Será o estouro da bolha nos EUA?

A crise nos financiamentos imobiliários nos Estados Unidos faz crescer as incertezas sobre a economia

A baiana Betânia Cavalcanti vivia na costa oeste dos Estados Unidos há dez anos quando decidiu se mudar para a Flórida com a filha e o marido em 2005. O motivo era o sonho da casa própria. Como os preços dos imóveis na Califórnia já estavam inacessíveis para a família, a solução foi a mudança.</p>

Nos últimos dois anos, Betânia não comprou apenas uma mas três casas em seu nome na região entre as cidades de Miami e Boca Raton. Além de ter um teto próprio, ela queria ganhar dinheiro em um mercado em que os preços sempre insistiam em subir.

O mais revelador é o fato de Betânia estar desempregada — e nenhuma das empresas que financiaram quase 100% dos imóveis ter pedido sequer um comprovante de renda. Um caso isolado de crédito concedido de forma irresponsável pode não significar grande coisa.

Quando essa prática é disseminada em boa parte do mercado de crédito imobiliário americano, o mundo fica em suspense. A inadimplência no setor de imóveis vem batendo recordes sucessivos.

Só neste ano, quase duas dezenas de instituições financeiras do segmento conhecido como subprime — voltado para a concessão de financiamentos para clientes de alto risco, fatia correspondente a 20% do mercado — relataram problemas em suas operações. Cinco delas fecharam as portas ou pediram falência.

No último dia 13, teve-se uma prova do que tira o sono de boa parte dos americanos. A New Century Financial, uma das maiores firmas independentes de financiamento imobiliário dos Estados Unidos, declarou não ter caixa suficiente para saldar suas dívidas e começou a ser investigada por fraude contábil. A notícia provocou uma imediata onda de baixas nas bolsas de valores mundiais.

O Índice Dow Jones, da bolsa de Nova York, caiu 2%, enquanto o Ibovespa perdeu 3% em um dia. Mais do que balançar os mercados, a principal conseqüência dessa piora do cenário foi reacender as dúvidas sobre o tamanho do ajuste que deve ocorrer no setor imobiliário. Voltaram os temores de que os Estados Unidos podem estar diante de uma aterrissagem de emergência.


A construção e a venda de casas, apartamentos e escritórios é uma das maiores locomotivas da economia americana há quase uma década. Cerca de 10% do produto interno bruto do país depende diretamente desse setor.

Passados alguns dias do baque no mercado de ações, a maioria dos especialistas não acredita em tragédias. “O risco de uma crise mais grave existe e não pode ser desprezado, mas não parece provável hoje”, diz Ricardo Amorim, economista do banco WestLB. A tensão diminuiu porque ficou claro, nos últimos dias, que o problema é localizado no subprime.

Relatórios das agências de risco Fitch Ratings e Moody’s prevêem redução de apenas 0,2% no PIB americano em razão da atual crise — se ela efetivamente permanecer controlada. A pergunta de 1 milhão de dólares hoje é se mutuários como Betânia, ante um cenário de preços que pararam de subir, irão devolver ou vender suas casas.

Se muita gente seguir esse caminho, a revenda dos imóveis pode jogar para baixo os preços de um mercado que já mostra sinais de estagnação. Uma queda radical nos preços seria um terremoto para o sistema financeiro. Mesmo quem optar por não devolver a casa, mas refinanciar as hipotecas, poderá enfrentar problemas. Os mutuários terão de pagar taxas de juro maiores que as contratadas inicialmente — situação que pode levar a mais problemas.

As dificuldades atuais decorrem da euforia que tomou parte do mercado nos últimos anos. Desde 2003, o subprime vem sendo o nicho mais promissor do mercado de imóveis. “Agora, está se vendo que esse setor cresceu além do que podia”, diz Rui Pereira, diretor da Fitch em Nova York. “Já tivemos cerca de 60 instituições trabalhando só com subprime. Hoje, restam menos de 40, e não me surpreenderia se todas fossem vendidas ou fechassem as portas nos próximos meses”, diz Mark Zandi, economista-chefe da Moody’s Economy.com, braço de consultoria da Moody’s.

É natural que um ajus te tão profundo como esse respingue em outros segmentos do mercado financeiro — e foi o que ocorreu. Lehman Brothers, Merrill Lynch e outros gigantes do varejo bancário americano devem ter seus resultados prejudicados porque emprestaram bilhões de dólares às instituições que operam no subprime e também porque investiram em papéis lastreados nesses créditos.

Além disso, bancos como o HSBC, que compraram firmas menores para atuar nesse mercado, foram obrigados a aumentar as provisões para perdas com inadimplência. Ainda assim, a aposta — ou a torcida — dos analistas é que as conseqüências fora do subprime não sejam grandes.

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