Velozes e bilionários com Carros 2

Com a recém-lançada animação Carros 2, a Disney parte para a criação da maior franquia da história do cinema — um projeto que supera 25 bilhões de dólares

São Paulo – Há pelo menos dez anos, uma legião de fãs de animação aguarda ansiosamente cada novo lançamento da Pixar, o badalado estúdio cinematográfico adquirido pela Disney em janeiro de 2006. Títulos como Procurando Nemo, Monstros S.A., Os Incríveis e Toy Story 3 já arrastaram aos cinemas mais de 500 milhões de pessoas — e renderam aos criadores do Mickey Mouse 6,5 bilhões de dólares em bilheteria.

Com Carros 2, o filme mais recente da Pixar, não foi diferente.  Lançado internacionalmente em 24 de junho, a animação teve o quinto melhor fim de semana de estreia da história do estúdio nos Estados Unidos, com uma bilheteria de 68 milhões de dólares. Sagrou-se também a sétima animação do mundo em bilheteria global no fim de semana de lançamento, com 110 milhões de dólares.

Mais do que vender ingressos de cinema, com Carros 2 a Disney coloca em ação um projeto bem mais ambicioso: criar a maior franquia de cinema de todos os tempos, à frente de fenômenos como Guerra nas Estrelas e Harry Potter, que já renderam cada um deles 25 bilhões de dólares a seus estúdios.

Desde 2006, quando o primeiro Carros foi lançado, a animação já faturou 10 bilhões de dólares entre venda de ingressos e produtos licenciados — a expectativa agora é que a continuação renda pelo menos outros 15 bilhões.

“Estamos trabalhando há um ano e meio na divulgação de Carros 2”, diz Andrea Salinas, diretora de marketing da Disney no Brasil. “A franquia Carros é atualmente uma das principais apostas da Disney.” 


Para chegar a cifras tão elevadas, a Disney traçou um plano minucioso. Desde o início, ficou estabelecido que Carros 2 se passaria em um circuito internacional de corridas, e não somente nos Estados Unidos, como no primeiro filme. Com isso, o estúdio pôde aumentar o número de personagens de 32 para 44.

Países aficionados a automóveis, como Itália, Brasil, Japão e Inglaterra, ganharam destaque — há até um carrinho representando o príncipe William. Ao mesmo tempo, a Disney contratou um time de astros globais do esporte e do cinema para dublar a animação — em muitos casos, os coadjuvantes ganharam vozes mais estreladas do que os protagonistas.

É o caso, por exemplo, da italiana Sophia Loren, escolhida para dublar a Romiseta Mama Topolino. Embora apareça por poucos minutos da trama, a personagem fez tanto sucesso que a Disney decidiu manter a voz de Sophia até na versão americana, utilizando-se de legendas — algo impensável para os padrões cinematográficos daquele país.

No Brasil, as vozes ficaram por conta da cantora baiana Claudia Leitte e do ex-piloto de corridas Emerson Fittipaldi, que substitui o também piloto britânico Lewis Hamilton na voz de um esportivo da escuderia McLaren.

Enxurrada de brinquedos

Uma vez criados os personagens, a Disney partiu para a maior ofensiva de licenciamento da história do cinema — a matemática, nesse caso, não poderia ser mais óbvia: mais personagens produzem mais brinquedos. Só a Lego e a Mattel, principais parceiras da Disney na empreitada, devem colocar nas prateleiras cerca de 300 brinquedos com os personagens de Carros 2 até o final do ano que vem — a rede de brinquedos Toys R Us, a maior dos Estados Unidos, vai receber 70 bonecos exclusivos.

Além disso, associações com empresas de ramos tão diversos quanto Kimberly-Clark, Avon e Hasbro devem inundar o mercado com mais de 2 000 produtos, entre lenços de papel, lancheiras e uma linha de colônias — um número 30% maior do que o verificado no primeiro Carros.


Paralelamente, a Disney vai desembolsar 1 bilhão de dólares para construir uma área de 50 000 metros quadrados dedicada à franquia em seu parque na Califórnia (uma espécie de primo pobre dos parques temáticos da Flórida). A ideia é que o filme renda aos cofres da Disney algo em torno de 3 bilhões de dólares por ano, fazendo-o superar em 200 milhões de dólares a bem-sucedida franquia Toy Story.

“Para promover um filme, é preciso criar certo buzz em torno dele”, diz o consultor britânico Sean McPheat, especializado em entretenimento. “E a Disney sabe fazer isso como ninguém.”

Um mês antes de ser lançado, o trailer de Carros 2 já havia sido visto mais de 20 milhões de vezes no YouTube. A página da animação no Facebook conta atualmente com mais de 4,3 milhões de fãs — só perde para hits como Toy Story e Procurando Nemo dentro da Pixar.

A escolha de Carros 2 como a primeira continuação da Pixar desde que a empresa foi adquirida pela Disney é tudo menos aleatória (até então, apenas Toy Story havia recebido uma sequência, em 1999). Embora o primeiro filme não tenha sido exatamente um sucesso de público e crítica, arrecadando 462 milhões de dólares em bilheteria — bem abaixo da média de 600 milhões da Pixar —, Carros provou-se um sucesso retumbante em termos de licenciamento.

Os carrinhos continuaram faturando cerca de 2 bilhões de dólares por ano mesmo depois de terem saído de cartaz graças, em grande parte, ao fato de a Disney lançar produtos novos até hoje (foram 600 brinquedos no total). Numa indústria às voltas com custos de produção cada vez mais altos e vendas de DVD em queda, não é pouca coisa.

Para efeito de comparação, o filme Alice no País das Maravilhas arrastou multidões ao cinema em 2010, mas rendeu à Disney apenas 190 milhões de dólares em licenciamento. Na esperança de garantir o sucesso dos próximos filmes, a Disney vai dedicar neste ano 80% de sua verba cinematográfica para produzir continuações, ante 60% no ano passado.

Além de uma sequência para o hit Monstros S.A., prevista para 2013, o estúdio vai lançar também a animação Aviões, um filhote da série Carros (trens e barcos devem ser os próximos). Prova de que, para a Disney-Pixar, Toy Story pode até ser o filme mais amado pelo público — mas, quando se trata de ganhar dinheiro, ninguém supera os carrinhos.