Um sócio de 15 bilhões de reais para a Cemig

Após a Andrade Gutierrez comprar um terço de suas ações em 2010, a elétrica mineira Cemig dobrou de valor na bolsa e superou a Eletrobras. A receita: virou uma estatal com jeito de empresa privada

São Paulo – O mercado de energia elétrica é um tédio. Não sem razão, as grandes empresas do setor são conhecidas como as mais estáveis — e menos emocionantes — de uma economia. Enquanto a indústria e o varejo precisam rever estratégias, políticas de preço e tudo mais de acordo com cada momento, as companhias de energia vivem numa espécie de bolha. 

Seus resultados oscilam pouco, tanto em momentos de euforia quanto de turbulência. As pessoas podem até desistir de trocar de carro, mas continuam a acender e apagar a luz em qualquer cenário econômico. Consequentemente, as ações dessas empresas seguem uma marcha constante, meio que alheias ao sobe e desce da bolsa. 

O desempenho recente da Cemig, estatal mineira de energia, rompe com essa lógica. Em 2011, em meio à crise internacional, o valor de mercado de todas as empresas elétricas subiu — algo natural, uma vez que os investidores procuram exatamente as estáveis companhias elétricas em horas de crise.

Mas mesmo em 2012, num momento em que as ações ligadas ao consumo é que estão em alta, a Cemig continua no topo. A valorização no ano foi de 35%. Nos últimos dois anos, desde que a Andrade Gutierrez comprou uma fatia de 33% da empresa, seu valor de mercado saiu de 14 bilhões para 29 bilhões de reais e ultrapassou até mesmo a estatal Eletrobras, avaliada em 25 bilhões de reais. A Cemig, do tedioso setor elétrico, virou uma das estrelas da bolsa.

Como isso aconteceu? Dois fatores explicam a euforia sentida pelos investidores após a entrada da Andrade Gutierrez no capital da Cemig. O primeiro é um arrojado plano de expansão que pretende fazer da Cemig a segunda maior empresa de energia do país até 2020, atrás apenas da Petrobras.

Para chegar lá, a ordem é comprar qualquer empresa lucrativa que atue no mercado de energia — e não apenas em energia elétrica. “Analisamos qualquer oportunidade em eletricidade, gás e até petróleo”, diz Djalma Morais, presidente da Cemig. Nos últimos 12 meses, a empresa investiu 4 bilhões de reais em aquisições.

Comprou 50% da Renova, de energia eólica, investiu na hidrelétrica de Belo Monte, nas distribuidoras Gasmig e Gás Brasiliano e ainda comprou 100% da transmissora espanhola Abengoa. Juntas, as 120 empresas que compõem a Cemig faturaram 23 bilhões de reais em 2011, crescimento de 14% em relação ao ano anterior.


Mesmo gastando tanto em aquisições, a margem de lucro se manteve na casa dos 33%. Esses números têm relação direta com o desempenho das ações. Desde 2004, a Cemig se compromete a distribuir 50% do lucro em dividendos aos acionistas. Os resultados darão a 115 000 investidores em 40 países o direito de dividir uma bolada de 1,3 bilhão de reais — um recorde para o setor elétrico.

O segundo fator que explica o entusiasmo com a Cemig é uma profunda mudança em sua gestão — que fez dela uma estatal com jeito de empresa privada. Entre 1997 e 2010, a empresa teve como principal investidor a companhia elétrica americana AES, que detinha 33% das ações.

A AES levou à Cemig uma visão empresarial rara entre as estatais brasileiras e ajudou a desenhar seu plano de expansão por aquisições. Mas sua passagem foi marcada por uma briga pública com o governo de Minas Gerais, controlador da companhia, e com o BNDES, credor de uma dívida de 2,1 bilhões de reais contraída pela AES em 1997 justamente para comprar a participação na Cemig.

A disputa foi resolvida em janeiro de 2010, quando a Andrade Gutierrez comprou a fatia da AES e entrou para o bloco de acionistas. Foi quando as mudanças na gestão começaram para valer. Além de quatro cadeiras no conselho de administração, a Andrade recebeu o direito de indicar o executivo responsável pela diretoria de novos negócios, criada em 2011.

Seu papel é fazer uma análise mais criteriosa dos investimentos. EXAME apurou que foi graças ao novo sócio que a Cemig investiu na hidrelétrica de Belo Monte e desistiu de comprar 21% da portuguesa EDP, em dezembro, por ter considerado o negócio caro demais. “No passado, a Cemig ficou queimada por comprar empresas ruins. Com a Andrade, está claro que eles não vão fazer qualquer negócio”, diz Rafael Andrea­ta, analista da corretora Planner.

Integração

Em 2011, a Cemig também começou a dar mais atenção aos custos, com um inédito projeto de integração entre suas­ mais de 100 empresas. Entre julho e dezembro, a consultoria McKinsey fez uma análise detalhada do grupo e identificou 21 oportunidades de corte de custos para os próximos três anos.


Entre as mais importantes estão a criação de um único centro de atendimento ao consumidor e a unificação de todos os departamentos de compras. Pelos cálculos do vice-presidente Arlindo Porto Neto, coordenador do projeto, a economia anual pode chegar a 600 milhões de reais.

Outra prioridade para o ano foi fortalecer a meritocracia — prática bastante difundida no setor privado, mas raríssima entre as estatais. Historicamente, a companhia distribuía uma fatia de seu lucro entre todos os funcionários, sem que para isso fosse preciso cumprir meta alguma.

Neste ano, os 8 700 funcionários serão avaliados individualmente. Quem não superar os objetivos não vai receber bônus. Mas os melhores funcionários poderão levar até seis salários extras por ano.

Por ter entrado em sua trajetória de crescimento por aquisições, a Cemig passou a correr riscos não muito típicos do setor elétrico. A dívida da empresa, de 15 bilhões de reais, nunca foi tão alta. A chave para que seu plano de expansão dê certo é encontrar os alvos certos — caso erre a mão, acabará cheia de dívidas e com negócios pouco rentáveis.

Mas, no curto prazo, as notícias devem continuar boas. Em junho, está prevista a abertura de capital da Taesa, empresa de transmissão de energia da Cemig. Em 2012, a Cemig terá um estímulo extra para comprar empresas. A companhia está em fase final de negociação com o governo mineiro para receber, à vista, uma dívida de 5,6 bilhões de reais que estava prevista para ser paga em parcelas até 2032.

Analistas calculam que, após a negociação, a Cemig receberá cerca de 3 bilhões de reais. O valor poderá ser usado para iniciar uma nova etapa de aquisições ou para pagar dividendos ainda mais robustos aos acionistas — que não estão com a menor saudade dos tempos de estatal com cara de estatal.