São Paulo - Em 2008, a especialista em marketing Julia Crespo, de 33 anos, pediu demissão de seu emprego no Rio de Janeiro e partiu para Xangai, onde ganhou uma bolsa de mestrado em economia. "Encarei a experiência como um diferencial enorme no meu currículo", afirma.

Durante os três anos que viveu na Ásia, recebeu diversos convites de trabalho de empresas chinesas que procuravam brasileiros com algum domínio de mandarim para ajudar em transações comerciais. Participar desses projetos durante o mestrado ajudou Julia a reforçar a impressão de que seria possível capitalizar profissionalmente a vivência na China.

Em 2011, quando retornou ao Brasil, Julia imaginava trazer na bagagem um currículo especial. Afinal, o volume de investimentos chineses no Brasil saltou de uma média de 80 milhões de dólares na década de 2000 para uma previsão de 25 bilhões de dólares em 2013, segundo o banco Itaú BBA.

Já as exportações de produtos brasileiros para a China chegaram a 41 bilhões de dólares em 2012. As cifras sugerem um mercado pujante, e em situações assim deveriam existir muitas oportunidades de trabalho.

O domínio do mandarim e o conhecimento da cultura e das práticas de negócio chinesas deveriam ser competências valorizadas por empresas que participam de transações bilaterais.  Deveriam, mas não é o que tem ocorrido com profissionais brasileiros que trabalharam na China.

De volta ao Brasil, Julia recebeu apenas duas propostas de trabalho que estavam relacionadas ao conhecimento que acumulou no exterior. A remuneração sugerida por esses empregadores era 40% inferior à da vaga que ela optou por assumir em uma multinacional norueguesa, sem qualquer vínculo com a China.

"Meus colegas de curso voltaram a seus países com um status mais alto, enquanto eu precisei mudar de área para encontrar uma boa oportunidade", diz. "Mesmo assim, considero minha experiência na China inesquecível e relevante para a qualidade de meu trabalho."

Nos últimos dez anos, muitos profssionais partiram para a China com a esperança de que o país oriental se tornasse o grande parceiro comercial do Brasil. Havia no ar a expectativa de que o fortalecimento das relações entre os dois países criasse novos negócios e esses negócios abrissem oportunidades de carreira. 

As transações entre os dois países prosperaram, mas as pessoas que apostaram na China como oportunidade de crescimento profissional nem sempre obtiveram o retorno esperado. Muitos se frustraram ao voltar para o Brasil e descobrir que os conhecimentos adquiridos são considerados específicos e de pouca utilidade na maioria das empresas.

O grupo Profssionais Brasileiros na China (PBC) reúne 800 conterrâneos que trabalham em cidades como Pequim e Hong Kong. Entre
eles, muitos já discutem como poderão ter suas habilidades aproveitadas quando retornarem ao Brasil.

A rede, que nasceu em Xangai há dois anos como um fórum de troca de informações e experiências de carreira e trabalho para os imigrantes brasileiros, com o tempo tornou-se uma espécie de vitrine profissional e frequentemente recebe consultas de empresas que buscam profssionais iniciados na cultura chinesa.

Agora o grupo está iniciando uma operação no Brasil e quer ajudar quem volta da China a encontrar trabalhos que valorizem a experiência adquirida. "O objetivo é diminuir o descompasso entre as expectativas e as oportunidades para profissionais", diz a advogada Fernanda Lomenso, do Rio de Janeiro, que participa da organização do grupo no Brasil e acaba de voltar da China.

Ela calcula que existam 300 profssionais no Brasil interessados em divulgar suas competências por meio do grupo. O Itamaraty estima que 6.000 brasileiros morem na China atualmente. 

Quanto vale no mercado a experiência em negócios na China? Na opinião de Fernando Marucci, diretor da Asap, empresa de recrutamento de São Paulo, morar no país oriental permite ao profissional adquirir experiências variadas de vida e de trabalho. Porém, a demanda de mercado por competências específicas, como cultura ou mandarim, é limitada no Brasil.

O enorme burburinho da década passada de que a China seria uma generosa fonte de empregos aparentemente foi demasiado e levou pessoas a fazer planos de carreira que, por enquanto, parecem equivocados. 

O que tem valor, afinal?

Entre as companhias globais, é comum que executivos já contratados sejam expatriados e depois retornem, o que restringe a contratação de profissionais de fora. Também nas multinacionais, a experiência de morar fora parece ter mais valor do que os conhecimentos locais.

"Somos uma empresa global e treinamos executivos globalmente, então a importância que damos à China é a mesma dada a qualquer país onde operamos", afirma Luciana Camargo, diretora de RH da IBM Brasil, de São Paulo. Ou seja, a experiência internacional tem valor, independentemente do destino escolhido. 

Atualmente existem 57 empresas de capital nacional instaladas na China, um número modesto, mas que cresce a cada ano, segundo o
Conselho Empresarial Brasil-China. "A presença chinesa vai continuar a crescer no Brasil", diz o advogado sino-brasileiro Reinaldo Ma, do Rio de Janeiro, sócio do escritório TozziniFreire.

Conforme esse número aumenta, espera-se que mais empresas percebam a importância de contar com profssionais que conhecem a cultura oriental e, talvez, com o tempo, o conhecimento de cultura chinesa se torne mais valioso para as empresas.

"O resultado dos negócios melhora muito quando o executivo está alinhado com o jeito chinês de negociar, habilidade que só se adquire em uma vivência longa no Oriente", diz a consultora Larissa Wachholz, que retornou de Pequim há um mês.

Quem conseguiu aplicar no trabalho a experiência adquirida comprova a importância desses conhecimentos. Fernanda, do grupo Profssionais Brasileiros na China, voltou ao Rio em setembro e já trabalha no Derraik e Menezes Advogados. "O escritório viu na minha contratação uma possibilidade de expandir os negócios na China", diz Fernanda.

Expectativa versus realidade

A frustração por não ter seus conhecimentos valorizados pelo mercado é comum na carreira. Para Rafael Faria, diretor da Fesa, empresa de busca de executivos, habilidades específcas têm demanda cíclica, e a especialização é como um investimento na loteria.

"A pessoa pode se aprofundar em um ramo momentaneamente em expansão no início da carreira, mas esse conhecimento pode se tornar obsoleto em poucos anos, o que deixa o profssional de mãos atadas", diz.

Um exemplo de área que vive ciclos de demanda é a geologia. O gaúcho Gerson Terra, de 60 anos, consultor sênior de geociências
da Petrobras, no Rio de Janeiro, viveu ciclos de alta e baixa em 38 anos de trabalho na empresa.

"Quando fui contratado, na época do milagre brasileiro, os geólogos eram extremamente demandados. Mais tarde, na década de 90, muita gente abandonou a categoria por falta de emprego, situação que melhorou com a virada do milênio", afirma. 

Com 25 anos de experiência em cargos executivos na área de tecnologia da informação, o paulistano Renato Maio, de 45 anos, precisou
se reinventar para manterse em uma posição estratégica.

Ele atuou como diretor de TI para a América Latina em três multinacionais e percebeu que o processo de globalização das companhias enfraquecia o poder de decisão dos líderes regionais, o que ia de encontro a seu desejo de participar ativamente do processo de decisões.

"Passei a receber ordens da matriz para ser executadas, logo, tornei-me um executor de luxo", diz Renato, que percebeu que as possibilidades de crescimento no mundo corporativo haviam se tornado restritas. A solução foi preparar-se para empreender. 

Cursou mestrado em finanças e gestão de TI e fez uma transição para a carreira de consultor. Diante de uma habilidade pouco reconhecida, o profissional deve se antecipar e procurar alternativas. 

"É preciso refetir se sua especialidade continua relevante e, em caso negativo, buscar desenvolvimento em áreas que se aproximem do foco original da profissão", afirma Telma Guido, especialista em transição de carreira da Right Management, de São Paulo. Essa avaliação de quanto vale seu conhecimento no mercado deve ser constante, e o melhor jeito de fazer isso, segundo Telma, é por meio de conversas com outros profssionais da mesma área.

Para Rafael Souto, CEO da consultoria de carreira Produtive, obsolescência de conhecimento ou falta de tempo para se atualizar não são
motivos para se acomodar. Mais importante é assumir as consequências pelas escolhas de carreira que foram feitas. "O profissional
que opta por ser uma exceção precisa criar estratégias para se manter no mercado", diz Rafael.

Ter um conhecimento específco pode garantir um emprego de destaque. O desafio é encontrar alguém interessado
em pagar por ele.

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