um projeto da Confederação Nacional da Indústria (CNI), ainda em desenvolvimento, para oferecer meditação como parte de um programa de combate ao estresse dos profissionais da CNI, do Sesi e do Senai.

Mas o movimento é visto com um pouco de desconfiança pelos especialistas em meditação, que enxergam o perigo de transformar a prática em autoajuda — algo a que se recorre para conseguir vantagem na competição corporativa, ganhar mais e influenciar pessoas. Sem falar sobre o temor de que as empresas obriguem os funcionários a meditar.

“Companhias que adotam os conceitos de mindfulness de olho nos resultados vão contra o que a prática defende”, diz Stephen Little, diretor do Centro de Vivência em Atenção Plena, em São Paulo. “A ideia é desenvolver habilidades para navegar na vida”, diz Stephen. Meditar faz bem, mas a decisão deve ser individual, sem pressão da sociedade ou do chefe. 

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