São Paulo - A farmacêutica americana CVS levantou polêmica quando, em março, anunciou que cobraria multa de 50 dólares por mês dos funcionários que se recusassem a fornecer informações pessoais como peso, índice de massa corporal e nível de glicose no sangue.

A exigência faz parte de um projeto da companhia de cortar custos com saúde, que devem passar de 12.000 dólares por empregado neste ano. No Brasil, a legislação trabalhista não permitiria descontos assim, mas o caso da CVS joga luz sobre um dos assuntos mais quentes para as empresas atualmente: os custos de saúde com o empregado.

Por que isso lhe diz respeito? Porque as empresas vão manter em seus quadros os funcionários saudáveis. Estudos científicos mostram que eles são mais produtivos, e o departamento financeiro sabe que eles custam menos para a empresa.

Hoje, a assistência médica é o segundo maior gasto da área de recursos humanos, atrás somente da folha de pagamentos. De acordo com um levantamento do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar, os gastos com planos de saúde no país deverão passar de 80 bilhões de reais até 2030, 35% mais do que em 2010.

E não é apenas o envelhecimento da população que empurra o valor para a estratosfera mas também o número de doentes crônicos (fumantes, pessoas com diabetes, hipertensão, obesidade, entre outros), que representam de 15% a 20% do quadro de empregados e consomem cerca de 80% do orçamento de saúde das empresas. 

Para tentar fechar a torneira, o investimento em prevenção aumentou. Mas não depende só do RH. De acordo com uma pesquisa feita pela operadora de saúde Omint com 15.000 executivos brasileiros, 95,5% deles não mantêm alimentação equilibrada, 44% são sedentários e 31,7% sofrem com estresse.

Um reflexo direto desses dados aparece na circunferência abdominal dos executivos: 38,6% estão acima do peso. Mas há também boas notícias. No estudo, 37,7% dos entrevistados planejavam incluir atividades físicas na rotina e outros 44%, ainda que não tenham tomado nenhuma atitude, afirmaram que pensam bastante no assunto.

Como da intenção para a prática há um abismo, só 26% dos avaliados adotaram um cardápio mais saudável recentemente.

Investimento polpudo

Segundo a pesquisa Global HR Barometer 2013, da consultoria Michael Page, as empresas em operação no Brasil investiram mais em programas de saúde e bem-estar do que a média global — 47%, ante 42%. A Aon, por exemplo, lançou o programa Aon Saudável, que oferece aos funcionários orientação nutricional, aulas de ioga dentro da companhia e organiza grupos de caminhada, corrida e trilha.

"O investimento é pequeno perto do que ganhamos em produtividade e economizamos com custos médicos", diz Márcia Lourenço, diretora de RH. "Depois dos incentivos, uma pessoa perdeu 30 quilos e muitas outras melhoraram o condicionamento. Estão até dormindo melhor", afirma Márcia.

O Grupo Algar, de tecnologia e serviços, foi mais longe e atrelou os cuidados com a saúde ao bônus. Para receber o valor integral, 297 executivos passam por avaliações clínicas periódicas e têm metas estabelecidas. No ano passado, 15 não cumpriram o plano e tiveram 10% de desconto no bônus.

A Natura optou por premiar os empregados. Os 120 funcionários inscritos no programa Tempo é Saúde passaram por exames e receberam metas individuais de alimentação e exercícios, que podem ser cumpridas com a ajuda do Clube Natura, que fica na sede da companhia, em Cajamar, São Paulo.

O local é equipado com academia, piscina, sala para aula de pilates e dança e bicicletas. No restaurante da empresa, a fritura foi abolida; os legumes e as verduras são orgânicos.

Ao fim do semestre, quem alcança a meta ou a ultrapassa ganha prêmios, que vão de produtos a uma viagem para o Nordeste. Desde o início do programa, o IMC médio dos inscritos caiu de 26 para 25,1 e a proporção de gordura corporal passou de 21% para 18%.

Sem vida pessoal

Longe de ser uma abordagem paternalista, a preocupação das empresas com a saúde tem origem na constatação de que, em muitos casos, o sobrepeso e as doenças crônicas dele decorrentes são provocados pelo estresse do trabalho. Foi o que percebeu a publicitária Erlana Castro, de São Paulo.

Ex-diretora de publicidade da Fiat para a Europa, com passagens pelas maiores agências do Brasil, ficava até 15 horas por dia no escritório e varava madrugadas entre cigarros e sanduíches.

"Amava meu trabalho e só vivia para ele. Eu me impunha essa carga." Workaholic, perdeu a conta de quantos aniversários, Natais e festas de família — inclusive o casamento dos irmãos — deixou de participar por achar que não podia se afastar nem por um fim de semana. Nem o namorado aguentou a carga de trabalho que ela se impunha. "Achei até melhor. Namorado, para mim, tinha virado distração."

Erlana só percebeu que havia algo errado quando passou a sentir dores no corpo. Foi ao médico e descobriu que estava com síndrome de Hashimoto, problema que afeta o funcionamento correto da glândula tireoide. "Cheguei aos 37 anos fumando 30 cigarros por dia, pesando 126 quilos, com a tireoide parada, tomando antidepressivos e hipertensa", afirma Erlana.

O diagnóstico preocupante foi o momento da virada: ou ela mudava seus hábitos ou, segundo o médico, morreria em alguns anos. Erlana teve de tomar uma decisão radical: pediu demissão porque o tratamento demandaria tempo e dedicação. Depois de uma dezena de consultas médicas, resolveu fazer a cirurgia bariátrica.

Perdeu quase 50 quilos e também deixou o cigarro, num processo que levou um ano e meio e contou com a ajuda de uma psicanalista. Hoje, aos 41 anos, lamenta não ter priorizado seus relacionamentos.

"Nem imaginava ter filhos, porque não queria nada que me tirasse do foco. É meu grande arrependimento", afirma. Mas ela comemora a vitória contra a balança, o novo namoro e uma relação bem mais saudável com o trabalho. "Estou superfeliz."

Liderança inspiradora

"Qualidade de vida é um assunto que está na pauta de todo mundo de recursos humanos", diz Américo Figueiredo, de 53 anos, vice-presidente global de RH da Nextel. Em vez de apenas propor políticas em prol da saúde, o VP de RH foi mais longe e deu ele mesmo um exemplo de mudança de estilo de vida aos empregados.

Há três anos, saiu dos 102 quilos para os atuais 81 em dois meses fazendo reeducação alimentar. “Fiquei assustado depois de descobrir que estava com uma capa de gordura no fígado. Meus joelhos e costas doíam, e eu não tinha energia para nada.”

Com a ajuda de uma nutricionista, trocou carboidratos e doces por castanhas e frutas, que devem ser consumidas de três em três horas, e começou a fazer 40 minutos de bicicleta ergométrica três vezes por semana. O esforço foi recompensado com uma agradável surpresa.

“Fui fazer exames para entrar em uma escola de pilotos, um hobby, e descobri que estava com o colesterol de um adolescente”, afirma. A mudança na silhueta do VP acabou inspirando outras pessoas na empresa. “Estou em uma posição clara de liderança e muita gente veio me perguntar da dieta. Alguns até já começaram a seguir o exemplo.”

Ainda que não trabalhe com gestão de pessoas, o empresário Guilherme Falchi, de 29 anos, também quis dar o exemplo. Ele decidiu emagrecer quando fundou a Expresso Nutri, empresa que vende opções saudáveis de lanches dentro de outras companhias. “Não dava para eu chegar gordo e feliz, com um bombom no bolso, querendo vender um estilo de vida saudável. Ninguém acreditaria”, diz.

A motivação fez com que ele mudasse a alimentação, parasse de inventar desculpas para não ir à academia e voltasse a praticar squash. Em seis meses, ele perdeu 24 quilos e pôde fazer, em sua opinião, uma das melhores coisas do mundo: renovar o guarda-roupa, porque tudo que ele tinha ficou enorme.

O sono e o humor melhoraram, a disposição voltou e, hoje, ele se sente apto a vender seu estilo de vida para qualquer um. “Para mim, qualidade de vida não é opcional”, afirma. 

“Alimentação e exercícios são uma questão de sobrevivência.” De fato, estudos da Universidade Harvard apontam que mais de 90% dos casos de diabetes, 80% dos casos de doenças coronarianas e 70% dos derrames podem ser prevenidos com um estilo de vida saudável.

Empresas e profissionais que ainda não entenderam isso e não adotaram uma atitude preventiva vão perder dinheiro ou pagar essa conta da pior maneira — com a própria saúde.

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