Saco do Mamanguá, um refúgio para poucos

Único fiorde brasileiro, o Saco do Mamanguá, no litoral do Rio de Janeiro, tornou-se um dos destinos favoritos dos homens de negócio

A costa brasileira esconde um refúgio perfeito para um tipo bem específico de turista — aquele que pode se locomover de barco ou de helicóptero. Trata-se do Saco do Mamanguá, um conjunto de praias de apenas 12 quilômetros de extensão perto da cidade de Paraty, no Rio de Janeiro.

Com um acesso tão complicado, o Saco do Mamanguá vem se transformando num ponto de encontro de homens de negócio e executivos que velejam até lá para se espairecer da semana conturbada que tiveram.

A extensa lista de freqüentadores assíduos do lugar inclui nomes como Otávio Marques de Azevedo, presidente da Andrade Gutierrez Telecom, Gilberto Ramalho, proprietário do estaleiro Intermarine, e Alexandre Negrão, dono da farmacêutica Medley. Os dois últimos gostaram tanto do lugar que construíram mansões lá.

É fácil compreender por que o Saco do Mamanguá vem atraindo esse tipo de turista. O recanto não é apenas mais uma praia entre as milhares do litoral brasileiro, com águas transparentes, cardumes de peixes coloridos e visitas freqüentes de golfinhos. Há uma característica no lugar que o torna uma atração incomparável: seu desenho levou os geógrafos a qualificá-lo como o único fiorde brasileiro.

Os fiordes (golfos profundos, perfeitos para passeios de barco) são as principais atrações da Noruega e rota disputada de cruzeiros. Com características mais tropicais, o Saco do Mamanguá comporta barcos de menor porte. Outra razão é a tranqüilidade.

Até pouco tempo atrás, nem o celular pegava no Saco  do Mamanguá. A eletricidade é restrita a poucos lugares e não há nenhum tipo de comércio na região — ou seja, um paraíso para os que desejam sossego. Entre as acomodações disponíveis para quem vem de fora, há casas rústicas, com luz de lampião, 15 chalés alugados  por quatro famílias locais, além de outros com mais conforto.

A ida constante de visitantes ilustres, claro, está transformando o lugar aos poucos. O celular já pega (mal) e postes de eletricidade começaram a ser construídos em janeiro. Alguns desses turistas não se contentaram em desfrutar do fiorde apenas nos fins de semana e decidiram erguer casas.


Chamar as construções de casas, aliás, é fazer pouco das ambições arquitetônicas dessa turma. A mansão de Negrão tem sete bangalôs, sauna, vestiário, salão de jogos, garagem para barcos, heliponto, píer e uma ponte — além da mata Atlântica como jardim, repleto de bromélias e palmeiras. Imensos gramados, decorados com espreguiçadeiras, terminam direto na areia branca, onde ficam estacionados caiaques e pranchas de windsurfe.

As mansões se multiplicaram na parte mais nobre do Saco do Mamanguá, a Reserva Ecológica da Juatinga. Todas têm geradores próprios — alguns movidos a energia solar. À noite, holofotes iluminam as fachadas, que passaram a ser vistas do outro lado da margem, a 1 quilômetro de distância.

O avanço das construções fez com que o fiorde se tornasse motivo de polêmica. Em fevereiro, os proprietários das mansões sofreram um poderoso baque — uma blitz do Ibama, com auxílio do Exército, detectou uma série de irregularidades nas construções e ordenou a demolição de 20 delas.

Entre as casas na mira do Ibama está justamente a de Alexandre Negrão, que já foi autuado três vezes, num total de 1,3 milhão de reais. O embate entre os ecologistas e os visitantes não se resume à licença das casas. O projeto de construção de uma marina foi interrompido. A empreiteira pretendia também abrir uma estrada ligando o Mamanguá a Ubatuba, em São Paulo, mas a obra está embargada. Para quem não pode ir de barco ou helicóptero (pelo menos por enquanto), a única maneira de chegar lá é vencer uma trilha que, percorrida em ritmo acelerado, dura 3 horas.