No Vale do Silício, os nerds estão sob ataque

As empresas de tecnologia do Vale do Silício trouxeram para São Francisco uma riqueza invejada no mundo inteiro, mas uma parcela da população não para de protestar contra os bilionários da internet

São Paulo – Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, está reformando uma casa de 10 milhões de dólares no bairro de Mission, em São Francisco. A pouco mais de 1 quilômetro dali, mora Evan Willians, um dos fundadores do Twitter. Jack Dorsey, também sócio da rede de microblogs, vive numa mansão no topo de um penhasco com vista para a ponte Golden Gate.

Nos últimos anos, milionários e bilionários do Vale do Silício, a poucos quilômetros de São Francisco, encontraram um cantinho para chamar de seu na cidade. O que seria motivo de orgulho para moradores de outros lugares é fonte de irritação para uma parte ruidosa da população.

O motivo é a expulsão dos habitantes pobres e de classe média da cidade. Nos últimos meses, as manifestações contra as companhias de tecnologia se multiplicaram. Moradores começaram a bloquear a saída dos ônibus fretados que levam os funcionários de empresas como Google, Yahoo! e Apple para as respectivas sedes nos arredores da cidade.

Em julho, o alvo da fúria passou a ser Jack Halprin, advogado do Google que comprou um edifício na cidade há dois anos e vem desalojando os moradores. 

Se todo lugar que se preze sonha em replicar o sucesso do Vale do Silício, por que justamente São Francisco está sendo o palco de tanta gritaria? De forma curta e grossa, porque nenhum outro lugar é como São Francisco. A cidade é um dos berços da contracultura americana.

Nos anos 50, artistas do país inteiro chegaram em busca de liberdade e inspiração. No clássico On the Road, livro publicado por Jack ­Kerouac em 1957, São Francisco é um lugar vibrante onde rebeldes e românticos se encontram nos clubes de jazz.  Nos anos 60, o termo hippie foi cunhado lá.

Desde essa época, a cidade virou sinônimo de diversidade étnica, cultural e sexual. A imagem que os moradores têm de si mesmos é influenciada por esse histórico. E o problema agora é que parte das pessoas que dão esse colorido à cidade está sendo expulsa. 

Mesmo com a crise na economia americana, o valor do metro quadrado em São Francisco aumentou 60% na última década. Os altos preços dos imóveis tornaram a cidade praticamente inacessível à classe média — apenas 14% das residências à venda cabem no orçamento dessas famílias.

Um apartamento de um quarto custa cerca de 740 000 dólares — a título de comparação, uma casa de quatro quartos em Boston é negociada por 525 000 dólares. Ficou mais caro morar de aluguel em São Francisco do que em Nova York.

“A enxurrada de trabalhadores afluentes cria um ambiente propício para a especulação imobiliária, expulsando os trabalhadores mais pobres”, afirma Maria Poblet, diretora da organização não governamental Causa Justa, de São Francisco. A desigualdade no município disparou — é a segunda maior do país, atrás de Atlanta. 

Muitos nerds, poucos empregos

O fenômeno que ocorre em São Francisco é conhecido como enobrecimento urbano (gentrification, em inglês). Acontece na maior parte das cidades. Pessoas mais abastadas compram imóveis em regiões recentemente valo­rizadas e acabam expulsando os antigos moradores. O que chama a atenção em São Francisco é a rapidez com que isso tem acontecido.

Escritório do site Airbnb, em São Francisco: concentração de startups (Ole Spata/Latinstock)

De 1980 a 2010, a proporção de negros caiu de 13% para 6%. No bairro de Mission, que con­centrava a população latina, o comércio de rua conduzido por imigrantes deu lugar a restaurantes sofisticados e ­lojas de decoração.

Do ponto de vista econômico, o bairro está renas­cendo.

Novos negócios e imóveis recuperados passam a fazer parte do cenário.

O efeito colateral é que a população de baixa renda que morava de aluguel acabou despejada e só encontra mo­radias precárias em lugares ­distantes. A prefeitura se diz preocupada com a situação.

“Estou plenamente consciente da necessidade de manter uma economia diversificada e que atenda a todos os setores de nossa sociedade”, disse a EXAME Ed Lee, prefeito de São Francisco. 

O prefeito Lee promete não ficar apenas no discurso. Tem um plano de construir 30 000 casas para famílias de baixa renda até 2020 e está empenhado em atrair empresas de outras áreas. Startups do setor de tecnologia têm sido uma boa fonte de ricaços. No ano passado, promoveu mais de 20 aberturas de capital.

Em toda a Grande São Francisco, há 71 bilionários, uma das maiores concentrações do mundo. A questão é que essas empresas geram cada vez menos empregos. Em 2012, quando o aplicativo de compartilhamento de fotos Instagram, de São Francisco, foi comprado por 1 bilhão de dólares pelo Facebook, 13 pessoas trabalhavam na empresa.

Esses profissionais são, em sua maioria, gente com diploma de engenharia das melhores universidades americanas. É por isso que a prefeitura quer convencer empresas da indústria e do comércio a se instalar na cidade e criar vagas também para trabalhadores menos qualificados.  

Quem ouve os protestos mais inflamados pode ficar com a impressão de que São Francisco está em uma crise terminal, o que não poderia estar mais longe da realidade. As empresas do Vale do Silício, que nasceram ao redor da Universidade Stanford e de sua cultura de inovação tecnológica, contribuíram em 2013 com 9,2 bilhões de dólares em salários para a economia local.

“A maioria das cidades adoraria ter os problemas que temos. Todos eles são fruto do crescimento rápido”, diz o economista Sean Randolph, presidente do Conselho Econômico de Bay Area, centro de pesquisa privado. São Francisco é parte do cluster tecnológico que está transformando de forma radical a economia global.

Se continuar enriquecendo e, ao mesmo tempo, conseguir manter sua identidade, São Francisco vai certamente se tornar ainda mais alvo da inveja do mundo — e voltar a ser amada pelos seus.