Trump completa 3 meses entre brigas e promessas não cumpridas

O presidente dos Estados Unidos assumiu dizendo que sua experiência na inciativa privada daria agilidade ao governo, mas até agora entregou muito pouco

Nova York — Uma das expressões do mundo dos negócios prediletas dos americanos é underpromise and overdeliver, ou seja, “prometer menos e entregar mais”. Donald Trump, o bilionário eleito para a Casa Branca em parte por seu suposto talento como administrador, tem feito exatamente o contrário. O dia 29 de abril, que marca os primeiros 100 dias de governo, está à vista, mas Trump tem pouco para mostrar.

O executivo vaidoso e falastrão que gosta de usar o termo “perdedor” para se referir aos adversários comemorou muito pouco nestes primeiros três meses. O que não faltaram nesse período foram problemas: manchetes quase diárias sobre as relações aparentemente íntimas entre seus oficiais de campanha e representantes da Rússia durante o período eleitoral, a derrota do plano de acabar com a iniciativa de saúde concebida pelo ex-presidente Barack Obama e a escalada da guerra interna entre seus assessores mais próximos. Com índices recorde de reprovação e uma maioria no Congresso pouco disposta a apoiar seus projetos mais importantes, o começo do mandato não poderia ter sido mais difícil para o presidente que vendeu aos eleitores a ideia de que sua experiência no setor privado daria mais agilidade ao governo.

No “Contrato com o eleitor americano” — documento disponível no site de sua campanha —, o candidato prometeu uma série de medidas e leis que comporiam seu plano de ação de 100 dias. Entre elas estavam a renegociação do Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), para “proteger os trabalhadores americanos”, e a designação da China como um país que manipula o câmbio. Também havia o compromisso de só criar novas regulamentações federais mediante a eliminação de duas antigas. Entre as leis mais ambiciosas a ser negociadas com o Congresso, o candidato Trump prometeu o corte de impostos e a simplificação do código tributário, um projeto de investimentos de 1 trilhão de dólares em infraestrutura ao longo de dez anos e a reforma das leis de imigração, que incluiria a construção de um extenso muro na fronteira dos Estados Unidos com o México.

Nada disso foi feito. Mesmo descontando exageros do período eleitoral, a avaliação é que Trump até agora está patinando. “Estamos falando de um governo que ainda não se encontrou”, afirma Ester Fuchs, professora de ciência política na Universidade Colúmbia, em Nova York. Ester fala com a sabedoria de quem conhece a máquina pública: ela trabalhou durante quatro anos na prefeitura de Nova York como assessora do ex-prefeito Michael Bloomberg. “O desafio de operar em Washington é enorme para todo novo presidente, especialmente para Trump e sua equipe, que não têm nenhuma experiência de governo.”

O fracasso épico da tentativa de acabar com o Obamacare, como é conhecido o programa de saúde instituído por Obama, deixou clara a inabilidade do governo de transformar as promessas em realidade. “Revogar e substituir o Obamacare” foi uma das frases mais repetidas por Trump durante a campanha, e as condições para fazê-lo não poderiam ser mais adequadas: tanto a Câmara quanto o Senado estão sob controle do Partido Republicano.

Mas alguns colegas de partido do presidente simplesmente se recusaram a entrar no barco anti-Obama quando chegou a hora H. O projeto apresentado ao Congresso poderia deixar 20 milhões de americanos sem nenhum tipo de cobertura médica ao longo da próxima década. O risco de apoiar uma medida tão impopular era grande demais para alguns partidários do presidente. No fim de março, sem a garantia dos votos necessários para a aprovação, o projeto foi retirado da pauta de votações horas depois de o governo garantir que não recuaria e ameaçar os deputados rebeldes. “Hoje aprendemos muito sobre lealdade. Aprendemos muito sobre o processo de conquista de votos”, disse Trump logo em seguida.

Será que agora vai?

O próximo objetivo declarado do novo presidente é a reforma fiscal. Mas, dada a complexidade do tema e a inépcia da Casa Branca no toma lá dá cá com deputados e senadores no episódio Obamacare, o prometido corte profundo nos impostos também está longe de estar certo. Propostas de reforma fiscal costumam ser ótimas ideias no papel, mas na prática são algo extremamente complicado. A última ampla reforma do sistema tributário americano aconteceu em 1986, quando o então presidente, Ronald Reagan, obteve um acordo histórico com os democratas. Desde então, dezenas de deduções, isenções e créditos foram acrescentados — todos eles obras de parlamentares que vão lutar com unhas e dentes para mantê-los.

Nem sequer em seu círculo mais próximo Trump tem tido sossego. Os relatos da imprensa americana dão conta de uma guerra aberta entre o estrategista-chefe, Stephen Bannon, apontado como o responsável pelo fervor nacionalista e anti-imigração do presidente, e Jared Kushner, genro de Trump, considerado um defensor de políticas menos radicais e mais pragmáticas. Num conflito comparado com a sanguinolenta série de TV Game of Thrones, especula-se que somente um deles sobreviverá, ocupando sozinho o posto de “Mão do Rei”, ou o conselheiro mais influente do presidente.

Depois do fiasco do decreto que proibiu a entrada nos Estados Unidos de cidadãos vindos de sete países majoritariamente muçulmanos e após declarações recentes de Trump voltando atrás nas ameaças de uma guerra comercial com a China, Bannon estaria em baixa. Kushner, que quer priorizar medidas que acelerem a economia, foi um dos responsáveis pelo encontro de cúpula de Trump com o presidente chinês, Xi Jinping, na Flórida.

Esse relacionamento promete ganhar cada vez mais os holofotes em razão dos projetos nucleares da Coreia do Norte, pois a China é considerada parte essencial da política de contenção dos norte-coreanos. O presidente pode ter enfurecido parte de seu eleitorado por não ter entregado a promessa de hostilizar a China, mas ganhou algum crédito da parte dos especialistas em relações internacionais por ter buscado uma alternativa diplomática. Prometeu aos chineses um acordo de livre comércio camarada se eles ajudarem a segurar os testes nucleares da Coreia do Norte.

Trump obteve algumas vitórias nestes 100 primeiros dias. A mais importante delas talvez tenha sido a aprovação de Neil Gorsuch para a vaga em aberto na Suprema Corte do país. Gorsuch, um conservador de 49 anos, tem assento vitalício na mais alta instância da Justiça americana, e sua influência se fará presente por décadas. Outra vitória de Trump ocorreu no plano internacional.

Depois de anos de indecisão, os Estados Unidos finalmente demonstraram que as barbaridades cometidas pelo governo sírio — como o ataque com armas químicas no começo de abril — não ficarão impunes. Um envolvimento maior das forças americanas ainda é considerado improvável, especialmente porque o governo sírio do presidente Bashar Al Assad conta com o apoio da Rússia. Mas a ação decisiva de Trump marcou um contraste importante com a hesitação reinante nos anos em que Obama era o chefe das Forças Armadas.

Avaliar um mandato de quatro anos pelos seus primeiros 100 dias não parece uma medida muito razoável. Afinal de contas, trata-se de menos de 7% do tempo que o governante vai passar no cargo — se o presidente em questão não for eleito para um segundo mandato, claro. A métrica tem origens no primeiro mandato de Franklin Roosevelt, eleito presidente dos Estados Unidos em 1933.

Diante de uma economia devastada pela Grande Depressão e de um país desalentado, Roosevelt queria mostrar aos americanos que atuaria de forma rápida e decisiva para recolocar o país nos trilhos. Horas depois de assumir a Casa Branca, o novo presidente americano reuniu seus ministros e os colocou para trabalhar. Nos três meses seguintes — os tais 100 dias, que na realidade foram 105, segundo os historiadores —, o novo governo conseguiu aprovar 15 leis importantes no Congresso. Era o New Deal, conjunto de medidas intervencionistas que salvaram a economia americana do colapso completo.

Como Roosevelt, Barack Obama assumiu a Casa Branca em meio a uma grave crise financeira. Em seus primeiros três meses, Obama obteve a aprovação do pacote de estímulo econômico bilionário pós-bolha imobiliária e plantou a semente da reforma do sistema de saúde (que só viria a ser aprovada anos depois). Nem todas as primeiras medidas de Obama foram bem-sucedidas: o fechamento da prisão de Guantánamo, determinado em seu terceiro dia na Casa Branca, ainda não foi executado. Trump assumiu um país com a economia em bom estado, sem envolvimento em grandes conflitos e sedento por mudanças, mas as declarações de aceleração da economia e de uma América grandiosa seguem sendo apenas palavras. Cem dias já passaram, faltam 1 360.