Que tal uma “Carta aos Brasileiros”?

Está chegando a hora de Dilma explicar ao país quais são, afinal, seus planos em termos de estatização da economia

Épossível que esteja chegando a hora, para a presidente Dilma Rousseff e seu governo, de começar a pensar seriamente numa nova “Carta aos Brasileiros”. A primeira, apresentada nove anos atrás, na campanha eleitoral que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República em 2002, expunha as garantias do candidato e de seu partido de que não haveria, em caso de vitória, mudanças radicais na economia brasileira.

Nada de novos pacotes, dizia-se ali, nem planos “heterodoxos”, nem quaisquer tentativas de resolver problemas fora da racionalidade econômica. O compromisso assumido era de respeitar contratos e não mudar as regras no meio do jogo.

O novo governo se propunha a mudar ênfases e programas de ação, mas prometia não abolir a aritmética e salvaguardar as conquistas dos oito anos anteriores no controle da inflação e das contas públicas. Deu certo.

Não apenas Lula foi eleito e reelei­to como acabou cumprindo, basicamente, o que havia anunciado. Talvez tenha chegado o momento, agora, de fazer algo equivalente.

Não em torno dos mesmos pontos, mas para esclarecer algo que pouco a pouco vai se tornando razoavelmente obscuro: quais as reais intenções do atual governo em termos de estatização da economia e qual é a sua sinceridade quando se manifesta a respeito do assunto.

Palavras claras nessa área seriam bem-vindas, diante das difusas desconfianças que começam a aparecer — nada de mais preciso ou oficial, mas uma surda sensação de que o presente governo estaria entrando num clima de romance com a ideia, tão empolgante para muitos de seus cardeais, de que uma boa dose de estatização seria o que a economia brasileira mais necessita no momento.

Há muitos sinais desse tipo de disposição rolando na praça. A remoção do executivo Roger Agnelli da presidência da Vale, empresa privada onde a máquina pública tem influência crucial como grande acionista, é um deles.

Agnelli e sua equipe achavam que a Vale devia agir como uma empresa de mercado, comprometida com a defesa de todos os seus acionistas, e não como um braço da administração pública, com o dever de atender prioritariamente aos interesses do governo. Teria havido, em sua demissão, uma espécie de tiro de advertência?


O trem-bala Rio-São Paulo-Campinas, esse inevitável trem-bala, pode ser farinha do mesmo saco — sua possível existência acaba de ser entregue a uma empresa estatal. Há murmúrios, aqui e ali, de que o BNDES deveria exercer uma maior intervenção na gestão das empresas privadas que lhe devem financiamentos.

Fala-se, no setor bancário, da eventual necessidade de reforçar vigorosamente o porte do Banco do Brasil, por exemplo, para lhe dar condições de competir no mercado internacional.

O governo Dilma pode alegar, sem dúvida, que não fez até agora nenhuma declaração oficial importante e definitiva em favor de uma maior estatização da vida econômica brasileira. Mas também não disse nada que pudesse ser considerado o contrário disso.

Estaria na hora de dizer, para desfazer as nuvens que vão se juntando no horizonte. A menos, é claro, que suas intenções reais sejam mandar cada vez mais na economia, nas empresas e nos mercados. Aí, é claro, não tem mesmo de fazer carta nenhuma.

É uma época de grandes portentos, realmente, a que estamos vivendo. O real fica cada vez mais forte, e ninguém faz a menor ideia de como mudar isso — logo o real, moeda de um país que jamais teve uma divisa decente em toda a sua história econômica.

Uma das principais agências internacionais de avaliação de risco ameaça rebaixar os Estados Unidos da sua eterna posição de AAA — logo os Estados Unidos, onde qualquer problema no pagamento da dívida pública é tido, há mais de 100 anos, como uma impossibilidade científica.

A quem apelar? Economistas, empresários de porte mundial, ministros, prêmios Nobel etc. não podem ajudar — simplesmente não sabem o que está acontecendo.

Chamem os universitários.