Startups armam-se com tecnologia para competir com os bancos

A nova onda das startups é oferecer produtos e serviços bancários. O que você ganha e o que os bancos perdem com isso? Potencialmente, muito

São Paulo — Paul Volcker, ex-presidente do banco central americano, disse certa vez que a invenção financeira mais importante dos últimos 20 anos é o caixa automático. Tudo mais que os gênios das finanças inventaram nesse tempo todo teria beneficiado mais os próprios bancos e seus diretores do que os clientes, porque elevou lucros e bônus e não facilitou tanto assim a vida dos correntistas.

Foi, é claro, uma afirmação exagerada — Volcker estava forçando a mão na crítica porque tinha em mente os derivativos exóticos e outros instrumentos esotéricos que ajudaram a quebrar os bancos americanos em 2008. Serviços como pagamento de contas e transferência de dinheiro pela internet e pelo celular, por exemplo, são muito convenientes.

Mas a paulada de Volcker expõe a insatis­fação que persiste em relação aos bancos. Pesquisas de opinião realizadas em diferentes países mostram que a maioria das pessoas detesta lidar com bancos e, se pudesse, viveria sem eles. Num desses levantamentos, que ouviu 10 000 americanos com menos de 35 anos, 71% dos entrevistados disseram preferir ir ao dentista a falar com seu gerente.

Até que demorou muito para que empreendedores do mundo in­teiro percebessem o óbvio: há uma oportunidade aí. Milhares de startups têm surgido para oferecer produtos e serviços que, no passado, eram exclusividade dos bancos, como cartões de crédito, investimentos, seguros e até empréstimos. Só no Brasil estima-se que existam mais de 200 dessas empresas.

Nos Estados Unidos e na Inglaterra, são mais de 20 000. O volume de negócios feitos por essas companhias lá fora ainda é pequeno e não chega a 5% do total transacionado pelos bancos. Mas, considerando que as startups partiram do zero e que a maioria não tem cinco anos de existência, o crescimento tem sido impressionante — e a maioria dos especialistas espera que continue sendo.

Para a consultoria Accenture, os bancos americanos e europeus poderão perder até 35% de suas receitas para as startups até 2020. A consultoria PwC estima que o total de empréstimos pessoais feitos por essas empresas chegará a 150 bilhões de dólares em 2025 no mundo. Em 2014, esse mercado movimentou 5,5 bilhões de dólares nos Estados Unidos. 

Mas por quê? O que as startups têm de tão bom? Em geral, produtos e serviços mais baratos, mais fáceis de ser usados ou simplesmente inéditos. O uso pesado de tecnologia é o denominador comum — razão que fez essas startups ser batizadas de “fintechs”.

O PayPal, ancião da turma, tornou-se um dos principais sistemas de pagamento do mundo, com 173 milhões de contas ativas, por facilitar a transferência de dinheiro entre empresas e consumidores. E para usar o serviço basta fazer um cadastro online. Atualmente, há uma série de novos sistemas de pagamento sendo oferecidos por empresas não ligadas a instituições financeiras.

No Brasil, existe um cartão de débito que classifica os gastos do usuá­rio por categoria (alimentação, transporte etc.) e “investe” uma parte do saldo. Por meio de um aplicativo, o cliente informa quanto dinheiro quer juntar em quanto tempo — por exemplo, 30 000 reais para trocar de carro — e recebe uma sugestão de quanto economizar por semana.

Os cartões são emitidos pela Controly, start­up fundada em julho de 2015 por Pedro Conrade e que está desenvolvendo um sistema para aplicar automaticamente esses recursos em CDBs ou títulos públicos. Há ainda um cartão de crédito sem anuidade e que cobra juros inferiores aos dos bancos quando o cliente atrasa o pagamento da fatura.

Foi lançado em 2014 pela Nubank, que diz ter 400 000 clientes na fila de espera para obter um cartão (a empresa não revela quantos cartões já foram emitidos). “Conse­guimos cobrar menos porque nossos custos são muito menores do que os dos bancos.

É comum os clientes ligarem nas centrais de atendimento para saber qual é seu limite de crédito ou se uma compra já foi computada, e temos todas essas informações disponíveis num aplicativo, o que reduz nossas despesas com pessoal”, diz Cristina Junqueira, cofundadora da Nubank e ex-executiva da área de cartões do banco Itaú. Além disso, contratos e faturas são enviados de forma eletrônica aos clientes.

Outra startup que cobra juros mais baixos é a Lendico, empresa alemã que começou a atuar no Brasil em agosto de 2015. Ela oferece linhas de crédito pessoal em parceria com o banco BMG (a legislação brasileira proíbe que empresas não financeiras concedam crédito). Em média, os juros são de 40% ao ano, enquanto a taxa média desse tipo de empréstimo no país é de 120% ao ano, segundo o Banco Central.

Qual é a mágica? Os executivos da Lendico dizem usar informações que os bancos normalmente ignoram, como o perfil dos clientes nas redes sociais, seu histórico de compras online e os sites que visitam. “Os clientes autorizam nosso acesso a esse tipo de dado quando nos contratam”, diz Marcelo Ciampolini, presidente da Lendico.

“Quem acessa com frequência sites sobre hackers, por exemplo, pode ter seu crédito negado.” A maioria dessas empresas ainda depende do investimento de fundos de capital de risco para fechar as contas ou expandir as atividades. A Nubank, por exemplo, já recebeu quase 100 milhões de dólares de fundos como os americanos Founders Fund, Tiger Global e Sequoia, especializados em tecnologia.

O GuiaBolso, aplicativo que reúne as informações de contas bancárias e cartões de crédito dos usuários, classifica os gastos por categoria (como transportes, bares e restaurantes e impostos) e dá sugestões de como economizar dinheiro, recebeu 30 milhões de dólares. O aplicativo tem 1,9 milhão de usuá­rios e é gratuito. Como os donos pretendem ganhar dinheiro? Ninguém sabe.

“Ainda não temos um modelo de negócios estruturado”, diz Thiago Alvarez, fundador do GuiaBolso. Uma fonte de receitas pode vir de parcerias com bancos que devem ser firmadas neste ano. Como milhares de usuários do aplicativo entram no cheque especial todos os meses, o plano é apresentar a eles opções de crédito mais baratas de diversas instituições — e receber um pagamento dos bancos pela venda.

Relação banco-fintech

Naturalmente, os próprios bancos estão de olho nessas startups. Desde 2009, seis bancões americanos, como Bank of America, Citi e Goldman Sachs, investiram em cerca de 30 startups finan­ceiras. Em dezembro, o JP Morgan fechou uma parceria com a OnDeck, empresa especializada em captar recursos de investidores e emprestá-los para pequenas empresas.

Em oito anos, a OnDeck concedeu 3 bilhões de dólares de crédito a 45 000 empresas. “Ir a uma agência bancária vai se tornar algo obsoleto. O relacionamento será cada vez mais digital, e pode ser que os bancos enxerguem as startups como as responsáveis pelo contato com o cliente”, diz Robert Wardrop, diretor do centro de finanças alternativas da Universidade de Cambridge. 

No Brasil, a discussão sobre o impacto das “fintechs” ainda está começando. “O consumidor está mudando, e os bancos sabem que precisam se reinventar para atendê-lo. Mas não está claro como isso vai acontecer. Se vai ser por meio da oferta de novos serviços ou de parcerias com startups”, diz Erica Jannini, superintendente de gestão de tecnologia do Itaú.

Por isso, segundo Erica, o banco criou no ano passado o Cubo, um espaço de trabalho coletivo que reúne startups de diferentes segmentos, entre elas algumas financeiras, como a Kitado, empresa fundada por Paulo de Tarso Rosa, especializada em renegociação de dívidas, e a Vérios, gestora de recursos de investimentos, cofundada por Felipe Sotto-Maior.

A infraestrutura foi montada pelo Itaú em parceria com o fundo de private equity Redpoint — embora o Itaú não tenha prioridade numa possível compra, ele naturalmente sai na frente, já que ficará de olho no potencial de cada uma. “Essas empresas são especializadas. Assim, podem identificar os problemas que os clientes têm e resolvê-los de forma mais ágil”, diz Erica.


Pelo menos por enquanto, a expectativa em relação às startups financeiras não está refletida no valor das ações das que já abriram o capital. Os papéis da americana Lending Club, especializada em empréstimos, caíram quase 60% nos últimos 12 meses (a empresa vale 3 bilhões de dólares na bolsa).

Já a empresa de meio de pagamentos americana Square foi avaliada em 6 bilhões de dólares, mas passou para pouco mais de 3 bilhões após a abertura de capital. Embora a maioria das startups não divulgue seus números, sabe-se que grande parte delas ainda não dá lucro — e ainda não foi inventado um aplicativo para resolver esse problema.