Após terapia intensiva hospital de Goiânia vira referência

Há três anos, o maior hospital público de Goiás quase foi interditado. Mas a adoção de princípios da administração privada fez da instituição uma referência

São Paulo – Na entrada do Hospital de Urgências de Goiânia, o maior pronto-socorro público da cidade — conhecido como Hugo —, há uma sequência de retratos de paisagens goianas, como as construções coloniais de Goiás Velho, cidade tombada pela Unesco como patrimônio histórico.

No subsolo, na entrada da lavanderia, outro mural mostra um cenário bem menos agradável: uma série de 16 fotos com cenas do hospital há apenas três anos, com equipamentos enferrujados, paredes sujas, fiações expostas e esgoto escorrendo da máquina de lavar. “Queremos lembrar quanto a realidade aqui era vergonhosa”, diz David Correia, superintendente de planejamento do Instituto Gerir, instituição privada que assumiu a gestão do hospital em 2012.

O hospital já foi, de fato, um retrato do caos. Faltavam remédios básicos, como aspirinas. Era comum ver pacientes sendo atendidos em leitos improvisados no chão dos corredores. Falhas na rede elétrica interrompiam cirurgias.

Esses problemas começaram a ser resolvidos quando o governo de ­Goiás repassou a gestão ao Gerir, após a rea­lização de uma concorrência pública chamando interessados em administrar o hospital. A exigência era tirar a instituição do caos. A decisão de abrir mão da gestão pública ocorreu em uma crise: por causa dos problemas, o Conselho Regional de Medicina de Goiás pedia a interdição do hospital.

A Gerir foi formada por um grupo local de 23 médicos e gestores, e a disputa do Hugo foi seu primeiro alvo. “Vimos que a ineficiência na gestão da saúde pública abria espaço para bons administradores que quisessem atuar no setor”, diz Correia. Organizações sociais não podem, por lei, ter fins lucrativos. Mas os sócios podem ser remunerados pelos serviços prestados.

Atualmente, a Gerir comanda mais quatro hospitais públicos em Goiás, na Paraíba e no Maranhão. “A mudança trouxe excelentes resultados para o Hospital de Urgências”, diz Leonardo Vilela, secretário de Saúde de Goiás.

Uma das principais mudanças se deu no orçamento — o de 2015 é de 13,5 milhões de reais por mês. Tradicionalmente, as instituições públicas de saúde recebem recursos conforme o número de atendimentos realizados. É um incentivo ao desperdício. Especializados em cirurgias de urgência, como as de lesões causadas por acidentes de trânsito, os médicos do Hugo costumavam fazer intervenções que poderiam ser resolvidas num posto de saúde, como tirar uma unha encravada.

No novo modelo, o orçamento só aumenta com o cumprimento de metas de produtividade e qualidade do serviço. Por exemplo, o índice de infecções con­traí­das no hospital precisa diminuir. Em três anos, a taxa de infeccionados caiu de 72% para 9% entre os internados na unidade de terapia intensiva.

A gestão privada livrou o hospital das amarras da máquina pública. Antes, a exigência de licitações fazia uma aquisição de remédios demorar cinco meses. As compras agora são feitas num site que compara preços de 7 000 distribuidores, e isso rende até 70% de desconto.

Outra mudança se deu na parte de pessoal. Quando era gerido pelo governo, o hospital tinha 1 700 servidores, a maioria concursados. Alguns não apareciam para trabalhar. Boa parte deles foi realocada na Secretaria de Saúde, e os novos gestores contrataram empregados sob o regime de carteira de trabalho. As medidas ajudaram a cortar 30% das despesas. A economia permitiu adicionar 172 leitos. Em três anos, o volume de cirurgias complexas e exames dobrou.

Recentemente, o hospital passou a receber visitas de médicos e de secretários de Saúde de estados como Mato Grosso e Rio de Janeiro, interessados em copiar as boas práticas. Um dos visitantes foi o médico Claudio Lotten­­berg, presidente do hospital paulistano Albert Einstein. “As práticas de gestão e a assistência aos pacientes não devem nada às das melhores unidades de saúde privada do país”, diz Lottenberg.

A gestão de hospitais públicos por organizações sociais não é uma novidade. Esse tipo de arranjo com a iniciativa privada começou no Brasil nos anos 90. “É um modelo no qual boas práticas de gestão elevam os padrões de assistência”, diz o consultor Marcello Erich Reicher, da HQI, especializada em gestão de saúde.

Mas até recentemente esse tipo de parceria estava em risco. A lei que regula as organizações sociais, de 1998, era contestada por uma ação movida por entidades sindicais e partidos políticos, como o PT, no Supremo Tribunal Federal. Entre as alegações estava a de que o modelo ia contra o dever do poder público de oferecer serviços de saúde.

Em abril, o Supremo decidiu pela validade dos contratos. “Estados e municípios hoje têm mais segurança jurídica para contratar organizações sociais”, diz Carlos Suslik, especialista em saúde pública. A experiência goiana indica que, dessa forma, a saúde pública brasileira pode começar a sair da UTI.