São Paulo - Dona de um pomposo currículo com apenas 25 anos, Isabel Pesce Mattos, empreendedora paulistana, conquistou uma legião de fãs que a elevaram ao status de guru de carreira dos jovens. Sua trajetória contada no livro digital A Menina do Vale se espalhou de forma viral pela internet, alcançando a marca de 1,5 milhão de downloads em três meses.

"Isso levando em conta apenas as cópias baixadas no meu site. Se considerarmos o compartilhamento entre amigos, esse número deve dobrar", diz a própria autora. A versão impressa, editada pela Casa da Palavra/Leya, vendeu 30.000 cópias. E ela já prepara um novo lançamento para maio. A fama serviu de incentivo para a guru lançar no início do mês o projeto educacional FazInova, um programa de três módulos voltado para o empreendedorismo.

"O objetivo é ajudar a desenvolver habilidades para abrir portas no mercado", diz Bel, como é conhecida. Mas o que ela tem de tão especial? A resposta é dela própria: “Não é genialidade, é persistência. Sou uma pessoa comum, que se esforçou para realizar seus sonhos”. É essa mensagem que ela repete em suas palestras e que vem motivando tantos jovens.

Bel Pesce acredita que o sucesso não vem sem esforço. Aos 17 anos, o sonho dela era cursar o renomado Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA). Para isso, assistia a todas as aulas de segunda a sábado em período integral. Nos rankings dos simulados do Colégio Etapa, em São Paulo, onde estudou, sempre esteve entre os primeiros colocados.

Mas o que chamou a atenção do diretor pedagógico, Edimilson Motta, foi o fato de ela ter resolvido todos os exercícios das apostilas do pré-vestibular e ter pedido mais.

"Descobri que ela tinha um nível de comprometimento muito elevado", diz Edimilson, que mostrou à jovem uma carta de admissão do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) de um antigo aluno. "Ele me disse que me via estudando lá. Então, resolvi me candidatar", diz Bel.

Uma das famosas histórias de suas palestras é justamente a saga para se candidatar ao MIT. "Quando eu descobri que queria o MIT, já era novembro, estava em cima da hora. Já não tinha mais prova para mim", conta. (A instituição envia exatamente uma prova por aluno inscrito.)

"Fiquei esperando na porta. Quando um candidato desistiu, pedi para fazer a prova dele, e deu certo." Outra peculiaridade da seleção é que um ex-aluno do MIT tem de entrevistar o candidato e mandar um relatório para os Estados Unidos. "Já não dava mais tempo de seguir o protocolo. Descobri onde um ex-aluno morava e bati à porta da casa dele, pedindo que me entrevistasse." E funcionou. 

No sonhado MIT, ela fez quatro cursos de graduação: engenharia elétrica com ciências da computação, administração, matemática e economia.

"Quis aproveitar a oportunidade ao máximo." No primeiro ano, Bel estagiou na Microsoft, como desenvolvedora. Depois, trabalhou no Deutsche Bank, como trading, e, em seguida, no Google, como pesquisadora. Foi esse emprego que a levou, em 2011, para o Vale do Silício, na Califórnia.

Lá, ela ainda trabalhou na empresa de vídeos Ooyala, onde, aos 22 anos, foi diretora de produtos e comandou uma equipe de 25 engenheiros — todos homens. Foi também no Vale do Silício que Bel Pesce lançou, ao lado do empreendedor Wences Casares — fundador do primeiro provedor de internet na Argentina —, o aplicativo Lemon Wallet, uma versão online da carteira do usuário, que o ajuda a fazer o controle financeiro. O programa já tem mais de 2,5 milhões de usuários no mundo.

Na sala de aula  

De volta ao Brasil, Bel Pesce resolveu lançar no país seu projeto educacional de empreendedorismo, motivada pela repercussão de seu livro. Nos últimos anos, cursos e pós-graduações com foco nessa temática têm proliferado no país.

Duas razões levam a isso, segundo especialistas ouvidos por VOCÊ S/A: o aumento do mercado consumidor brasileiro e o desgaste das carreiras tradicionais, que não seduzem os jovens tanto quanto antes. Mas a grande pergunta por trás da multiplicação dos cursos de empreendedorismo é: dá para ensinar essa habilidade na sala de aula?

Para Marcelo Marinho Aidar, coordenador do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, a habilidade para empreender está relacionada a uma série de características, como a capacidade de identificar oportunidades, o perfil realizador e estar aberto a correr riscos.

"Para empreender, é necessário talento. Não basta aprender a parte técnica", diz. Porém, ele acredita que a formação aumenta as chances de sucesso de quem tem esse talento. 

O professor Luiz Ferraz de Mesquita, do Instituto de Educação e Pesquisa (Insper), acredita que é necessária uma combinação entre teoria e prática: "Não se aprende a nadar lendo livros", diz. "Por outro lado, a pessoa também não sai nadando se a jogarmos num rio, certo?"

Mas, em sua opinião, alguns cursos têm falhado ao focar apenas em métodos e técnicas, negligenciando o ensino das rotinas mentais, que condicionam o empreendedor a estar sempre em busca de oportunidades e de novas soluções. De acordo com  Marcos Wettreich, fundador do site IBest, os cursos são complementos.

"Para ser empreendedor, basta estar no lugar certo na hora certa. Mas, para não ter que contar com a sorte, é bom ter competências mínimas e se preparar", diz. Na opinião de Bel Pesce, todos podem aprender a empreender.

"Empreender é um modo de pensar no qual um problema maior é quebrado em hipóteses menores e, a partir daí, cada hipótese é testada. Com perseverança e iniciativa, todos podem empreender", afirma. 

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