Parcerias com empresas melhoram cidades sem onerar o Estado

Parcerias como a gaúcha POAdigital, entre gestores públicos e empresas de tecnologia, estão gerando mais serviços à população. E o melhor: sem onerar o Estado

São Paulo — Nos últimos três anos, os moradores de Porto Alegre acostumaram-se a contar com um leque de serviços públicos literalmente na palma da mão. A rede mu­nicipal de 133 postos de saúde e hospi­tais está conectada ao aplicativo para celular DoctorPOA.

Na hora de jogar fora pilhas e baterias, cujo descarte inadequado é proibido, é possível consultar no LimPOA qual é o ponto de coleta mais próximo entre os 3.000 autorizados na cidade. Para fazer uma reclamação no Procon, basta preencher um formulário no aplicativo do órgão.

Desde a estreia, em abril do ano passado, o programa aumentou 60% as ocorrências, que também ficaram mais ágeis: a demora por solução caiu de 15 para dez dias, em média. Para descobrir horários e rotas de 400 linhas de ônibus, basta conectar o celular ao Moovit, sistema que reduziu o tempo de espera nos pontos e mudou hábitos de alguns moradores.

“Hoje, raramente uso o carro para ir ao trabalho”, diz a advogada Daniela Froener, de 27 anos, moradora de Porto Alegre. O aplicativo que motivou Daniela a usar o transporte público é um dos 30 à disposição dos porto-alegrenses gratuitamente. As tecnologias são apoiadas pela prefeitura, que não desembolsou um centavo por elas.

As ferramentas foram desenvolvidas por empresas parceiras do POAdigital, programa montado pelo prefeito José Fortunati em 2013. A missão do POAdigital é solucionar problemas urbanos sem onerar as finanças municipais.

A austeridade nos gastos colocou Porto Alegre numa situação invejável: mesmo com queda de 6,5% nas receitas em 2015, o município fechou as contas no azul pelo segundo ano consecutivo, com 200 milhões de reais no caixa da prefeitura.

A circunstância é bem diferente da encontrada no Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul: o rombo nas contas, que já beira os 5 bilhões de reais, fez o governador José Ivo Sartori tomar medidas drásticas, como o parcelamento do salário de servidores. Como a crise tem batido tanto na porta estadual como na municipal, expandir serviços públicos num cenário adverso seria temerário para Porto Alegre.

Nesse quadro de penúria, o POAdigital, por não usar recursos públicos, ganhou relevância. “Sem as parcerias, dificilmente teríamos acesso a tantas tecnologias tão rapidamente”, afirma Fortunati. Entre as empresas de tecnologia parceiras do POAdigital estão marcas que expandiram a presença local com o empurrão da prefeitura.

Em 2014, a rede social Twitter implantou na cidade um sistema de alertas de trânsito e enchentes via SMS e e-mail acompanhado por 500 000 moradores. A israelense Moovit tem 400 000 usuários em Porto Alegre, terceiro maior mercado da empresa entre 800 cidades no mundo.

No ano passado, a empresa de tecnologia IBM colaborou para o cadastro online de 270 pontos de apoio ao empreendedorismo na cidade, entre startups e investidores. “Queremos fomentar os negócios entre eles”, diz Claudio Bessa, diretor da IBM. Hoje é a prefeitura que contabiliza os benefícios.

“A arrecadação de impostos municipais no setor de tecnologia subiu 7% em 2015”, diz Thiago Ribeiro, coordenador do POAdigital. Mas o que motiva uma empresa a fornecer ao governo sem ganhar nada diretamente? O primeiro motivo é a oportunidade de abrir portas para outros negócios. Como os governos se relacionam com uma audiência vasta, a parceria serve de cartão de visita para novos clientes.

Além disso, o serviço a uma cidade funciona como um laboratório: falhas podem ser consertadas antes de o produto ser consumido por quem vai pagar. “É uma consultoria gratuita”, diz Samantha Carvalho, sócia do Queen Mob, desenvolvedora gaúcha de aplicativos de times de futebol, como o Corinthians, e responsável pelo Procon online.

“Mudamos boa parte de nosso portfólio após sugestões dos usuários do Procon.” Por último, o fato é que trabalhar de graça para o poder público pode ser mais barato do que cobrar. Segundo a Citymart, empresa americana de arranjos público-privados, uma startup gasta 150 000 dólares em salários e trâmites burocráticos para fechar um contrato com o poder público, o que pode levar até três anos.

Isso é quatro vezes o que gastaria para fornecer a uma empresa privada. O modelo de “ganha-ganha” tem inspirado iniciativas pelo Brasil. Em 2014, a prefeitura carioca lançou o Rio Smart City, projeto em que a startup francesa Connecthings instalou adesivos com códigos em pontos de ônibus.

Num toque de celular, é possível consultar o horário das linhas e ter informações turísticas. Recentemente, o governo paulista divulgou o programa Pitch Gov SP, para 15 startups criarem soluções para os desafios da gestão pública, como provas online de 4 milhões de estudantes.

As iniciativas mostram que, aos poucos, o Estado brasileiro está descobrindo que dá para fazer mais e gastar menos — ou mesmo não gastar nada.