Procurando o remédio errado para a crise na Europa

Não são os “mercados” que obrigam países como a Grécia a gastar mais do que têm, mas seus governos. Brincar de vítima não vai ajudar ninguém a sair do buraco

São Paulo – A cada novo movimento que é feito nesta demorada agonia econômica, financeira e política da Grécia, parece ficar claro que não existe nenhuma solução coerente para a insolvência crônica do país, com tudo de ruim que isso pode trazer para o resto da Europa e do mundo em geral — ou, se essa solução existe, ninguém até agora tem a menor ideia de qual possa ser.

Não importa quantas reuniões descritas como de alto, ou mesmo de altíssimo, nível sejam feitas entre chefes de governo e autoridades máximas de ministérios econômicos, bancos centrais e organismos financeiros internacionais.

Não adianta a Alemanha, país essencial em qualquer plano de resgate, insistir para que os gregos se transformem em alemães, com os mesmos valores, disciplina e hábitos de trabalho. Tanto faz que os credores aceitem, por não verem alternativa, perdas horrendas no recebimento de seus créditos — e façam, com isso, o montante da dívida reduzir. 

Não se vê alívio nem mesmo com o oceano de dinheiro que a comunidade econômica mundial decidiu destinar à solução do problema. Na semana passada, no mesmo momento em que se acertava despejar 130 bilhões de dólares na Grécia para recolocá-la mais ou menos de pé, já se dava como certo que esse dinheiro todo não vai resolver realmente coisa alguma de forma duradoura; pode haver um alívio temporário e parcial, mas a encrenca não irá embora.

É o diabo. Se 130 bilhões de dólares não servem mais para nada, como o mundo financeiro internacional está convencido, aonde é que vamos chegar? Está certo que nos dias de hoje, quando qualquer pobre diabo ouve falar em trilhões de dólares e não demonstra o menor respeito por essa fileira toda de algarismos, meros bilhões podem soar como um trocadinho.

Mas é dinheiro. No caso, os 130 bilhões de dólares concedidos à Grécia equivalem a mais de 40% de todo o PIB do país, estimado em 300 bilhões pela taxa de câmbio oficial — seria como se o Brasil, com um PIB de 2,5 trilhões pelo mesmo critério, recebesse de uma hora para outra um ajutório de 1 trilhão de dólares.

Quem vai dizer que isso é pouco? São cifras que certamente dão o que pensar. O mundo econômico atual, aparentemente, vai expandindo para terras não mapeadas os volumes que é capaz de gerar; há uma nova matemática no dia a dia de governos, organizações mundiais de finanças, bancos, investidores, empresas e, ao fim da linha, de uma forma ou de outra, de todos os cidadãos.


Essa imensidão de números, com lastro real ou gerados por práticas contábeis, levanta uma série de questões. Uma delas é a responsabilidade que deve ser cobrada de quem gera os recursos — os quais, em vez de gerar prosperidade, geram crises intratáveis como a da Grécia.

Certas ideias, nestes tempos de raciocínios automáticos que vivemos, costumam ser adotadas com a rapidez e a ligeireza com que se adotam a última moda em calças jeans, marcas de cerveja ou passatempos digitais. É o que parece estar acontecendo com a atribuição de culpas pela desordem financeira internacional ora em evolução.

Foi abraçada, quase como unanimidade, a ideia de que os responsáveis por tudo são “os mercados” — bancos, fundos de investimento e outros investidores, agências de rating, analistas de casas financeiras e, de um modo geral, todos os que se dedicam a ganhar dinheiro com dinheiro, ou pelo menos tentam fazer isso.

Os próprios habitantes desses “mercados”, inclusive, parecem concordar que “está tudo errado” e que é preciso mudar “alguma coisa”. Fala-se, acima de tudo, num “modelo que faliu” e na urgência de reforçar o controle do Estado sobre o mundo financeiro privado.

Vai ficando cada vez mais esquecido, nessa onda de penitência, que o modelo que real­mente faliu foi o do Estado grego — e de todos os que se comportam como ele. Não são os “mercados” que obrigam os países a gastar mais do que têm; quem faz isso são os seus governos. Fazer de conta que os Estados são vítimas, e não réus, é procurar o remédio errado.