As eleições deste ano vão deixar uma conta de arrasar

O Brasil, mais uma vez, vai sobreviver a tudo o que for feito pelos que estão no poder com o intuito de tentar continuar no governo. Mas pagará por isso um preço incalculável — à vista e ao longo dos próximos anos

São Paulo – Conseguirá o Brasil sobreviver à campanha eleitoral de 2014? Certamente sim, levando-se em conta que países são entidades notoriamente dotadas de couro grosso e beneficiárias de um notável instinto de sobrevivência; sua grande diferença em relação aos gatos é que os gatos só têm sete vidas.

A prova disso é que o Brasil, de uma forma ou de outra, já chegou aos 514 anos de existência, apesar de tudo o que foi feito para assegurar sua destruição. Já resistimos à saúva, à ignorância extrema e à febre amarela, e saímos vivos de praticamente todas as modalidades de desgoverno que o ser humano é capaz de imaginar.

Tudo leva a crer, assim, que o Brasil não entrará em liquidação depois dos desastres que os donos atuais do poder vão causar, até o fim do ano, para se manter no governo.

Vai continuar vivo — mas pagará um preço incalculável, à vista e ao longo dos próximos anos, como resultado da guerra aberta contra o Erário, a decência e o interesse público que as forças da situação estão travando para continuar agarradas ao osso.

Não se sabe quem ganhará a eleição presidencial de outubro, apesar do favoritismo da presidente Dilma Rousseff e das imensas vantagens materiais que ela terá na campanha. Tanto faz. Com o vale-tudo já em curso, é certo que o país vai ficar com um mico colossal — essa, sim, uma herança realmente maldita que Dilma deixará para si própria ou para quem ficar em seu lugar.

Empresas, instituições e cidadãos, portanto, fariam bem em preparar um manual de sobrevivência para o futuro próximo. Há muito tempo só se pensa numa coisa em Brasília: o que serve ou não serve para a reeleição de Dilma, e que medidas podem ser tomadas para ajudar a campanha oficial.

Os últimos dias têm sido especialmente instrutivos a esse respeito. Anote-se, por exemplo, a conduta do Palácio do Planalto na compra do apoio das “gangues partidárias” — como a ex-senadora Heloísa Helena, do PT, chamava os partidos anões que prosperam unicamente à custa do dinheiro público, trocando alianças com o governo por ministérios, cargos públicos, verbas federais e todos os benefícios que puderem carregar.

Nunca houve, nesse tráfico, a mais remota cautela em disfarçar a natureza ­real dos acordos entre as partes — a entrega de pedaços inteiros da administração pública a cidadãos privados em pagamento por seus votos no Congresso Nacional e sua adesão às chapas eleitorais do governo.

No presente momento de nervosismo com a campanha, porém, a presidente decidiu ir aos extremos na ânsia de embolsar mais 1 minuto aqui e ali de propaganda obrigatória na TV e no rádio.

Entenda-se: esses minutos tornaram-se a questão estratégica número 1 do governo brasileiro, e para obtê-los o PT, a presidente da República e o ex-presidente Lula estão privatizando áreas-chave da administração em favor de indivíduos que pensam exclusivamente em tirar delas proveito econômico, político e pessoal.

O negócio mais recente que o governo fechou foi a entrega do Ministério dos Transportes, um dos mais ricos e conturbados da Esplanada, ao PR, grupo cujos integrantes rivalizam entre si na acumulação de prontuários criminais por suspeitas de prática de corrupção. Seu comandante, Valdemar Costa Neto, despacha atualmente do Complexo Penitenciário da Papuda.

O caso é particularmente chocante. O ministro atual, Cesar Borges, que até outro dia contava com o apoio público e fervoroso de Dilma, foi demitido e seu cargo entregue ao PR. Por que isso? Qual é a nova filosofia de transportes que o PR pretende implantar? O que está errado com Borges? Quais os méritos técnicos dos novos proprietários?

O mais bonito na história é que o substituto de Borges foi seu antecessor exatamente no mesmo cargo. Dilma pôs o homem na rua há pouco mais de um ano, em meio a denúncias de superfaturamento de obras.

O PR não é uma exceção. PP, PSD, PRB, Pros e outros colossos da política brasileira estão com fome e querem vender seus minutos na mesma moeda. A conta final a pagar, como se vê, vai ser um arraso. Prepare-se.